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Chifres, patas e garras

Não quero sua polidez reluzente
de tão bem educada e delicada
Não quero sua delicadeza fofa
de suavidade acolhedora e indiferente
Quero mesmo é teu verbo violento
de me ferir os olhos e reverberar dolorosamente em meus ouvidos
Quero sua brutalidade em me empurrar para frente ainda que me cause ferida
e tire pedaço destes pés fincados no chão por medo de me arriscar
Se me falta coragem, que seja teu amor a me arremessar para fora do meu lugar
e me fazer andar.

@ivonepita

Dentro de mim

Trago dentro de mim uma menina:
arteira, implicante, tagarela, fofa,
maluquinha, paisagista, ceguinha,
Magoo.

Carrego dentro de mim uma pessoinha:
doce, falante, divertida, agitada, atenciosa,
saltitante, entusiasmada, esperta, sorridente
e totalmente fora do carrossel.

Levo dentro de mim uma mulher:
querida, cuidadosa, inteligente, forte,
frágil, estável, generosa, inconstante,
coerente, corajosa, insegura, contraditória,
uma orquídea.

Agita-se dentro de mim uma puta:
sacana, debochada, desbocada, displicente,
leviana, perspicaz, irônica, intensa, narcisista,
egocêntrica, autorreferente, convencida,
sempre tão viva.

Todas se manifestam.
Todas se conflituam.
Todas se harmonizam.
Todas se complementam.

Todas me tocam.
Todas me atravessam.
Todas me desafiam.
Todas me animam.

Todas me habitam.

Em todas elas delicadezas,
sorrisos rasgados, risadas desmedidas,
sutilezas, licenças poéticas,
reações calorosas, fome de mundo,
desejo de vida, conversas randômicas,
humor sem critério.

Cada uma delas é imbecil,
boba, ridícula, besta.

Feliz com tudo.
Feliz por nada.

Em cada uma delas tudo é enormidade,
Tudo é intenso, tudo é inteiro.

Com cada uma delas tenho boas lembranças,
alegrias, desejos, sonhos e planos.

Com todas elas, mesmo sendo tão jacu,
me permito sempre um pouco mais.

Com cada uma delas,
grandes encontros,
caminhos atravessados,
beijos estalados,
abraços apertados,
olhares devassados,
a certeza do afeto,

o pacotinho completo.

@ivonepita

Algo de podre.

Parece que em todo lugar que olhamos aquele bicho que a tudo corrói de forma voraz, insaciável e inescrupulosa está lá: o corrupto. E, praga das pragas, parece se multiplicar sem controle. A podridão corre solta, todos veem: nas câmaras municipais e estaduais, no congresso, em empresas, em negócios de família e até em relações das quais nem desconfiávamos ou em instituições em que deveria ser impensável. É muito difícil não nos desgastarmos a ponto de fugirmos, deixarmos para lá. No entanto, por mais que possa soar estranho aos ouvidos, parecer incomum aos olhos e inacreditável para nossa abalada confiança, há quem faça política, institucionalizada ou não, de outra forma.

Mas esconder, escamotear, desvirtuar as questões importantes e que realmente afetam nossas vidas é tarefa primordial para quem quer se manter no poder, ainda que tenham que mentir ou distorcer fatos, evidências e até mesmo leis. Vejamos, por exemplo, a questão do voto nulo e do voto branco. Desde 1997, votos nulos e brancos não são considerados nas eleições, pois não são votos válidos e, no entanto, há inúmeras e insistentes propagandas, inclusive com grande suporte de marketing, que insistem em divulgar que voto nulo consegue cancelar uma eleição, algo presente no código eleitoral de 1965, como se não tivessem ocorrido alterações posteriores. Pelo forte aparato com que contam tais propagandas enganosas, como sites, blogs e propagandas persuasivas, pode-se notar uma evidente estratégia de afastar os eleitores do poder que tem de destituir os corruptos de seus cargos. Afastando os cidadãos do exercício do voto, quem está no poder, por ter sido eleito por um contingente de eleitores, sabe que pode contar com o mesmo contingente e se perpetuar no poder. E as pessoas que acompanham os casos de corrupção, os escândalos de sonegação, de desvio de verbas, a não aprovação de projetos importantes e a aprovação acelerada de projetos que beneficiam grupos no poder, acabam por acreditar, então, que o melhor caminho é a anulação do pleito, sem saber que estão sendo bárbara e deliberadamente enganadas. E isso é tudo que os donos do poder querem: que os que poderiam fazer diferença votem nulo.

Votar nulo ou em branco é ficar de fora do processo de eleição e deixar que outros votem e decidam por nós. E podemos ter certeza absoluta que muita gente, muita gente mesmo, comemoraria se LGBTs, feministas, negros, índios e outros tantos grupos marginalizados apenas não votassem, pois não votar não provoca qualquer mudança. Dizer apenas que não concorda com coisa alguma, que é tudo sujeira e não se envolver não votando, não faz diferença, pois as instituições de poder não desaparecem somente por isso, o sistema não muda – nada é alterado pelo voto nulo. A única coisa que pode alterar o quadro que se apresenta somos nós. E nosso maior poder contra a corrupção institucionalizada – no momento – é o voto. Portanto, sem qualquer exagero: uma das maneiras de mudar o país é votando. Muitas mudanças podem vir através do voto, retirando do poder os políticos corruptos e conservadores tacanhos que não deixam o país avançar em várias direções. Uma profunda mudança é possível com a eleição dos nossos representantes, não somente LGBTs e feministas, mas representantes de outros grupos sociais marginalizados, discriminados e lesados historicamente. Isso poderia mudar este país de um jeito que ainda estamos por ver. E isso, sim, depende não do voto nulo, mas somente de nós eleitores, do nosso voto.

Precisamos mudar quem está na política institucionalizada, quem a faz. E podemos fazer isso através do voto, afinal, foi através dele que estas pessoas foram e são eleitas e é através dele que outras pessoas melhores podem ser postas no lugar delas – basta vermos a atuação de Jean Wyllys no Congresso Nacional, por exemplo. Jean é um grande exemplo de como a política pode ser feita de forma diferente da que estávamos acostumados a ver. É possível haver compromisso, responsabilidade, coragem e lisura. E é assim: através do voto que elegemos quem faz as leis contra ou a nosso favor. Outros grupos estiveram e estão organizados para votar em seus representantes, que defendam os seus interesses. Por tudo isso, em vez de anularmos nosso voto, devemos nós também estarmos organizados e votar em candidatos que tenham provado estar do nosso lado, que estejam realmente comprometidos com as lutas que são nossas, nas quais acreditamos. E se eles não forem eleitos, ao menos teremos tentado. Lutar jamais é fracassar, mas não tentar é fracasso antecipado. Não devemos pensar que com nosso voto somos apenas uma pessoa lutando, há sempre muita gente que pensa como nós, basta nos descobrirmos, nos encontrarmos e nos organizarmos. Precisamos sempre nos lembrar que “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, mas se juntar o bicho corre”!

@ivonepita

Acenar é preciso.

o aceno sempre pode ser uma arte
daquelas visíveis para poucos
ou somente para duas pessoas
o aceno por carta
por riso
por gesto
por uma surpresa
um presente
um correio

o aceno para dizer oi
até mais
me espere
que bom te ver
estou feliz com você
senti saudade
te gosto
te quero
te espero

o aceno que nem sempre se vê
o aceno envergonhado
um sorriso de cabeça baixa
uma careta seguida do riso tímido
acenos

os que são evidentes
que são acordados socialmente
os cordiais e protocolares
os acenos surpreendentes
involuntários
denunciadores
que entregam o desejo
acenos necessários
acenos a não restarem dúvidas
acenos que estabeleçam laços
que evitem o rompimento
que assegurem
em reposta a outro aceno
como declaração de amor
aceno para dizer que não,
aceno para dizer que sim,
aceno que pede tempo
que se despede
que avisa do retorno
que assinala reencontro
aceno para não deixar escapar
aceno para dizer eu vi
recebi
gostei
aceno que diz ainda estou por aqui

aceno para acariciar
para acalmar
para aplacar
para apaziguar

aceno que não deixe dúvida sobre seu significado
que estabeleça laço, ponte, entendimento
aceno para não deixar no vazio
aceno para que não se pense que a espera é vã
aceno para se dizer sem falar
aceno para se poder em paz aguardar
aceno sem ruídos
direto
aceno eloquente
que talvez diga apenas um aguente
e que, sim, é afeto o que se sente

@ivonepita

O que acontecerá com os filhos de casais LGBT?

Quando pessoas desagradáveis – para dizer o mínimo – dizem que a mãe é sapatão e o pai é viado, apontando isso como um demérito, como uma falha, como uma aberração, basta explicar tudo direitinho: que o problema é dos outros! E avisar e preparar os filhos para o que eles vão enfrentar. Afinal, quem, na infância ou na adolescência, nunca sofreu pelos amigos dizerem coisas horríveis sobre os pais? Tudo depende de como somos preparados para o enfrentamento e de como nossos pais nos apoiam. E isso serve para qualquer constituição familiar.

Há apenas algumas décadas havia um grande alarde sobre como filhos de casais inter-raciais enfrentariam tal situação e que isso seria um problema imenso. E, então, os conservadores – novamente para dizer o mínimo – de plantão, logo se arvoravam de defensores das crianças e se posicionavam contra relações inter-raciais. Imagine uma criança negra filha de pais brancos ou uma criança branca filha de pais negros?! Isso seria, certamente, traumático para a criança. Como adultos iriam impor isso a criaturas tão indefesas e que não escolheram isso?! Foram os pais que traçaram tal destino para a desamparada criança.

Tudo isso como se todos nós escolhêssemos os pais que queremos ter e jamais sofrêssemos agressões por causa deles e das mais variadas – pais gordos, pais velhos, pais baixos, pais carecas e mais uma infinidade de bobagens. Mas, obviamente, os tais autointitulados baluartes da família “natural” não eram racistas, pensavam somente no bem da criança! Exatamente como fazem agora: eles não têm nada contra os LGBTs, preocupam-se somente com as criancinhas do Brasil. Por isso nos tratam tão bem, com tanto respeito e consideração, a questão é somente o que iria acontecer com a criança.

Ora, eu não sei o que acontecerá com crianças criadas por casais LGBT, eu sei o que já está acontecendo. A criança criada por LGBT pode ter uma boa chance de aprender desde cedo que é tudo muito natural e, claro a relação com seus pais e/ou mães assim também o é. É a família que ela conhece e ama. Ela não julga, não acha errado, não vê coisa alguma de mais (nem de menos!).

Aqui na cidade do Rio de Janeiro, há escolas em que dependendo se é dia dos pais ou das mães, os alunos levam dois ou nenhum presente para casa. Simples assim. Sem traumas. Ninguém morre ou surta por isso. Na reunião de pais, revezam dois homens ou duas mulheres. Ao chegarem à escola, estes alunos são deixados por seus pais e/ou suas mães, todos sabem quem é quem e todos convivem muito bem, harmoniosamente e sem disfarces. E há muito mais acontecendo neste sentido do que alguns imaginam e acontece assim, desta forma tranquila e agora, em nossos dias. Acho que esta discussão, inclusive, já deveria ter sido superada, pois todos sabem – exceto se a criatura tiver passado as últimas décadas em uma caverna no aconchego do centro da Terra! – que o casal não determina a sexualidade da criança e que o fato da constituição familiar não estar alinhada aos moldes conservadores, não impede um lar amoroso e uma vida saudável.

É preciso, portanto, lutarmos contra as possíveis discriminações e nunca – jamais! – permitirmos o impedimento ao amor, ao afeto, à família. Por isso devemos nos unir e lutar cotidianamente: por nosso direito à felicidade, não somente a minha e a sua, mas a de cada um de nós tão diferentes e tão iguais em desejos.

@ivonepita

Eleição, afeto e equívocos.

Nestes últimos dias, desde que anunciei minha pré-candidatura, e agora já em campanha, tenho recebido muito apoio, muito carinho incentivo. Estando com Jean e falando com as pessoas, pude perceber o mesmo: muito afeto. É uma linda – linda mesmo! – profusão de elogios, abraços, beijos, poses para foto. É bom demais ficar junto de pessoas que em vez de nos atacarem por nossa luta e nossas escolhas nessa trajetória, chegam junto para ou apoiar tudo o que fazemos ou discordar em parte com diálogo e novas ideias. É delicioso poder conversar, debater questões importantes para o país e especificamente para o Estado do Rio de Janeiro com gente realmente disposta a ouvir e a falar. Depois de encontros como este, a sensação é de força renovada, é de termos mais fôlego e a maravilhosa confirmação de que não estamos sozinhos, há interlocutores, ótimos interlocutores na concordância e na discordância e há gente que vem junto, que caminha junto, que ora vem ao lado ora vem atrás ora nos puxa pela mão e nos diz para seguir em frente. E isso é imensurável é sensação quase indescritível.

No entanto, um equívoco é facilmente identificado no meio de tanta conversa boa e tanto afeto: a crença de que Jean Wyllys já está eleito, a aposta de que eu irei facilmente junto ou de que já estamos eleitos por sermos bem conhecidos entre ativistas de Direitos Humanos. E é um grave equívoco. Tão grave que a insistência ou superação de tal engando pode significar em grande parte a definição de nossa eleição ou não. Explico: por melhor que tenha sido e seja o trabalho de Jean, com as conquistas que alcançou, com os prêmios que recebeu, com os eventos em que esteve presente, e por mais que eu esteja nas redes, leiam e admirem meus textos e eu participe de manifestações, ainda assim, nós dois somos totalmente engolidos pela avalanche de propaganda de nossos concorrentes. E isso não é pouco. Não é pouco mesmo. A gente sabe bem que boa parte da população vota das formas mais aleatórias, pelos motivos mais inesperados e em quem dizem para votar ou naquele número daquela pessoa de quem recebeu um “santinho”. Além disso, há ainda o poderio dos que fazem parte dos jogos de poder, dos que tem ligações com os donos do dinheiro, que são donos do dinheiro, dos que tem relação com os donos ou são eles mesmos proprietários de veículos midiáticos. E assim, contra tudo isso, lutando para não sermos engolidos por todos estes monstros que sabem facilmente triturar os adversários, é que Jean Wyllys e eu seguimos nestas eleições.

E, então, em frente nós caminhamos felizes e fortalecidos pelo afeto, preocupados com a participação efetiva de quem acredita em nós. Nossa preocupação é que cada pessoa que sabe de nossa campanha, que conhece nossos trabalhos, como lutamos, o quanto lutamos, pelo que lutamos e tudo aquilo em que cremos e temos compromisso, realmente participe dessa caminhada. Não temos dinheiro, não temos acordos espúrios – nem queremos! -, não somos de famílias de empresários nem da imprensa nem de outros setores, contamos com a força dos nossos pares. Contamos com a contribuição de quem vem mesmo junto, contribuindo com o que pode, seja doação em dinheiro, em material, em trabalho voluntário de panfletagem, em abertura de comitê, em promoção de reuniões, em divulgação de nossos cartazes pelas redes. E é isso: mesmo com apenas uma mudança de imagem de perfil, colocando a minha foto com Jean, a ajuda à campanha é imensa. Várias pessoas não sabem se Jean é candidato à deputado federal ou estadual, por mais incrível que possa parecer a nós que participamos mais de perto do ativismo. Várias pessoas não sabem que, finalmente, me sinto preparada e resolvi me candidatar à deputada estadual. E não temos realmente como ampliar nossa força de propaganda senão pela colaboração de quem acredita na gente. Não temos como fazer frente ao poderio dos conservadores, dos fundamentalistas, dos que estão lá desde sempre, o que promovem apenas mais do mesmo, senão pelo apoio e participação efetiva das pessoas que querem mudanças, que nos conhecem e sabem quais são nossos compromissos. Por isso, não se iluda de que é ou será fácil, não se acomode por ver outras pessoas nos divulgando e apoiando, sua participação é muito importante. O apoio de cada pessoa é fundamental. Então, venha participar de forma concreta das nossas campanhas. E agora, no minuto em que lê este trecho, pois basta a divulgação de uma imagem, por exemplo, algo tão fácil, simples e rápido, e não temos tempo algum a perder, afinal, ainda temos tanto a fazer e a conquistar pelo bem comum. Tanto!

Divulgue o cartaz abaixo em seu Facebook, no Twitter, no Whatsapp e em todas as redes que puder e venha participar do grupo em que planejamos ações, divulgamos cartazes etc.(https://www.facebook.com/groups/334443036680627/) Nossa campanha é colaborativa e é algo realmente bacana de se construir junto. E sigamos. o/

@ivonepita
eu e Jean-400x600

Uma quarta qualquer

Quando uma quarta-feira, uma quarta qualquer, revela-se um monstro-preguiça devorador de suas vontades. E faz de você uma espectadora de si mesma.

Espectadora que olhando reconhece bem o que vê: alguém que abre mão de orgulhos bobos e outros expedientes para não ceder à tentação.

Tentação de não ter disposição alguma à reflexão, à compreensão ou à resiliência e de apenas brigar ou romper com quem insiste em intransigências.

Intransigências tão bem justificadas por quem a elas se agarra, mas tão incompreendidas por quem diante delas fica apenas com a tristeza e a decepção.

Decepção remediada apenas pela calma trazida pelo tempo, senhor dissipador de todo susto e toda mágoa, e que nos permite manter e cultivar o afeto.

Afeto que me toma pela memória os sentidos e me leva em viagens por falas, sorrisos, gestos, olhares e imagens por toda uma quarta, uma quarta qualquer.

@ivonepita

Um dia homofóbica, no outro, sapatão.

Como vocês podem imaginar não foi tão rápido ou fácil assim, de um dia para o outro, mas fato é que sempre fui homofóbica. Até chegar à faculdade, atravessá-la até a metade. Depois passei a aceitar (aceitar, vejam só! Como se fosse da alçada dos homofóbicos nos aceitarem ou não!) os homossexuais homens. Aquelas velhas barbaridades que conhecemos bem: homem, mesmo que seja um sexo nojento com outro homem, ao menos faz sexo de verdade, tem coisas sendo introduzidas. Depois não pensamos mais se é nojento ou não e se descobre que nojento mesmo é o sexo entre mulheres: imagine só, chupar uma buceta! Como uma mulher pode pensar em chupar uma buceta?! E ter prazer com isso?! Ah, não, nojento demais! E é assim mesmo: lá vamos nós nos colocando no lugar de mulheres que fazem isso, sem nos dar conta do talvez estejamos fazendo. E sentimos nojo. Após um tempo, num estágio mais próximo de nos entendermos lésbicas, o nojo some, mas consideramos bem curioso que uma mulher realmente sinta mais prazer com outra do que com um homem e que seja possível um sexo estupendo sem que seja baseado no prazer pelo falo.

Um dia, no entanto, assim, sem mais nem menos, acontece a grande revelação de nós para nós mesmas. Cai reto e pesado em nossas cabeças o grande terror que talvez pressentíssemos (ou não!) ali: nós também somos gays. Somos homossexuais. Eu era lésbica! O horror! O horror! Nós gostamos mesmo, mais do que qualquer outro sexo antes experimentado, é de trepar com mulher. Nenhum sexo anterior, com nenhum homem, ainda que tenha sido bom ou maravilhoso até, nos levou ao nirvana que tocamos ao gozar e fazer gozar outra mulher. E nós mulheres que amam, são amadas, devoram e são devoradas por mulheres compartilhamos desse grande momento de epifania em nossas vidas: ter o amor de uma mulher. Amar e ser amada por uma mulher. Trepar com mulheres. Desejar mulheres. Ser amada e desejada por elas. Parece um grande mistério que eu precisava encontrar e desvendar ainda nessa vida. É mesmo como uma grande irmandade conhecedora de um grande segredo apenas a nós revelado, uma epifania coletiva: a relação sexual e amorosa entre mulheres.

Mas e nossa homofobia internalizada de cada dia? Aquela que nos ensinou durante toda a vida que pessoas do mesmo sexo transando é nojento, um amor seco, sem procriação, sem um bem determinado e suposto encaixe anatômico que deveria ocorrer. A homofobia que nos ensinou por toda uma vida que homossexuais são minoria por terem um desvio psicológico ou um vício de comportamento. Até que tudo vai se esvaindo. E não, não se esvai de uma hora para a outra. Dependendo do nível de homofobia que foi internalizada durante toda uma vida, pode levar anos, décadas, quase até uma vida inteira. Para mim, demorou. Lembro que eu saía para dançar com minha primeira namorada e achava a coisa mais esquisita ver aquelas mulheres beijando outras e aqueles homens beijando outros, enquanto eu e minha namorada nos beijávamos o mais que podíamos. É, estranhávamos. Nós duas mulheres se beijando, estranhando outras que se beijavam.

Estranhamento. O mundo, a nossa vida inteira, nos ensinou que aquela visão não era normal, era esquisita e, como nós nunca víamos mesmo homossexuais se beijando, era algo incomum, estranho aos nossos olhos. E por isso mesmo hoje sei como é importante nossa visibilidade. Se não por nós, por quem vem depois, ou para quem está chegando. Para que seus olhos não estranhem o que virem e, assim, não estranhem outras pessoas nem a si mesmos. Lembro a propósito, de ficar em frente a um espelho como a minha namorada e a gente se olhando para entender aquela imagem, sim, éramos nós, lindas, se amando. Lembro muito vivamente da primeira vez que trepamos, da primeira vez que a fiz gozar. Da primeira vez que estava nua na cama ao lado dela e pensei: estou nua ao lado de outra mulher nua! E, vejam só, havíamos acabado de trepar uma noite inteirinha, non stop.

É, o tempo. O tempo de adentrar um novo território, ir sendo feliz e tendo prazer. Isso vai desfazendo a homofobia internalizada que nos faz estranhar a nós mesmos e a nossos pares. E, com certeza, e de forma muito forte e decisiva, as redes de apoio mútuo, diálogo e compreensão que vamos construindo. E talvez por isso eu sempre exercite e chame atenção para a necessidade de entendimento, de resiliência, de disposição em conversar, explicar, escrever. É lendo, conversando, compartilhando informações e nos apoiando, que vamos vencendo os monstros e fantasmas horrendos de rejeição que nos foram impostos e postos dentro de nós. É somente contando com nossos pares e com a coragem de vivenciarmos efetivamente o que nos dá prazer e alegria de fato – sermos nós mesmos – que vamos ficando cada vez mais livres, plenos e seguros em uma vida mais completa, intensa e feliz. É somente contando com nós mesmos e encontrando quem nos ame e acompanhe que abandonamos o personagem homofóbico que assumimos. Quando, finalmente, saímos de uma existência tolhida para uma vida em que tudo é possível. Inclusive, nós.

@ivonepita

Da responsabilidade do afeto

Certa vez, eu ainda na escola, uma pessoa disse que achava engraçado como eu dividia meus amigos sempre colocando uma locução adjetiva junto ao nome: da igreja, da escola, da rua. E mais interessante ainda era não colocar adjetivo algum, a pessoa mencionada era somente amiga. E aqui toda a diferença: não havia circunscrição, a pessoa era minha amiga mesmo, de fato, em todos os espaços, sem restrição. E também havia o termo colega, mas que parece ter caminhado para praticamente a ofensa. Dizer que alguém é apenas colega seu é como dizer que você e a outra pessoa apenas coabitam algum lugar por algumas horas e de forma obrigatória, como em um ambiente de trabalho. E aí vemos o amigo de trabalho. Só que há um problema aqui: algumas pessoas acabam creditando às palavras amiga ou amigo muito mais do que apenas um upgrade da palavra colega – mesmo quando ela está ali metida na locução.

É aqui que penso na responsabilidade do afeto. A gente não tem responsabilidade mesmo se a outra pessoa entende uma palavra no meio de uma locução como uma declaração de amor. No entanto, a gente é responsável pelo que diz e demonstra. E somos ainda mais responsáveis se insistimos em dizer o que nós não sabemos com absoluta certeza: se o afeto é legítimo, fixo, estável em nós. Somos responsáveis por afetar a outra pessoa. Isso mesmo: afetar, de afeto. Na psicologia, vemos afetividade ser tratada como suscetibilidade. Ficamos suscetíveis, somos afetados. Ou somos afetados e ficamos suscetíveis. Em latim é afficere, afectum, o que afeta, deixa marca, produz impressão, o que toca, que une, que fixa. É assim: o seu afeto atinge a outra pessoa, o afeto da outra pessoa mexe com você. Ninguém passa impune pelo afeto.

O afeto é isso: um laço criado, um estado de carinho, de ternura, de atenção, de cuidado. Talvez por isso eu sempre opte por usar a palavra afeto. Para mim sempre foi tão importante a precisão das palavras. Sim, gosto de metáforas, mas elas também devem ser precisas ou ficam sem sentido. Precisão. Do que precisa ser exato,mas  também do que é necessário. O afeto produz necessidade. Necessidade de troca, de atenção, de carinho. O afeto pode nos levar a uma resiliência que desconhecíamos em nós. O afeto pode nos fazer ultrapassar o orgulho. Ele pode nos fazer mais disponíveis e dispostos. Meu olhar sobre a outra pessoa é afetado, afinal. Para ela eu olho com ternura, tentando compreender o lugar que ocupa no mundo, a sua psique, e por isso como compreende a vida, os seres humanos, como reage nas interações com coisas e pessoas. O afeto me empurra para além do que costumo doar aos demais indivíduos. O objeto do meu afeto sempre contará com mais benevolência, mais paciência, mais compreensão e diálogo.

Se você declara afeto, você pode estar declarando tudo isso aí acima à pessoa-alvo de sua declaração – ainda mais se for insistente. A outra pessoa pode ficar segura de que há confiança, espaço para intimidade compartilhada. E se sentir confortável para derrubar os muros de proteção. Que se pode permitir a entrada em espaços bem protegidos de si mesmo.  Por isso você precisa ser responsável. Pense: talvez esta pessoa a quem você pretenda declarar afeto seja apenas uma companhia bacana, agradável, leve e divertida com quem você gosta de passear e rir junto. Pense de novo: você é capaz de suportar esta pessoa quando ela não estiver bem, quando ela estiver com problemas, com o humor e o ânimo alterados? Você é capaz de não somente compreendê-la, acolhê-la nesse momento em vez de expulsá-la de sua vida? Você é capaz de por o que sente por ela acima de desentendimentos de um período turbulento, lembrando-se de quem ela é de fato, a pessoa que você conheceu e conhece, e que está apenas transtornada? Pense e se decida. O afeto é resiliente, é tranquilo, sabe dialogar, mas também sabe ficar quieto e esperar. O afeto só não sabe o que é corte fundo e bruto, rompimento brusco e silenciador, caçador da palavra do outro. O afeto permite. Dá espaço, tempo. O afeto (se) renova.

Afetividade é o que liga as pessoas.  Ter afeto é ter apego. Estar apegado a alguém. Sejamos responsáveis ao declararmos afeto. Eu sou. Algumas pessoas ficam ressentidas comigo por eu não trazê-las logo a minha casa, não mostrar minhas coisas, não permitir que elas adentrem minha intimidade, que não divida com elas minhas dores, minhas memórias, meus planos. Queria que elas entendessem que é questão de afeto, mas também de tempo e abordagem. É questão de me sentir mais próxima, acolhida com segurança. É questão de conquistar com paciência e cuidado a minha confiança. É questão de eu ficar absolutamente certa do afeto da outra pessoa por mim, pois essas são minhas barreiras últimas que só permito a algumas poucas pessoas a ultrapassagem. Quando ultrapassam, viro toda afetividade, sou ofendida, agredida e desrespeitada algumas vezes e resisto, converso, reaproximo. Quando ultrapassam, percebo quando a outra pessoa não está bem, observo, tento compreender , se compreendo, espero o tempo de abordagem, de conversa e acolhimento, mesmo sabendo que posso não ter o mesmo quando eu precisar. Sim, eu me dou toda, sem reservas, ao afeto, com cuidado, muito cuidado, e ainda assim, sabendo sempre que posso me machucar, ser profundamente magoada e ficar partida em mil pedaços.  Como agora.

@ivonepita

Renovar. Recomeçar. Refazer.

Quando eu era religiosa, católica de carteirinha, uniforme completo e chuteiras, a cada Páscoa a ressurreição tinha um significado muito especial e estava longe de ficar circunscrita à ressurreição de Cristo. Páscoa significava um momento de reflexão, de renovação, a mim era ensinado que era um momento de parar, pensar e recomeçar o que fosse necessário. Era um momento de renovação. E só o Deus no qual eu acreditava por todos aqueles anos seria capaz de enxergar o quanto eu precisava crer nisso e por em prática com todas as minhas forças para atravessar o tanto de dificuldade que me era imposta para me vestir, para comer, para continuar os estudos, para continuar sonhando, mantendo intacta minha capacidade de me alegrar, de seguir em frente. De afeto. Ali a Páscoa adquiria o sentido de morte e ressurreição. Deixar para trás, se livrar de tudo que pesa, que machuca, que magoa, que impede de seguir adiante. Renovar-se. Fazer ressurgir. A esperança, a certeza no poder de restauro da própria vida. Em nossa natureza restaurativa. Aqui podem ressurgir sonhos, planos, esperanças, desejo de vida. E tantas vezes eu precisei de renovação. Tantas vezes eu precisei restaurar a mim mesma, minha força, minha firmeza diante das dificuldades, minha resistência frente a tanta carência material. Tantas vezes eu precisei renovar minha determinação em acreditar que eu poderia fazer tudo mudar, que eu poderia alterar minha trajetória, mudando minha existência para algo maior e melhor.

Gratidão intransitiva é o que sinto hoje. Sensação de gratidão por tudo que consegui superar, tudo que eu soube enfrentar, toda ajuda que tive – pois, sim, mesmo quando não sabemos, não percebemos, sempre temos ajuda e não falo de nada metafísico, místico, espiritual. Sinto gratidão por cada pessoa sensível e amorosa que atravessou meu caminho, que cruzou apenas minha vida e nela deixou sua marca ou que ainda aqui permanece colaborando com a minha construção diária, me ajudando a ser um ser humano melhor, mais empático. E se você crê que Cristo morreu e ressuscitou por você, então, acredito que nada seria mais coerente com isso e nada corresponderia melhor a essa fé do que renovar a si mesmo, o amor pela vida, a esperança, os sonhos, os planos, os afetos.

Renovar. Recomeçar. Refazer. Restaurar. Você pode chamar como quiser, o importante é que você não se perca de si mesmo, que não perca a noção do privilégio, do espetáculo único que é a vida, o fato de ter nascido e de estar vivo até agora, sendo uma partícula tão micro diante de tantas e tantas múltiplas existências nesse universo e das possibilidades de vida que nunca aconteceram, não irão acontecer ou já se romperam. Ressurreição para os cristãos. Liberdade para os hebreus. Renascimento para os pagãos. Acredite no que for melhor para você. O que importa é o ritual de passagem, de ressurgir, de se libertar, de renascer. O que importa é a renovação. Sim, renovar-se não é fácil. Mas quem disse que a trajetória seria melhor ou mais rica se não tivéssemos que nos exercitar em malabarismos entre os obstáculos? O movimento é justo o que nos torna mais sábios, mais fortes, mais resilientes, mais capazes de manter e fortalecer laços de afeto apesar dos percalços e dificuldades.

E não, eu não acredito em pecado, em milagre, em benção ou em um deus onipotente, onipresente e onisciente. Não acredito em lei do retorno em um sentido místico ou metafísico. Eu acredito no amor, no afeto, no respeito incondicional a outros seres humanos. Acredito em postura ética, em empatia, em consideração na mesma medida em que eu gostaria de ser respeitada.

Renovação. Coisas que deixamos para trás ou precisamos mesmo arremessar ao longe. Coisas preciosas que precisamos resgatar e cuidar melhor. Coisas especiais das quais precisamos cuidar com mais dedicação. Que saibamos passar por qualquer processo de mudança, da melhor forma possível.  Seja no amor, no afeto, na vida que exige decisões diárias. Por outro lado, possamos alcançar a aceitação plena. Que não haja nada em nós que precisemos matar. Que seja superado e deixado pra trás. Sem ódio, sem mágoa, sem rancor. Não vale a pena mesmo guardar e cultivar essas coisas. Que tenhamos toda certeza de que tudo que nos aconteceu, tudo que fizemos ou deixamos de fazer, tudo que conseguimos ou não, tudo de que demos conta ou não, tudo que conquistamos ou não, tudo que fizemos ou não de nós mesmos e da nossa vida precisamos entender que foi o que era possível naquele determinado momento e para aquelas pessoas que éramos naquele tempo. Que isso seja para além de entendido, que seja internalizado de forma tão tranquila, tão como parte nossa que seja essa a melhor Páscoa de toda a nossa vida e que seja melhor a cada ano.

Isso é o que desejo a cada pessoa: renascimento, renovação, passagem. Desejo vida. Vida plena, com tudo o que ela tem de melhor! Amém.

@ivonepita

Vetando e confiando

VETANDO O VOTO:

CONTRA a legalização do aborto? Não voto.
CONTRA a regulamentação das drogas? Não voto.
CONTRA cotas raciais? Não voto.
CONTRA reapropriação de terras pelos indígenas? Não voto.
CONTRA o reconhecimento das identidades trans? Não voto.
CONTRA apropriação de terras por quilombolas? Não voto.
CONTRA a iniciativa pública? Não voto.
CONTRA a total equiparação de direitos entre todos os cidadãos? Não voto.
CONTRA os direitos da mulher? Não voto.
CONTRA ressocialização de presos? Não voto.
CONTRA delegacias e promotorias de proteção animal? Não voto.
CONTRA ações afirmativas? Não voto.
CONTRA a separação total entre igreja e estado? Não voto.
CONTRA a tributação de templos e igrejas? Não voto.
CONTRA o término da imunidade parlamentar? Não voto.
CONTRA programas sociais? Não voto.
CONTRA a transparência total dos três poderes? Não voto.
CONTRA qualquer ação ou política de promoção de reconhecimento de diferenças para promover equiparação social? Não voto.

CONFIANDO O VOTO:

em candidatos com histórico de luta popular,
sem processos administrativos,
sem processos judiciais,
que não tenham enriquecido ilicitamente,
que sejam de fato envolvidos
em causas voltadas para o povo,
movimentos sociais da população marginalizada,
frentes de luta por mais justiça e igualdade,
que não apaguem as tantas diversidades de nossa população e, óbvio,
que sejam a FAVOR de tudo ali acima, que ficou no veto.

@ivonepita