Pensando ativismos

Minha buceta grita xavasca.

A gente sabe, tanto se fala e falou sobre isso: bucetas do mundo inteiro são reprimidas, umas mais, outra menos, mas todas sofrem toda sorte de silenciamento, invisibilidade e opressão. Não se pode falar, não se pode ver, não se pode empoderar estas bucetas. Todas devem ser bem comportadas, bem cobertas, bem dispostas a parir não a trepar, a fazer a amor, não a devorar. E bucetas, gente, bucetas devem ter boas medidas: os lábios devem ser assim e assado, o clitóris no lugar, sem se expor. Assim como devem ser suas donas – donas? – devem ser delicadas as bucetas. Imagina aquela buceta exposta, agressiva, com lábios e clitóris avantajados. Para que isso, afinal? Fica feio, praticamente uma afronta. Deve ser desse tipo de buceta que é muito usada. Fica gasta, caída, né? Ou é doença. Ou um tipo de monstruosidade qualquer. Deve ser. Não é possível alguém achar bonita uma buceta exposta. Uma buceta avantajada. Não, não, todas devem ter medidas pequenas, delicadas.

E assim os fiscais de buceta alheia seguem definindo como devem ser as bucetas que carregamos entre as pernas. Assim os fiscais de buceta alheia tem a pachorra de dizer como deve ser o tamanho, o formato e o comportamento de nossas bucetas. Ora, ora, tenho a dizer que “não, obrigada”, “não, não sou obrigada”. Minha buceta é minha e só minha. As formas da minha buceta dizem respeito somente a mim a quem gostar dela, desejá-la, pegá-la com vontade e encher a boca com ela. Então, peguem suas métricas, suas réplicas e tréplicas e devorem-se a si mesmos com elas. Meçam a si mesmos, principalmente, e, por favor, as merdas que fazem, que dizem, que reproduzem, que nos inventam. As escolhas que fazem, as reproduções esdrúxulas que passam adiante. Não adianta dizer que não tem a pretensão de determinar como devem ser nossas medidas e aparências se faz e repassa piadinhas que pretendem ridicularizar estas ou aquelas formas.

Eu realmente não entendo essa necessidade de expor ridicularizando seja lá o que for. Talvez a Maldita Trindade, Freud, Yung e Lacan, consigam. Eu não tenho esta pretensão. Não sei o que se passa na cabeça de alguém, ou que tipo de índole e ânimo tem alguém que se presta a ridicularizar corpos, partes de corpos, modos e comportamentos. Se não gosto, não olho. Se não me agrada, não convivo. Se não me apetece, não como. Simples assim. Daí a determinar o que é belo, o que é feio, o que é ou não desejável, como se todos tivéssemos o mesmo padrão de apreciação, de desejo, de querer, é outra coisa. É tão diferente. E daí a fazer publicações que ridicularizem o que foge a determinado padrão criado por mecanismos que silenciam, excluem e oprimem, vai um abismo. Um abismo de caráter, de humanidade, de empatia.

É essa imposição doida de como deve ser isso e aquilo, até as bucetas, que faz com que muitas mulheres sintam vergonha de ir à praia e perceberem certo volume sob suas roupas. É o que faz muitas delas se arriscarem em cirurgias em busca do que seriam lábios vaginais perfeitos. É o que faz com que muitas não consigam ter uma vida sexual mais livre, mais segura, mais prazerosa. É por isso que me recuso a infantilizar e dessexualizar minha buceta a chamando de pepeca. É por isso que imagino xavasca como uma buceta devoradora. Poderosa. É por isso que minha buceta grita xavasca. E é por isso que minha buceta grita por xavascas, por amá-las e devorá-las: bucetas e xavascas.

@ivonepita

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Algo de podre.

Parece que em todo lugar que olhamos aquele bicho que a tudo corrói de forma voraz, insaciável e inescrupulosa está lá: o corrupto. E, praga das pragas, parece se multiplicar sem controle. A podridão corre solta, todos veem: nas câmaras municipais e estaduais, no congresso, em empresas, em negócios de família e até em relações das quais nem desconfiávamos ou em instituições em que deveria ser impensável. É muito difícil não nos desgastarmos a ponto de fugirmos, deixarmos para lá. No entanto, por mais que possa soar estranho aos ouvidos, parecer incomum aos olhos e inacreditável para nossa abalada confiança, há quem faça política, institucionalizada ou não, de outra forma.

Mas esconder, escamotear, desvirtuar as questões importantes e que realmente afetam nossas vidas é tarefa primordial para quem quer se manter no poder, ainda que tenham que mentir ou distorcer fatos, evidências e até mesmo leis. Vejamos, por exemplo, a questão do voto nulo e do voto branco. Desde 1997, votos nulos e brancos não são considerados nas eleições, pois não são votos válidos e, no entanto, há inúmeras e insistentes propagandas, inclusive com grande suporte de marketing, que insistem em divulgar que voto nulo consegue cancelar uma eleição, algo presente no código eleitoral de 1965, como se não tivessem ocorrido alterações posteriores. Pelo forte aparato com que contam tais propagandas enganosas, como sites, blogs e propagandas persuasivas, pode-se notar uma evidente estratégia de afastar os eleitores do poder que tem de destituir os corruptos de seus cargos. Afastando os cidadãos do exercício do voto, quem está no poder, por ter sido eleito por um contingente de eleitores, sabe que pode contar com o mesmo contingente e se perpetuar no poder. E as pessoas que acompanham os casos de corrupção, os escândalos de sonegação, de desvio de verbas, a não aprovação de projetos importantes e a aprovação acelerada de projetos que beneficiam grupos no poder, acabam por acreditar, então, que o melhor caminho é a anulação do pleito, sem saber que estão sendo bárbara e deliberadamente enganadas. E isso é tudo que os donos do poder querem: que os que poderiam fazer diferença votem nulo.

Votar nulo ou em branco é ficar de fora do processo de eleição e deixar que outros votem e decidam por nós. E podemos ter certeza absoluta que muita gente, muita gente mesmo, comemoraria se LGBTs, feministas, negros, índios e outros tantos grupos marginalizados apenas não votassem, pois não votar não provoca qualquer mudança. Dizer apenas que não concorda com coisa alguma, que é tudo sujeira e não se envolver não votando, não faz diferença, pois as instituições de poder não desaparecem somente por isso, o sistema não muda – nada é alterado pelo voto nulo. A única coisa que pode alterar o quadro que se apresenta somos nós. E nosso maior poder contra a corrupção institucionalizada – no momento – é o voto. Portanto, sem qualquer exagero: uma das maneiras de mudar o país é votando. Muitas mudanças podem vir através do voto, retirando do poder os políticos corruptos e conservadores tacanhos que não deixam o país avançar em várias direções. Uma profunda mudança é possível com a eleição dos nossos representantes, não somente LGBTs e feministas, mas representantes de outros grupos sociais marginalizados, discriminados e lesados historicamente. Isso poderia mudar este país de um jeito que ainda estamos por ver. E isso, sim, depende não do voto nulo, mas somente de nós eleitores, do nosso voto.

Precisamos mudar quem está na política institucionalizada, quem a faz. E podemos fazer isso através do voto, afinal, foi através dele que estas pessoas foram e são eleitas e é através dele que outras pessoas melhores podem ser postas no lugar delas – basta vermos a atuação de Jean Wyllys no Congresso Nacional, por exemplo. Jean é um grande exemplo de como a política pode ser feita de forma diferente da que estávamos acostumados a ver. É possível haver compromisso, responsabilidade, coragem e lisura. E é assim: através do voto que elegemos quem faz as leis contra ou a nosso favor. Outros grupos estiveram e estão organizados para votar em seus representantes, que defendam os seus interesses. Por tudo isso, em vez de anularmos nosso voto, devemos nós também estarmos organizados e votar em candidatos que tenham provado estar do nosso lado, que estejam realmente comprometidos com as lutas que são nossas, nas quais acreditamos. E se eles não forem eleitos, ao menos teremos tentado. Lutar jamais é fracassar, mas não tentar é fracasso antecipado. Não devemos pensar que com nosso voto somos apenas uma pessoa lutando, há sempre muita gente que pensa como nós, basta nos descobrirmos, nos encontrarmos e nos organizarmos. Precisamos sempre nos lembrar que “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, mas se juntar o bicho corre”!

@ivonepita

O que acontecerá com os filhos de casais LGBT?

Quando pessoas desagradáveis – para dizer o mínimo – dizem que a mãe é sapatão e o pai é viado, apontando isso como um demérito, como uma falha, como uma aberração, basta explicar tudo direitinho: que o problema é dos outros! E avisar e preparar os filhos para o que eles vão enfrentar. Afinal, quem, na infância ou na adolescência, nunca sofreu pelos amigos dizerem coisas horríveis sobre os pais? Tudo depende de como somos preparados para o enfrentamento e de como nossos pais nos apoiam. E isso serve para qualquer constituição familiar.

Há apenas algumas décadas havia um grande alarde sobre como filhos de casais inter-raciais enfrentariam tal situação e que isso seria um problema imenso. E, então, os conservadores – novamente para dizer o mínimo – de plantão, logo se arvoravam de defensores das crianças e se posicionavam contra relações inter-raciais. Imagine uma criança negra filha de pais brancos ou uma criança branca filha de pais negros?! Isso seria, certamente, traumático para a criança. Como adultos iriam impor isso a criaturas tão indefesas e que não escolheram isso?! Foram os pais que traçaram tal destino para a desamparada criança.

Tudo isso como se todos nós escolhêssemos os pais que queremos ter e jamais sofrêssemos agressões por causa deles e das mais variadas – pais gordos, pais velhos, pais baixos, pais carecas e mais uma infinidade de bobagens. Mas, obviamente, os tais autointitulados baluartes da família “natural” não eram racistas, pensavam somente no bem da criança! Exatamente como fazem agora: eles não têm nada contra os LGBTs, preocupam-se somente com as criancinhas do Brasil. Por isso nos tratam tão bem, com tanto respeito e consideração, a questão é somente o que iria acontecer com a criança.

Ora, eu não sei o que acontecerá com crianças criadas por casais LGBT, eu sei o que já está acontecendo. A criança criada por LGBT pode ter uma boa chance de aprender desde cedo que é tudo muito natural e, claro a relação com seus pais e/ou mães assim também o é. É a família que ela conhece e ama. Ela não julga, não acha errado, não vê coisa alguma de mais (nem de menos!).

Aqui na cidade do Rio de Janeiro, há escolas em que dependendo se é dia dos pais ou das mães, os alunos levam dois ou nenhum presente para casa. Simples assim. Sem traumas. Ninguém morre ou surta por isso. Na reunião de pais, revezam dois homens ou duas mulheres. Ao chegarem à escola, estes alunos são deixados por seus pais e/ou suas mães, todos sabem quem é quem e todos convivem muito bem, harmoniosamente e sem disfarces. E há muito mais acontecendo neste sentido do que alguns imaginam e acontece assim, desta forma tranquila e agora, em nossos dias. Acho que esta discussão, inclusive, já deveria ter sido superada, pois todos sabem – exceto se a criatura tiver passado as últimas décadas em uma caverna no aconchego do centro da Terra! – que o casal não determina a sexualidade da criança e que o fato da constituição familiar não estar alinhada aos moldes conservadores, não impede um lar amoroso e uma vida saudável.

É preciso, portanto, lutarmos contra as possíveis discriminações e nunca – jamais! – permitirmos o impedimento ao amor, ao afeto, à família. Por isso devemos nos unir e lutar cotidianamente: por nosso direito à felicidade, não somente a minha e a sua, mas a de cada um de nós tão diferentes e tão iguais em desejos.

@ivonepita

Eleição, afeto e equívocos.

Nestes últimos dias, desde que anunciei minha pré-candidatura, e agora já em campanha, tenho recebido muito apoio, muito carinho incentivo. Estando com Jean e falando com as pessoas, pude perceber o mesmo: muito afeto. É uma linda – linda mesmo! – profusão de elogios, abraços, beijos, poses para foto. É bom demais ficar junto de pessoas que em vez de nos atacarem por nossa luta e nossas escolhas nessa trajetória, chegam junto para ou apoiar tudo o que fazemos ou discordar em parte com diálogo e novas ideias. É delicioso poder conversar, debater questões importantes para o país e especificamente para o Estado do Rio de Janeiro com gente realmente disposta a ouvir e a falar. Depois de encontros como este, a sensação é de força renovada, é de termos mais fôlego e a maravilhosa confirmação de que não estamos sozinhos, há interlocutores, ótimos interlocutores na concordância e na discordância e há gente que vem junto, que caminha junto, que ora vem ao lado ora vem atrás ora nos puxa pela mão e nos diz para seguir em frente. E isso é imensurável é sensação quase indescritível.

No entanto, um equívoco é facilmente identificado no meio de tanta conversa boa e tanto afeto: a crença de que Jean Wyllys já está eleito, a aposta de que eu irei facilmente junto ou de que já estamos eleitos por sermos bem conhecidos entre ativistas de Direitos Humanos. E é um grave equívoco. Tão grave que a insistência ou superação de tal engando pode significar em grande parte a definição de nossa eleição ou não. Explico: por melhor que tenha sido e seja o trabalho de Jean, com as conquistas que alcançou, com os prêmios que recebeu, com os eventos em que esteve presente, e por mais que eu esteja nas redes, leiam e admirem meus textos e eu participe de manifestações, ainda assim, nós dois somos totalmente engolidos pela avalanche de propaganda de nossos concorrentes. E isso não é pouco. Não é pouco mesmo. A gente sabe bem que boa parte da população vota das formas mais aleatórias, pelos motivos mais inesperados e em quem dizem para votar ou naquele número daquela pessoa de quem recebeu um “santinho”. Além disso, há ainda o poderio dos que fazem parte dos jogos de poder, dos que tem ligações com os donos do dinheiro, que são donos do dinheiro, dos que tem relação com os donos ou são eles mesmos proprietários de veículos midiáticos. E assim, contra tudo isso, lutando para não sermos engolidos por todos estes monstros que sabem facilmente triturar os adversários, é que Jean Wyllys e eu seguimos nestas eleições.

E, então, em frente nós caminhamos felizes e fortalecidos pelo afeto, preocupados com a participação efetiva de quem acredita em nós. Nossa preocupação é que cada pessoa que sabe de nossa campanha, que conhece nossos trabalhos, como lutamos, o quanto lutamos, pelo que lutamos e tudo aquilo em que cremos e temos compromisso, realmente participe dessa caminhada. Não temos dinheiro, não temos acordos espúrios – nem queremos! -, não somos de famílias de empresários nem da imprensa nem de outros setores, contamos com a força dos nossos pares. Contamos com a contribuição de quem vem mesmo junto, contribuindo com o que pode, seja doação em dinheiro, em material, em trabalho voluntário de panfletagem, em abertura de comitê, em promoção de reuniões, em divulgação de nossos cartazes pelas redes. E é isso: mesmo com apenas uma mudança de imagem de perfil, colocando a minha foto com Jean, a ajuda à campanha é imensa. Várias pessoas não sabem se Jean é candidato à deputado federal ou estadual, por mais incrível que possa parecer a nós que participamos mais de perto do ativismo. Várias pessoas não sabem que, finalmente, me sinto preparada e resolvi me candidatar à deputada estadual. E não temos realmente como ampliar nossa força de propaganda senão pela colaboração de quem acredita na gente. Não temos como fazer frente ao poderio dos conservadores, dos fundamentalistas, dos que estão lá desde sempre, o que promovem apenas mais do mesmo, senão pelo apoio e participação efetiva das pessoas que querem mudanças, que nos conhecem e sabem quais são nossos compromissos. Por isso, não se iluda de que é ou será fácil, não se acomode por ver outras pessoas nos divulgando e apoiando, sua participação é muito importante. O apoio de cada pessoa é fundamental. Então, venha participar de forma concreta das nossas campanhas. E agora, no minuto em que lê este trecho, pois basta a divulgação de uma imagem, por exemplo, algo tão fácil, simples e rápido, e não temos tempo algum a perder, afinal, ainda temos tanto a fazer e a conquistar pelo bem comum. Tanto!

Divulgue o cartaz abaixo em seu Facebook, no Twitter, no Whatsapp e em todas as redes que puder e venha participar do grupo em que planejamos ações, divulgamos cartazes etc.(https://www.facebook.com/groups/334443036680627/) Nossa campanha é colaborativa e é algo realmente bacana de se construir junto. E sigamos. o/

@ivonepita
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Eu te represento, tu me representas

10384356_819295481415378_7048982434445787282_nRepresentar. O que significa exatamente representar alguém ou ser ter nossa representação nas mãos de outra pessoa? Representar vem do latim representare, colocar à frente. E vemos que é isso mesmo: quando temos, por exemplo, alguém que representa nossos interesses, esta pessoa traz à baila assuntos que talvez antes estivessem sendo tratados de forma secundária ou nem sequer tratados. O representante, no entanto, coloca as questões que representa em primeiro plano, as coloca à frente. Bom exemplo disso é a atuação do deputado federal Jean Wyllys no Congresso. Quando tivemos alguém que insistisse tanto nas questões relativas às pessoas LGBT? Quando tivemos um representante político que levasse ao Congresso Nacional projetos de lei para que estejamos em igualdade de direitos com os demais cidadãos? Quando foi possível contar com uma voz ativa na maior casa legislativa do país expondo nossas aflições, nossos problemas e nossas reivindicações? Jamais. E isso se deve justamente à falta de representatividade da qual sofríamos antes. E, por isso mesmo, é importantíssimo falarmos sobre isso e mostrarmos a maior quantidade possível de pessoas o quanto os vários segmentos sociais estarem bem representados na política institucional é importante.

Representatividade, afinal, é isso mesmo: é estarmos presentes, é termos voz. Fazer a representação de todo um segmento é falar e agir em acordo com as tantas vozes que se quer representar, é carregar adiante as bandeiras de luta de todo um grupo social. Representar outra pessoa, ou grupo de pessoas, é receber uma delegação de autoridade para lutar por questões específicas, em nome de outrem. É tornar presente quem não pode estar em determinado espaço, lhe dar voz, lhe garantir a vez. É ser um símbolo da própria luta de todo um grupo social. Ser representante é ser mandatário, é ser procurador dos anseios e necessidades alheias. Ser representante não é ser pouco. É estar lá, à frente, suprindo a ausência de outras tantas pessoas, é se apresentar no lugar delas – por elas. É lhes manifestar a própria vontade. O que, naturalmente, faz com que seja necessário um forte vínculo entre quem representa e quem é representado, pois somente assim a representatividade é satisfatória e tem sua legitimidade reconhecida. E, por isso mesmo, é imprescindível atentarmos a quem designamos como nossos representantes. A grande questão é entendermos, é sabermos – e com certeza – se esta ou aquela pessoa pode e irá de fato falar por nós, agir em nosso lugar, lutar realmente pelas questões que nos são primordiais. E, naturalmente, com lisura, com honestidade e firmeza.

Nossos representantes estão em muitos lugares: em escolas, associações diversas, movimentos sociais, nas ruas, nos sindicatos, em igrejas, em atuações isoladas ou em grupo, lutando sem cessar por um mundo em que sejamos vistos, reconhecidos e respeitados. Disso não devemos duvidar, afinal, os vemos todos os dias em suas lutas tão árduas. Mas e na política institucional, onde se fazem as leis e onde são executadas? Onde estão nossos representantes? Como mudaremos as legislações federal, estaduais e municipais que estejam em acordo com a justiça e a igualdade para todo cidadão brasileiro se não temos nossos representantes nessas instâncias? Se nossas vozes e atuações são importantíssimas fora da política institucional, são também fundamentais na política institucionalizada. E não sendo excludentes, mas o contrário, complementares, por que não elegermos nossos representantes a cargos eletivos? Por que não ampliarmos a voz e a força de nosso único representante no Congresso Nacional? E ainda multiplicamos nossa representatividade em câmaras estaduais e municipais? Não faz sentido algum, pois é urgente que nossa voz seja ampliada e fortalecida. É imprescindível representarmos a nós mesmos, com nossas necessidades e anseios. Somente assim conseguiremos uma inclusão social satisfatória, o reconhecimento de nossos direitos e mecanismos que nos protejam da violência homotransfóbica – seja física ou simbólica.

E que cada grupo social aprenda a importância de eleger seus próprios representantes. Isso é democracia. Este é o embate natural entre os diversos segmentos sociais com seus interesses representados e em disputa de espaço. Saibamos disputar o nosso. Mas saibamos também, e antes, que conceder a alguém a nossa representatividade é autorizar que esta pessoa tome decisões em nosso lugar, numa instância que não chegamos pessoalmente, mas somente por quem nos representa. E daí a importância imensa da escolha correta. Da escolha de quem realmente esteja na luta diária, pondo sua voz e sua imagem a serviço das causas de nosso grupo. Daí a importância de sermos protagonistas de nossa própria luta, das questões que conhecemos como ninguém e que dizem respeito e atingem nossas vidas como nenhuma outra. E, afinal, se a história é nossa, por que não sermos nós mesmos os seus fazedores como protagonistas dela? Por que razão nós mesmos não nos representarmos?

Estamos em um daqueles grandes momentos históricos em que tiramos todo um grupo da margem social e trazemos para o centro. Luto para que todos saibam que podem fazer parte deste momento ou perderão a grande chance de tomar parte dele. Muitos dizem que gostariam de ter lutado contra a ditadura, pela abolição, pela república, pelo voto feminino e outros tantos acontecimentos, mas, ora, estamos agora mesmo travando uma luta enorme! Vamos, portanto, lutar e fazer história que o momento é agora!

@ivonepita

Eu não cismei

O termo cisgênero, usado para especificar pessoas cujas identidades de gênero estão em conformidade com os gêneros que lhes foram designados, fazendo contraponto com transgênero, para mim, é só mais um termo para estabelecer contraposição, marcar diferenças entre um grupo e outro, como vemos em relação à orientação sexual entre homossexuais e heterossexuais. Ora, por que razão iríamos nomear apenas o grupo transgênero? Por que razão apenas um grupo receberia especificação? Isso sim seria rotular um grupo como um nome diferente, um nome para quem não está em acordo com o restante. E o restante? Do que seria chamado o restante, de nada? Isso sim é diferenciar uns, colocando-os como anormais e por isso mesmo necessitados de nomeação, uma patologização por rótulo, e isentar os demais.  Por que razão não nomear todos os grupos? Por que razão não especificar a que grupo cada pessoa pertence e apenas alguns deles? Afinal, sabemos que os considerados diferentes, anormais é que sempre são os rotulados, caso apenas um dos lados seja nomeado.

Se nós lidamos bem com as terminologias quando dizem respeito à orientação sexual, não vejo por que razão não lidarmos tranquilamente quando os termos dizem respeito à identidade de gênero. Não vejo nenhuma intransigência no fato de pessoas trans usarem e solicitarem o uso do termo cis, afinal, é assim que o termo é difundido, entendido e aceito. É assim que o termo trans deixa de ser aquele que rotula um grupo como sendo o diferente, o que se destaca do restante. Não entendo por que razão um termo para apenas contrapor pessoas que não são trans a pessoas que são poderia causar ou provocaria divisões no movimento LGBT. Ou por que razão quando termos são usados para especificar quem é ou não homossexual ou bissexual são especificações necessárias à luta por identidade, reconhecimento, construção de narrativas e história, mas quando são usados para especificar quem é ou não trans, de especificação necessária passa-se a considerar rótulo desnecessários e que apenas atrapalhariam o movimento.

Tenho visto algumas alegações contra o uso do termo cis bem parecidas com as que são usadas contra outros grupos: que o termo foi cunhado e é utilizado para diminuir os ditos normativos, como um revide, por exemplo, e que também é usado para desqualificar o interlocutor, acusado de não entender a realidade trans ou não poder sobrepor a fala de pessoas trans, frente à militantes trans, se é pessoas cis. Ora, o mesmo dizemos se uma pessoa heterossexual se arvora de mais entendedora da realidade de uma pessoa homossexual que a própria pessoa que vivencia tal realidade.  E o termo cis não surgiu do nada. Ele circula na web há duas décadas(!). E é absolutamente necessário à construção identitária, não é uma coisa qualquer, uma cisma. E se o termo é usado por algumas pessoas para silenciar militantes cis ou para agredi-los, isso não pode ser usado para condenar o seu uso, afinal, são apenas algumas pessoas. Seria o mesmo de pinçar algum exemplo de homossexual que fez isso ou aquilo para desqualificar todos os demais.

O que pode causar uma cisão no movimento LGBT é justamente a cisnormatividade e não o fato de recentemente nós, cisgêneros, termos também sido nomeados. Nós, os que antes se viam como um grupo oprimido, sem os privilégios dos heterossexuais, nos vimos acusados de também sermos opressores em relação a outros grupos, de também termos privilégios. Não, isso não é fácil de processar, mas também não chega a ser uma catástrofe. Todo grupo oprimido pode estar em situação de vantagem em relação a outro sem que se tenha que comparar quem sofre mais opressão na totalidade. Qualquer coisa com que me deixe em perfeito alinhamento com o que se considera normal, me dará o privilégio de passar despercebida, sem maiores problemas ou entraves e isso sempre ocorrerá em relação a pessoas que serão apontadas como o contraponto anormal e que serão alijadas de processos e situações, que serão impedidas em determinados pontos. Isso, sim, é o que se constitui privilégio. Exatamente como ocorre entre homossexuais e heterossexuais.

Por fim, ninguém tem a obrigação de usar o termo cisgênero, mas toda pessoa precisa saber o que significa usar ou não o termo, o que significa por sob um termo especificador apenas um grupo e não o outro. É preciso que saibamos, sim, a opção que estamos fazendo quando escolhemos impedir o não protagonismo – também em termos de voz – das pessoas trans, quando as ouvimos de fato ou não, quando realmente consideramos suas reivindicações, propostas e reclamações ou não. Quando promovemos entendimento e união ou não.

@ivonepita

Invisibilidade e silenciamento não cabem no próprio movimento!

Sem Título-2Para começar este texto direi o que para mim e muitas outras pessoas grita obviedade: transfobia e homofobia não são a mesma coisa! Homofobia é discriminação sofrida pela orientação sexual. Transfobia é a discriminação sofrida por identidade de gênero. Mas eis que ainda há muita gente que insiste em deixar isso para lá, para deixarmos tudo sob o manto da homofobia, pois assim a população entende melhor, não complica, não é mais um termo criado e não forçamos os pobres mortais ignorantes a terem de engolir uma “sopa de letrinhas”.  E por aí seguem os argumentos mais estapafúrdios para se fazer o que sempre se fez: silenciar e apagar a luta e todas as questões relacionadas às pessoas trans. Elas que venham à reboque, que aproveitem as vozes alheias e os espaços que puderem frequentar. Voz própria e espaço próprio para que, afinal?

Todos estes discursos constituem os mesmos argumentos utilizados desde sempre diante de qualquer grupo marginalizado que se organize e reivindique espaço, visibilidade, reconhecimento e voz própria. Não foi o que vimos e vemos todos os dias? Não é contra este massacre e sufocamento de identidades, de individualidades que lutamos? Então, como podemos reproduzir este tipo de opressão e apagamento dentro do próprio movimento LGBT? Não criamos letras, siglas, nomes, movimentos, conceitos? E se foram criados não tiveram de ser ensinados? Não tiveram de ser disseminados e explicados até serem entendidos?

A 18ª edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo escolheu o tema “País vencedor é país sem homofobia. Chega de mortes!”, enquanto nas redes milhares de pessoas pediam para que o tema fosse uma reivindicação pela aprovação da lei João Nery de Identidade de Gênero. Assim, além de ignorar a reivindicação de pessoas que se mobilizaram para tentar um diálogo com a organização da Parada, no tema abordam apenas homofobia, ou seja, além de não ouvirem, silenciam vozes e invisibilizam identidades.

Confrontada a organização da Parada soltou nota explicando que a intenção é chamar atenção para os casos de homofobia. Ora, isso a gente entende, tá mais do que dito e bem explicitado no tema. O que não está no tema é a transfobia. Aquilo para que não se chama atenção é para a transfobia, é para a marginalização, a perseguição, a violência psicológica e emocional, o apagamento identitário, o linchamento moral e a morte física de milhares de pessoas, todos os dias, em todo o canto deste país. Pessoas trans. Pessoas mais uma vez silenciadas e apagadas em um evento LGBT. Um evento enorme, de alcance internacional, que tem destaque na programação da TV e que, com tudo isso, fará apenas mais do mesmo: fazer de conta que pessoas trans não existem.

O maior evento LGBT do país decepa uma letra, aparta um grupo, e há quem ainda questione por que razão os movimentos trans se tornam cada vez mais independentes, como se fossem estes movimentos a rejeitarem e dividirem o movimento LGBT. No entanto, o maior evento LGBT do país não permite o protagonismo da luta das pessoas trans. O maior evento LGBT do país promove o silenciamento e o apagamento das pessoas trans, suas demandas e questões particulares, suas identidades. Ora, invisibilidade e silenciamento não cabem no próprio movimento!

@ivonepita

Vetando e confiando

VETANDO O VOTO:

CONTRA a legalização do aborto? Não voto.
CONTRA a regulamentação das drogas? Não voto.
CONTRA cotas raciais? Não voto.
CONTRA reapropriação de terras pelos indígenas? Não voto.
CONTRA o reconhecimento das identidades trans? Não voto.
CONTRA apropriação de terras por quilombolas? Não voto.
CONTRA a iniciativa pública? Não voto.
CONTRA a total equiparação de direitos entre todos os cidadãos? Não voto.
CONTRA os direitos da mulher? Não voto.
CONTRA ressocialização de presos? Não voto.
CONTRA delegacias e promotorias de proteção animal? Não voto.
CONTRA ações afirmativas? Não voto.
CONTRA a separação total entre igreja e estado? Não voto.
CONTRA a tributação de templos e igrejas? Não voto.
CONTRA o término da imunidade parlamentar? Não voto.
CONTRA programas sociais? Não voto.
CONTRA a transparência total dos três poderes? Não voto.
CONTRA qualquer ação ou política de promoção de reconhecimento de diferenças para promover equiparação social? Não voto.

CONFIANDO O VOTO:

em candidatos com histórico de luta popular,
sem processos administrativos,
sem processos judiciais,
que não tenham enriquecido ilicitamente,
que sejam de fato envolvidos
em causas voltadas para o povo,
movimentos sociais da população marginalizada,
frentes de luta por mais justiça e igualdade,
que não apaguem as tantas diversidades de nossa população e, óbvio,
que sejam a FAVOR de tudo ali acima, que ficou no veto.

@ivonepita

Entre o combate e a propaganda

Vários grupos discriminados ao longo da história lutaram e conquistaram espaço, reconhecimento e leis específicas. Mesmo tendo muito que conquistar, todos tem uma melhor inserção social ainda que carreguem várias pechas de preconceito, vários rótulos, acusações, antipatias, desqualificações e mesmo cerceamentos, e não são mais a mola propulsora dos pânicos coletivos. Neste quesito, é a nossa vez, a vez dos LGBTs. Não falo do pânico gerado em nós pela violência, pelas agressões, pelas torturas e assassinatos. Sobre este digo sempre e repito: em vez de nos recolhermos e sermos invisíveis, como querem os homotransfóbicos, temos mais é que ocupar os espaços, garantir nossos direitos e legitimar cada vez mais nossa existência.  Refiro-me ao pânico criado por nossos algozes a partir de nós: o pânico social. Este é sempre criado de maneira pensada, bem arquitetada, com o claro objetivo de tornar um grupo social discriminado em inimigo da sociedade de forma que este seja impedido de alcançar equiparação de direitos e exercício pleno de sua cidadania e seja através de que artifícios torpes forem necessários.

O pânico social serve justamente para recrutar uma parcela excluída da sociedade: a que não faz parte do grupo social apartado de seus direitos nem do grupo que quer manter a situação de opressão para tirar ou permanecer tirando proveito do embate. Estas pessoas, à margem do embate, são recrutadas por serem convencidas de que a sociedade como conhecem mudaria drasticamente caso as pessoas discriminadas conquistasses cidadania – naturalmente não com estas palavras, mas dizendo que tais pessoas não são discriminadas, que desejam privilégios, proteção especial, que desejam serem alçadas a uma categoria superior aos demais cidadãos e que certamente, ao conquistarem reconhecimento, irão implantar seus próprios valores e de forma ditatorial. Defendem, portanto, que o controle, o impedimento à conquista de algum direito é algo plenamente justo, pois serve para conter abusos e concessões especiais. Tudo com o evidente objetivo de gerar horror em relação a um determinado grupo.

Nós LGBTs, como grupo-alvo da vez, temos de tomar muito cuidado para não fazer eco a nossos algozes lhes ampliando a voz, lhes dando espaço e lhes promovendo os discursos e ideias. Há muitas pessoas que lutam contra a cidadania LGBT de quem nunca havíamos ouvido falar, não tinham destaque midiático e, no entanto, após terem um nicho de promoção – falar impropriedades e absurdos sobre LGBTs, através de agressão e distorção de discursos – estão em destaque. E conquistando essa projeção arregimentam mais incautos e outros aproveitadores. Dar espaço a este tipo gente e a seus discursos, citando quem são e o que defendem, mesmo que seja criticando, é promover quem quer mesmo promoção, ou seja, é colaborar com eles. A crítica, o questionamento e a desconstrução do discurso podem ser feitos sem que as pessoas e suas falas sejam citadas de maneira a lhes fornecer propagando gratuita. Muitas vezes nos atemos aos discursos e às ações de pessoas sem importância ou influência – que apenas querem se promover à custa de polêmica – em vez de promover ações e textos de quem realmente interessa: nossos pares e aliados.

Promover os desimportantes, os que têm pouco alcance, não tem mídia nem público vasto cativo, e nenhum poder efetivo de nos cercear os direitos, serve somente para atrair o tipo de gente torpe que concorda com a discriminação e que nos causa apenas revolta e tristeza. Temos de ter discernimento para saber quem e o que é importante combater por ser de fato nocivo à conquista de nossos direitos ou quem é totalmente inócuo e seria apenas promovido de forma gratuita e justamente por nós, seus alvos. Os que têm realmente o poder de decidir sobre a vida alheia, elaborar e aprovar ou reprovar leis, os que têm grande alcance midiático, estes sim, devem ser combatidos, mas ainda assim, com o devido cuidado para não nos usarem como promotores de suas figuras e ideias. Precisamos realmente prestar muita atenção a estas estratégias usadas para nos desviar de nossos objetivos, resistir e não reagir a tudo e todos, todo o tempo, pois é desvio de foco, tempo empregado da forma como nossos algozes nos querem manipular para utilizarmos. Nosso tempo, nossas ações e nossa luta devem ser decididos e gerenciados por nós, de forma estratégica, de forma propositiva e jamais somente em resposta a ataques, portanto, sempre um passo depois. Vamos lutar, mas sem desperdiçar energia com pessoas e coisas que não valem a pena. Vamos lutar, mas que estejamos sempre à frente.

@ivonepita

 

Horror vermelho sangue à cultura do pelo menos!

horrorNunca gostei do pelo menos e ainda não gosto, portanto, não posso aceitar o triste argumento de que seria bom que fosse permitido que casais LGBT adotassem, sem terem de passar por um processo complicado na justiça, porque assim, pelo menos, as crianças não ficariam em orfanatos. Menos ainda poderia aceitar pretensos argumentos de que até abortos iriam diminuir e que em vez de termos corpos de bebês jogados em lixo ou em meio de estrada, teríamos crianças felizes, pois LGBTs, pelo menos, ajudariam a diminuir tamanha barbaridade. Ou seja, sermos adotantes pode ser algo tolerado se for para resolvermos problemas ou nem deveríamos pleitear tamanho disparate. Até podem pensar em nos permitir determinada inserção social, desde que seja para ficarmos com o que outras pessoas descartaram. Um serviço de limpeza mesmo. Se pelo menos tiver essa função, talvez seja aceitável a adoção por parte de LGBTs. E assim, quem sabe, até descobrem um sentido para nossa existência? Posso até vislumbrar uma chamada: “não batam nem matem os gays, eles tem utilidade: esvaziar os orfanatos, tirar as crianças das ruas, reduzir a quantidade de abortos”. Ora, este é o motivo de nossa existência? A ideia é de um reducionismo absurdo dos indivíduos, dos cidadãos LGBTs. Pelo propósito da existência e por ser diretamente relacionado a sobras. E lamento ver que muita gente adere a este tipo de campanha, que nos coloca em posição secundária, como última alternativa, como o “menos pior”. Como menos. É preciso atenção para não corroborar este tipo de discurso, que nos menospreza, que nos torna restos.

Também não somos serviço de utilidade pública. Isso cria uma função utilitarista para nós LGBTs e considero isso terrível. Tenho horror ao utilitarismo, imagine em relação a indivíduos! Uma existência apenas utilitarista e regulada pelas necessidades de outras pessoas! Ora, somos cidadãos e devemos ter nossa cidadania plenamente reconhecida, equiparada ao restante da população e não sermos tratados como cidadãos inferiores, opção secundária ou última. Em uma sociedade de homotransfobia institucionalizada, que nos obrigada a viver de sobras, não precisamos nós mesmos corroborar este tipo de discurso ou apoiar a prática, como se concordássemos, como se nos fosse um benefício. Em todas as instâncias nos fazem existir em função da heteronormatividade. Lidamos cotidianamente com o heterocissexismo, não precisamos nós mesmos colaborar nossa própria depreciação. Eu não quero que aceitem nosso direito à adoção pelo viés do “pelo menos”, do “menos pior”, com discursos de “é melhor gay adotar que ficar na rua” ou “gay deveria poder adotar, pois assim ajuda a resolver o abandono de crianças” etc. Eu quero ter o direito de adotar por ser cidadã e o Estado ter o dever de garantir o pleno reconhecimento dos meus direitos civis.

Em minha tríade de luta –  o casamento civil, a lei anti-homotransfobia e o reconhecimento das identidades trans – não quero o pelo menos da união estável, mesmo que esta nos garanta alguns direitos, não quero união civil, quero casamento civil, quero todos os mesmos direitos, com os mesmos nomes, sem qualquer diferenciação, não quero que homofóbicos sejam responsabilizados criminalmente somente se nos espancarem e matarem, quero que assumam legalmente a responsabilidade por xingar, agredir, humilhar e incitar o ódio e a segregação contra nós, não quero que pessoas trans tenham o nome social reconhecido somente em boletins de ocorrência, em listas de chamadas nas escolas ou em prontuários de hospitais, quero o reconhecimento de suas identidades e não quero que sejam obrigadas a se submeterem a cirurgias que nem sempre desejam para alcançarem tal reconhecimento.

Ora, nós somos violentados a cada vez que ouvimos um discurso homotransfóbico. Somos violentados em nossa cidadania quando não temos direitos igualitários ou quando LGBTs são caçados, torturados e mortos e nem sequer se reconhece o crime como sendo de ódio. Somos barbaramente violentados quando culpam a vítima pela violência sofrida. A cada suicídio vamos sendo cortados por dentro por um mundo em que não se consegue mais respirar tranquilamente diante de tanta e tão ameaçadora violência homotransfóbica.  Vamos sendo dilacerados a cada pessoa despedida, agredida, humilhada, expulsa, apartada, estuprada, espancada e assassinada. A cada corpo retalhado de um dos nossos e a cada tiro, facada, chute, soco, paulada, dentes e costelas quebradas, e tantos objetos transformados em armas letais que atravessam, quebram ou esmagam nossos corpos – quando não chegam ao extremo de nos tirar a vida. E é por tanto sangue derramado de cada uma destas pessoas e por cada uma das que ainda estão por vir – pois virão -, que não devemos nos contentar nem negociar nem aceitar qualquer “pelo menos”, afinal, não queremos nada em excesso, mas apenas o que nos é de direito. E é muito sangue derramado para não nos causar absoluto horror a sermos nivelados por baixo e silenciados com pequenos e insuficientes agrados. Na novela não pode ser suficiente que sejamos retratados de maneira jocosa, com desdém e agressões, por “pelo menos” estarmos lá. Basta. Disso tivemos muito até o momento, agora queremos mais, queremos seriedade na abordagem de tantas pessoas tão diferentes que somos e na abordagem de tudo que temos de enfrentar diariamente. Sim, eu acredito que devemos comemorar cada pequena vitória, mas ainda mais que não devemos aceitar migalhas. Jamais.

@ivonepita

Parada obrigatória

ImagemEm todos os cantos ouvimos e lemos várias críticas – e nada construtivas – sobre o caráter festivo do maior evento LGBT do Brasil. Quantidade não é qualidade. As pessoas só dançam e se embebedam. Apenas beijam na boca. Virou apenas uma festa. A luta pela causa se perdeu. Ninguém lembra mais dos nossos direitos. Tudo bem que há visibilidade, que mostramos que somos muitos, mas isso é pouco! As pessoas vão lá e se comportam como se a parada fosse apenas uma grande festa, um grande carnaval fora de época. E para a parada ter algum resultado positivo, ela tem que ser um palanque para nossas reivindicações e não um palco onde todo mundo sobe e aparece dançando, cantando e com roupas extravagantes ou quase sem roupa. A Parada ficou apolítica! A Parada é puro comércio! A Parada é pura hipocrisia! Como se não se comportar de acordo com regras pré-definidas fosse hipocrisia. Ser hipócrita é fingir ser o que não é, é aparentar sentimentos nobres, mas exercer e difundir outros bem diferentes, é se dizer muito compreensivo e tolerante, mas não aceitar e ainda rechaçar qualquer um que seja diferente. As pessoas que vão à Parada são justamente o oposto disso: mostram quem e como são, agem como querem e assumem seus desejos. Hipócritas são os outros, não nós, nós somos legítimos e corajosos. Não ficamos confinados em guetos, não contamos com permissão ou complacência. Somos de carne e osso, somos seres humanos, somos reais e não há como nos ignorar, nem encarcerar em espaços de invisibilidade. Mostramos que somos muitos, que somos cidadãos.

Alguns reclamam sobre a Parada não ser mais séria como um dia foi, em evidente saudosismo ilusório sobre algo que nunca viram, pois a Parada sempre incomodou, sempre foi condenada e desqualificada. Acredito que muita gente vê a Parada apenas através de um recorte moralista. No entanto, nas maiores Paradas do país, há recolhimento de assinaturas para petições, grupos protestando, com uso de roupas brancas ou pretas, discursos em palanques, distribuição de panfletos educativos, faixas, cartazes etc. Mas boa parte disso não aparece em jornais e TV. Muito menos nos discursos inflamados de nossos algozes. Portanto, precisamos pensar sobre como construímos nosso olhar – como olhamos e para o que olhamos. A Parada reúne tanta gente e tanta atividade diversa e os olhos veem apenas sexo e o que rotulam “baixaria”? Por que alguns olhos veem somente o que consideram imoral? Por que razão reduzem tudo a um único recorte moralizante? E não é possível se alinhar ao discurso da boa moral e bons costumes, quando são estes os alicerces do sexismo, do machismo, da homofobia e da transfobia. Mesmo a visibilidade trazida pela Parada, seu objetivo inicial e principal, é condenada por muitos como algo ruim. Ora, a visibilidade trazida pela Parada é ruim ou ruim é o olhar que alguns lançam sobre ela? O que não considero nada bom é a tentativa de controlar as pessoas e por isso prefiro não me alinhar à gente reguladora de corpos e modos.

O que precisamos entender é que a Parada não é marcha nem passeata, ela não cabe em si mesma, a maneira marcante de protesto da Parada é a alegria, a liberação. E se nas marchas e passeatas não comparece tanta gente como em uma Parada como a de São Paulo, eu nem vejo por que razão estabelecer este tipo de comparação, pois é totalmente arbitrário, pois são três eventos de características bem diferentes. E um evento não exclui nem diminui o outro. E que mesmo a monetização da Parada e outras formas de controle presentes não conseguem consegue impor apenas um caráter utilitário ao evento, como querem alguns, justamente por  não haver controle eficaz sobre sua verve festiva e transgressora. Considero um exagero e um equívoco achar que é esta ou aquela roupa, este ou aquele comportamento que faz com que muitos nos condenem. Não é, é o simples fato de existirmos. Para alguns somos toleráveis somente se em silêncio e invisíveis, e a Parada grita e acena que estamos aqui e temos corpo, cara, voz, vida, identidade, sexualidade.  A Parada é a nossa cara! Somos nós que lhe damos forma. Portanto, se você gosta da Parada, não deixe de comparecer! Se você não gosta da Parada, compareça!

@ivonepita

Direitos iguais: nem mais, nem menos!

b5-com-marcaO Brasil deveria ser processado. Somos milhões de cidadãos lesados em nossos direitos civis. O Estado brasileiro desrespeita sua própria Constituição, acordos e tratados internacionais referentes a direitos humanos por não nos reconhecer como cidadãos plenos e por ser ele mesmo o promotor e abalizador de uma desigualdade e uma segregação absurda, legitimando e institucionalizando discriminação. O Estado deveria garantir isonomia, equiparação social e jurídica, mas não o faz e não é aceitável que o poder instituído corrobore a gravíssima situação de exclusão de milhões de pessoas. É uma questão de direito civil básico e de crime cometido pelo próprio Estado contra grande parcela de seus cidadãos, ao permitir e mesmo garantir violações diárias aos direitos de LGBTs que deveria proteger.

O Estado brasileiro fere a própria base da república: a isonomia jurídica e civil. É irrefutavelmente inconstitucional tratar de forma discriminatória os cidadãos de uma nação cuja Constituição em seu artigo 1º, estabelece que “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos” e que em seu artigo seu artigo 7º reafirma e complementa a premissa do primeiro: “Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual proteção da lei”. E é com base na própria Constituição, não por acaso chamada Carta Magna, que queremos apenas o reconhecimento de nossos direitos, uma equiparação jurídica mais do que justa com o restante dos cidadãos brasileiros. Nenhum privilégio ou direito inventado ou elevação de um grupo social a uma casta superior, como inescrupulosa e sordidamente deturpam os homotransfóbicos de plantão, queremos apenas o previsto e expresso em lei por sermos cidadãos como quaisquer outros: pagadores de impostos, eleitores e sujeitos a obrigações e regulações diversas.

Nós não ferimos as leis máximas do país, não defendemos nada inconstitucional. Um código em que é previsto que somente “um homem e uma mulher” tem direito ao casamento civil é que fere o que é estabelecido na Constituição. Queremos apenas igualdade. Não estamos pedindo novas leis, não queremos nem se trata de direitos ou leis gays ou LGBTs e nem tampouco queremos cair no discurso de que iremos ganhar ou de que merecemos os mesmos direitos dos demais cidadãos, pois tais direitos já são nossos desde sempre, queremos apenas o reconhecimento do que é nosso por sermos cidadãos brasileiros, exigimos o que nos é devido por questões de justiça social, de respeito à democracia, à Constituição, à cidadania plena, à liberdade individual e ao direito à vida.

Nossa luta não é pelo direito ao amor. Não dependemos de leis para amarmos. Não dependemos de leis para sermos quem somos, muito menos para vivermos nossas expressões de sexualidade, de identidade de gênero ou manifestações de afeto, também não é esta a motivação de nossa luta, nem onde reside a justificativa para ela, mas fazendo parte de um Estado de direito, precisamos das leis que nos legitimem sujeitos legais, com todas as garantias jurídicas que tal status garante, portanto, queremos apenas que parem de nos cercear e usurpar direitos.  Queremos somente o que nos deveria ser legalmente garantido: direitos iguais, nem mais, nem menos.

@ivonepita

Homonormatividade. Porque gay também é limpinho

Não, não é heteronormatividade, você não leu errado no título, é homonormatividade mesmo. Não é uma questão de se portar de um jeito a ser aceito pelos heterossexuais, mas o fato de que muitos gays sabem exatamente como todos os outros deveriam ser e se comportar. Impressiona a fórmula pronta, a estética fechada, a educação universal. Gay tem que ser viado, bicha nunca. Lésbica sim, sapatão jamais. Viado é jovem, atlético ou, no mínimo, com o corpo bem cuidado – em forma, pois viado que se preza sempre frequenta academia. Viado é educado, não usa palavras de baixo calão, não fala baixaria, não faz saliências em local público, não beija a boca de vários, não é promíscuo. Viado não tem voz fina, não tem trejeitos, não é caricato, não é espalhafatoso, não é chegado a bizarrices. E em bizarrices encontramos de tudo: ser “afeminado”, vestir-se de mulher, por seios, por silicone, pintar unhas, usar maquiagem, gostar de salto alto, ser transgênero e tudo o mais que fuja à imagem de um homem gay “equilibrado”. E o mesmo para as lésbicas. Lésbica também é pura feminilidade, não é como um sapatão. Sapatão parece homem, não cuida das unhas nem do cabelo, não usa saia nem vestido, é agressiva, não é delicada como uma mulher. Fala com voz grossa, anda de um jeito pesado, é uma figura caricata. E o que dizer quando é trans? Gente que retira ou põe seios e pênis. Tudo muito estranho.

Mas deveria existir um padrão de comportamento gay? E quem não se enquadrasse, deveria ser considerado inadequado? Ora, em todos os grupos sociais, existe todo tipo de pessoa. Por que com gays deveria ser diferente? Isso é mais uma pecha jogada em nossos ombros que não nos cabe. Esse é mais um discurso opressor que devemos tomar cuidado para não internalizar. Quem nos oprime é que usa isso: essa moral única, essa normatividade, estes tais valores que são ditos e tratados como se fossem universais: isso pode, aquilo não, pode agir assim, daquele outro jeito não, pode se vestir assim, daquela forma, não. Considero muitíssimo lamentável esses julgamentos sobre o jeito “do outro”, quando a própria pessoa não tem controle sobre seu próprio gestual. Ela apenas é o que é – nos gestos, no modo de andar, na voz, no jeito de falar etc. e, com certeza absoluta, seus modos e suas falas são absolutamente reprováveis por outros – também se enquadram em um estereótipo. Todos nós nos enquadramos. E todos somos achincalhados por outro grupo social, ainda que não saibamos.  Mas quando é conosco, queremos que compreendam que é apenas o que somos. Então, por que quando é com o outro quero que ele se “endireite”? Este não é o justamente o discurso de quem nos oprime? Defender ideias conservadoras e moralistas, ditando um padrão de comportamento idealizado, serve apenas para promover a exclusão de quem não se enquadra. E o que nós sofremos com a heteronormatividade senão exigências, pressões e desqualificações para que vivamos limitados a determinadas regras de conduta social? Um moralismo tosco que estigmatiza e marginaliza, sem respeitar diferenças? Então, excluídos que somos também seremos agentes de exclusão? E de nossos próprios pares? Eu tento não ser, pois, afinal, não é por diversidade que lutamos? Pelo respeito às diferenças?

Quem considera se esta ou aquela postura ou linguagem é chula são os conservadores, os moralistas, que dizem o que é certo ou errado, como as pessoas devem ou não se comportar, como se houvesse uma moral única, imutável e unânime, inclusive, são os mesmos que não reconhecem pessoas trans, o que dizem as razões para que tais pessoas não devessem existir. Portanto, sim, é reprodução do discurso opressor, mas frente a outro grupo. E devemos tomar muito cuidado para não assimilarmos o discurso opressor nem resquícios dele, pois chulo mesmo é ser preconceituoso quando se é alvo de preconceitos. Chula é a linguagem que exclui, que estigmatiza, que rotula, que aparta. Chulos são os gestos de exclusão, de agressão. Escandalosos são os crimes cometidos contra nós. Escandalosas são as agressões que sofremos e nossas cidadanias diminuídas. Escandaloso é ter nossos direitos usurpados. Chulos e escandalosamente imorais são aqueles que querem nos manter invisíveis e à margem da sociedade que cotidianamente também ajudamos a construir e manter, nos relegando a ter somente todos os deveres, mas não todos os direitos. O restante é diversidade. Apenas diversidade. A questão é saber olhar e respeitar o diverso, ainda que não o compreendamos, assim como queremos que nos vejam e nos respeitem.  

@ivonepita

O orgulho como necessidade

o-orgulho-como-necessidadeVez ou outra há discussões acaloradas sobre as razões para se ter orgulho e em que isso consiste, com boa parcela dos próprios LGBT reproduzindo o discurso de quem nos desqualifica e ataca, dizendo que não há por que nos orgulharmos de algo que apenas somos, que orgulho devemos ter apenas do que conquistamos por esforço, como uma carreira de sucesso ou a superação de um desafio ou uma dificuldade. Ora, mesmo com este argumento teríamos muito orgulho a celebrar, por termos coragem de sermos quem somos, por nossas conquistas, por nossa força cotidiana, por nossa história, por nossa luta. Uma trajetória de enfrentamentos pontuais, diários, individuais, coletivos, de toda uma gente, todo um grupo social a que foram impostos estigmas de pervertidos sexuais, de desequilibrados mentais, de criminosos e que ainda assim, apesar de toda a pecha de párias sociais e degenerados morais, vem conseguindo vencer a marginalização.

Orgulho é um termo que pode ser usado de forma positiva ou negativa e com a intenção de nos desqualificar muitos apelam para o sentido ruim, como se fosse soberba celebrarmos nossa dignidade. Celebramos nosso orgulho, não no sentido de vaidade, como um excesso que nos ensinam a reprimir, mas no sentido de brio. E brio significa dignidade pessoal, significa coragem, significa amor-próprio. Ser digno significa ser merecedor. Portanto, celebrar o Dia do Orgulho LGBT é celebrar nossa coragem, é comemorar nosso amor-próprio e afirmar que, apesar dos cerceamentos e desqualificações, somos merecedores de uma existência plena.  E a tentativa de nos imputar vergonha é a forma de destruir este orgulho. O discurso da vergonha nos é imposto desde sempre, o discurso da inferioridade, da marginalização, da vida que deu errado, do desajuste, da anormalidade, como tentativa de controle. Portanto, não é de se estranhar que as pessoas que sempre lucraram ou sempre viveram em paz com nossa subserviência, com nossa ânsia por ajuste, por aceitação através de adequação, façam o possível para nos desqualificar, para nos jogar novamente no lugar de vergonha e sem poupar esforços. Não toleram nossa superação, nossa saída da vergonha para o orgulho, da invisibilidade para a visibilidade, da anormalidade para o comum, da marginalidade para o convívio social livre de amarras e estigmas.

Ter orgulho de ser quem se é, da própria inserção e atuação no mundo, frente à vida e a outros seres humanos, é um reconhecimento que qualquer pessoa merece e deve conferir a si mesma, como fortalecimento e motivação para seguir em frente.  E os que nos querem infringir vergonha não nos querem nem fortes nem avançando em nossas conquistas. Esforçam-se para nos impor a pecha de indignidade, nos rotulando de imorais, obscenos, infames e desonrosos. Intentam destruir nossa dignidade pessoal e a dignidade de todo o nosso grupo social, através de insultos, de exposição difamatória, de ataque a vulnerabilidades e de tentativas de nos tornar perniciosos socialmente e também ridículos. Estratégia para nos oprimir, agredir e apartar. E é desta forma que muitos LGBTs internalizam vergonha e culpa, condenando não somente a si, mas também seus semelhantes. E daí a imensa e fundamental importância de exercitarmos nosso orgulho sempre, em todos os espaços e de toda forma que pudermos, pois o exercício de orgulho é uma ação positiva, é ato político, uma afirmação de nossa existência, de nossas conquistas e de nossa resistência. Embora sejamos um grupo tão estigmatizado socialmente e com direitos civis básicos diminuídos, resistimos e avançamos. O sentimento de orgulho é essencial para fortalecer nossa caminhada e para dizermos a quem ainda sucumbe a ataques diversos, que podemos ser quem somos com dignidade, alegria e com uma vida plena, e que não há nada de errado em sermos nós mesmos. Portanto, tenhamos orgulho de nós, de nossa força, de nossas conquistas individuais ou coletivas. Se ainda somos muito marginalizados também deixamos muito de ser. E isso se deve a luta diária de cada pessoa e ao exercício de nosso orgulho, nossa dignidade.

Tenhamos orgulho de cada manifestação pública, de cada conquista, não somente jurídica, mas também social, de pessoas, de gestos, de ideias, de cada expressão espontânea e livre do próprio corpo, da própria sexualidade, dos desejos e do amor. Tenhamos orgulho e não vergonha. Estejamos prontos e abertos a dignificar e perceber enfretamentos e desafios a normas e amarras sociais e jamais a apontar e condenar. Basta-nos o que fazem conosco. Se não nos compreendem, não aceitam, não respeitam, nos julgam e condenam, não façamos o mesmo com nossos pares. Ainda que nos fuja a compreensão sobre suas ações e expressões de liberdade e protesto, saibamos aceitar, respeitar e não condenar. Sejamos solidários, generosos e parceiros legítimos de luta por respeito às diversidades e individualidades. Tenhamos orgulho de cada militante que vai às ruas e de cada militante que de sua casa ou trabalho compartilha informações, tenhamos orgulho de militantes que lutam há décadas por igualdade e respeito e de militantes que começaram ontem a impor suas vozes acima da opressão cotidiana, tenhamos orgulho de militantes que compreendem que nossa luta por igualdade não está isolada dos demais grupos discriminados e não se esquecem deles. Tenhamos orgulho dos militantes que mesmo não tendo total compreensão sobre demandas alheias, se esforçam por entendê-las e têm absoluto respeito por elas. Tenhamos orgulho de nós!

@ivonepita

Balaio de ódio aderente: LGBTs, baratas e apocalipse.

balaio-de-odio-aderenteEm toda comunidade há paradigmas sociais que envolvem comportamento, vestuário, linguagem, regras de convivência, normas jurídicas, questões de estética e muitas outras. Fica, então, estabelecido o conflito: de um lado os que desejam manter as coisas como estão e do outro, os que querem mudá-las. De um lado os reacionários, os conservadores, os moralistas defensores de uma idealizada e única moral de cristalizados “bons costumes”. De outro os progressistas, defensores de moralidades relativas, plurais e costumes sempre negociáveis e diversificados. De um lado os que entram em pânico com a possiblidade de mudança do que acreditam ser o melhor. De outro, os que, por não apresentarem um comportamento dentro do que se estabelece como norma, por serem desviantes do padrão imposto, sofrem julgamentos irracionais, reações exageradas, são alvos de ações e discursos exasperados, descabidos e ataques falaciosamente justificados por uma ameaça imaginária de destruição.

Pronto, está estabelecido o pânico moral, que ocorre justamente a partir dos confrontos entre o idealizado, o modelo vigente e as demandas de grupos sociais diversos que não se enquadram no estabelecido e vão provocando alterações nas normas e demais padrões. E é nesta dinâmica que diversos grupos discriminados estiveram e eventualmente voltam a estar em evidência. Conflitos são sempre esperados, afinal, vivendo em sociedade, é um processo absolutamente inerente ao próprio convívio estarmos sempre negociando o que é ou não tolerável, plenamente aceito ou execrável. No momento, nós LGBTs somos agraciados em três grupos: alguns nos toleram, outros aceitam plenamente e há os nossos maiores algozes, os que nos consideram execráveis. Estes últimos fazendo o possível para promover hostilidade contra nós e tentando nos segregar, eliminar ou tornar invisíveis a partir do cerceamento dos nossos direitos e mesmo através da criação de leis que nos apartem e nos imobilizem, ainda mais, social e juridicamente. Fazem parecer que os maiores problemas morais são causados justamente pela falta de maior controle de nós transgressores, e diante de uma possível aniquilação da ordem moral conhecida e aceita, todos concordam que alguma coisa deve ser feita e que, portanto, é necessário apertar mais o cerco, ser mais firme, limitar mais nossas ações. Estas pessoas inescrupulosas conseguem fazer de nós a cola que une nossos algozes nos tornando odiosos. Cria-se um ódio comum, um ódio que vai aderindo e fazendo aderir incautos, conservadores e moralistas.

O discurso de ódio destaca nossa sexualidade sobre todas as outras características e, além disso, como uma sexualidade doentia, descontrolada, perniciosa. Somos a bola da vez, somos o inimigo público número um do momento. E para variar em nada, nadinha mesmo, somos o anúncio do apocalipse. Somos o prenúncio do fim das famílias, da extinção do ser humano, do extermínio da humanidade. E em uma sociedade crédula no fim do mundo por castigo divino, não é necessário nenhum outro motivo para nos temerem. Além disso, inescrupulosamente, nos associam à pedofilia, razão para nos considerarem criaturas repulsivas. E assim vamos sendo feitos de alvo, de pragas a serem exterminadas, odiosas e asquerosas como baratas. Gente, ou melhor, coisas abjetas das quais precisam se livrar. Bichos asquerosos que vão adentrando todos os espaços e que eventualmente tocam os humanos e suas crianças e ainda tentam aliciá-las sexualmente. Pervertidos, pedófilos, zoófilos, sem-caráter, transmissores de doenças. Motivos inventados, mas suficientes e eficazes para que sejamos considerados merecedores de perseguição, aparte e aniquilação.

No entanto, o que testemunhamos é um fragoroso fracasso: se por um lado os grupos hegemônicos se promovem, seja financeira, social e moralmente, à custa de nossa comunidade, por outro lado colocam nosso grupo no centro das atenções, sob os holofotes, que mesmo sendo de nossos inquisidores, nos proporciona sermos vistos e ouvidos, nos dando oportunidade de desmenti-los e de mostrarmos outra vida possível, outras formas de existir e, fundamentalmente, de coexistir. Se com nosso avanço e nossa maior visibilidade, nos tornamos o alvo da vez por um lado, por outro também somos, neste momento, o grupo social que fará avançar toda a sociedade em relação a direitos civis. Nossa luta não é exclusivamente individual, é também coletiva, não somente por uma vida melhor ou por nosso próprio grupo, mas por toda uma sociedade e inteiramente mais justa.

@ivonepita

Em caso de homotransfobia, culpe a vítima

ImagemOs gays provocam muito. Seja lésbica, viado, travesti ou transexual, a verdade é uma só: gays provocam demais. Riem alto demais, dançam demais, gostam de música demais, lançam moda demais, querem afeto demais, amar demais, trepar demais, serem felizes demais! Eles querem até os mesmos direitos que heterossexuais! Onde já se viu tamanha afronta! Este gays querem ficar por aí, andando, amando e constituindo família livremente e não entendem como isso é ofensivo? Será que não entendem como isso é um ataque frontal à verdade absoluta da heterossexualidade como única existência possível e saudável? Já não basta poderem trabalhar, estudar, andar pela rua, além disso, pretendem se envolver em política, modificar leis? Ainda querem ficar livres para demonstrações públicas de afeto? Querem ser considerados normais como outra pessoa qualquer? Ora, todos sabem que assim, não é possível, assim, não pode ser.

Se uma pessoa mata um viado, certamente o viado teve sua parcela de culpa. Deve ter provocado, deve ter cantado o sujeito decente que o matou, deve ter lhe lançado um olhar abusado. Alguma coisa este viado deve ter feito. Com homens heterossexuais é diferente. Nenhuma mulher vai matar um cara somente por ele ter dado em cima dela, passado a mão pela cintura, puxado o cabelo, passado uma cantada daquelas ou ter lhe sussurrado umas sacanagens gostosas. Claro que não, pois neste caso é normal. A mulher que agredir o homem é louca, claro, merece cadeia. O que tem demais em levar só uma cantadinha ou uma agarradinha? Poxa, tem que ficar lisonjeada… Com viado, não, viado tem que saber o seu lugar, tem que ficar quieto. Que negócio é esse de me expor deste jeito? E se pensarem que o camarada que levou a cantada é viado também? Mulher não, se levar uma boa passada de braço pela cintura e lhe tacarmos um beijo roubado, poxa, é só um beijinho. Não acho que seja tratá-la como objeto, bom, só se for objeto do desejo e aí é uma coisa boa.

O cara tem 18 anos, vai para uma boate, beija na boca e vai logo para cama com um desconhecido, morre com uma facada e todos ficam com pena dele? Mas quem mandou levar o cara para casa? Coisa de viado burro. Com 50 anos? Aí então é coisa de viado carente. Sapatão? Aposto que estava na seca, aí achou outro sapatão doido que lhe enfiou uma faca. O viado que morreu era pobre? Então estava dando um golpe. Era rico? Então estava com um garoto de programa. Algum risco absurdo e desnecessário este viado correu sem necessidade alguma. Ah, se pegou na rua, então, porra, quem mandou estar se prostituindo? Agora morreu de jeito violento. Talvez se não se prostituisse, talvez se não levasse ninguém para sua casa, se não fosse para um motel, se não namorasse, se não trepasse, se não beijasse na boca, se não cismasse em ser feliz, se não fosse gay! Isso é o que dá esta necessidade de ficarem vivendo livremente e fazendo o que bem entendem como se fossem pessoas normais.

E quando é “aquela mulher de saia curta e top que estava andando naquela rua, naquela hora” e foi estuprada? O que dizem algumas pessoas, senão também que a vítima não deveria estar vestida daquele jeito, nem naquele lugar, muito menos naquela hora? É notório e não sem razão que quando se trata de LGBT ou de mulher cis e heterossexual, a vítima, se não recebe toda a culpa, recebe parte dela. No entanto, o que mais fere é ver pessoas da própria comunidade LGBT e mulheres cis heterossexuais culpando a vítima, numa deprimente a auto-sabotadora reprodução dos discursos e práticas de nossos próprios algozes. Por que razão coisas como irresponsabilidade, inconseqüência, falta de amor-próprio, carência e descontrole são sempre atribuídos a quem sofreu o crime e não a quem cometeu? Pense bem.

E quando você fica sabendo de um caso de assassinato ou outra forma de violência, envolvendo uma mulher cis heterossexual ou uma pessoa LGBT, como você olha para esta história? O que você deduz e a partir do que? Você tem informações suficientes sobre a vida dos envolvidos? Sobre o envolvimento de ambos? E ainda que você acredite ter boas informações sobre tudo isso, estará certo do que realmente houve? Mais do que isso: como se dá sua interpretação dos fatos? Sob que prisma você analisa o ocorrido? Será que não há resquícios dos discursos e das práticas sexistas, machistas e homotransfóbicos a que somos submetidos todos os dias? Será que não absorvemos e reproduzimos parte da postura de nossos próprios algozes? E quando é um caso de violência entre pessoas cis e heterossexuais, qual é a reação da imprensa, da população em geral e de nós mesmos? Pense sobre isso, pois não se trata apenas de mim, de você e de nossas ações, mas do discurso inferiorizante que nos infligem a todo o momento e que não podemos de forma alguma reproduzir, pois de nada adianta lutarmos e irmos às ruas por orgulho, respeito e dignidade se carregarmos nossos algozes dentro de nós. É preciso urgentemente romper estas amarras!

@ivonepita

Lésbicas: orgulho e visibilidade

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Somos lésbicas. Somos mulheres que vivem sem homens em um mundo machista e de mentalidade patriarcal. Somos mulheres que subvertem a ordem do sexo frágil, da dependência e da subserviência. Somos mulheres que não seguem o “manual de boas práticas femininas”, que dita modos de vestir, de agir, de falar, de ser e estar no mundo. Somos revolucionárias na acepção própria da palavra: fazemos uma transformação radical na estrutura da sociedade. Estamos onde supostamente mulheres não deveriam estar. É ainda espantoso para muitos, por exemplo, aceitar que duas mulheres possam viver sem um homem. Como vão resolver tarefas cotidianas tidas como masculinas? Não irá lhes faltar força? Jeito? Tino? Há ainda as tentativas de ridicularizar, diminuir e não reconhecer nossa sexualidade. Há uma desqualificação fálica de nosso sexo. Para machistas de carteirinha – e uniforme completo! – lésbicas não trepam de verdade, apenas brincam de se esfregar. Sim, meninas, como se fosse pouco e somente o que fizéssemos. Mas a despeito das agressões e desqualificações, seguimos subvertendo a ordem, desconstruindo certezas e quebrando o que estaria estratificado.

Entretanto, sem orgulho, nada disso é possível. Sem orgulho, nos encolhemos, nos escondemos, deixamos a vida passar. Sem orgulho, não nos fazemos visíveis e sem visibilidade é como se não existíssemos. E, assim, nenhuma revolução acontece, nenhuma revolução é possível. E sem visibilidade não promovemos o orgulho. Somente a partir do momento em que nos tornamos visíveis por sermos nós mesmas, é que somos plenamente orgulhosas de sermos quem somos.  E para isso é preciso coragem, muita coragem. Vivemos em uma sociedade que insiste em dizer qual é o lugar da mulher, como deve ser sua inserção social e como deve se comportar. Sendo lésbica, melhor nem existir, pois não cabemos nos papéis destinados à mulher. E é assim que cotidianamente a sociedade nos diz que deveríamos nos envergonhar de ser quem somos e esconder nosso amor. É assim que a sociedade insiste em nossa invisibilidade, pois o que não se vê não existe, não incomoda, não subverte.

Quando permanecemos invisíveis, contribuímos com a manutenção da discriminação e da violência, motivos pelos quais muitas mulheres optam por uma vida de anulação e silêncio. Contribuímos com a lesbofobia, pois não dizemos ao mundo que estamos em todos os lugares, em todas as profissões, em todas as famílias, em todos os cargos. Não dizemos que somos mães, filhas, avós, tias, irmãs, empregadas domésticas, médicas, advogadas, professoras e toda sorte de representação e inserção social. Não ajudamos outras mulheres a se revelarem, a se assumirem, a serem plenas. Assinalando nossa existência, derrotamos o medo do desconhecido, a discriminação e o ódio alimentado pela perversidade delirante – e nada inocente – de lésbicas destruidoras de família. Existindo publicamente, abordamos questões que nos são específicas e combatemos o sexismo.

A invisibilidade é uma grande violência contra nós  lésbicas. Na mídia, por exemplo, o foco são os homossexuais masculinos. A violência homofóbica é tratada como um fenômeno que atinge somente homens. A violência física a nós mulheres, provocada especificamente por nossa sexualidade, não é mostrada nos jornais, e isso se deve à violência do silenciamento: seja pela invisibilidade auto-imposta, por medo, seja pela falta de estatística específica.  Não temos dados específicos de coisa alguma e são raros os registros de nossa história. E daí a imensa importância do coletivo. Para enfrentar os desafios que nos são apresentados e superar tanta opressão, não há como avançar individualmente, a única forma de alterarmos o ciclo perverso de invisibilidade e descaso é pela união de nossas vozes, de nossa força. A única saída possível é nos organizarmos e lutarmos. E isso depende de cada uma de nós, não de agentes externos. A visibilidade lésbica cotidiana é que derrubará a censura que nos é imposta e o cerceamento de nossos afetos e desejos, portanto, realize algo grandioso: torne-se visível, desafie a opressão e o autoritarismo da heteronormatividade, pois é assim que escreveremos nossa história, uma nova história, e construiremos uma sociedade mais justa, mais solidária, democrática e plural. Nós temos direito à existência, a uma vida completa, à cidadania plena, à visibilidade. Podemos e devemos ser felizes. Plenamente felizes.

@ivonepita

A ostensiva onipresença da homotransfobia

a-ostensiva-onipresença-da-homotransfobiaA violência homotransfóbica está em todos os lugares. Em nossas próprias casas, em nossas famílias, na escola, no trabalho, na rua, pode estar em um ônibus, no cinema, no teatro, na praia ou em uma caminhada pelo calçadão. A violência homotransfóbica tem muitas formas e graus de expressão e não tem alvo certo. Como toda violência, torna-se descontrolada e, incontrolável, atinge qualquer um, em qualquer lugar e sob qualquer circunstância. A homotransfobia é um monstro cruel e de muitas faces – uma criatura implacável, de muitos braços, muitas pernas e muitas cabeças – vazias ou cheias de questões mal resolvidas, de ordem sexual, psicológica e social, perpassa todas as classes, todas as instâncias, tem muitas habilidades e acha até que pode ficar invisível, passar despercebida. Não, não fica. Ela passa despercebida apenas aos mais desavisados. Para nós, seus alvos preferidos, mas não exclusivos, ela é bem chamativa, feia e assustadora.

E, sim, temos medo. Muito medo. Não um medo infundado, paranoico, inventado ou suposto. Nosso medo é muito concreto e nos chega através de palavras violentas, cerceamentos, sangue, dentes arrancados, carne rasgada, órgãos esmagados e ossos quebrados, quando não com a cara da morte.  Mas depois tudo se transforma em estatística. E eu quero rostos, quero vozes, quero histórias. Eu quero ver a gente que só quer amar. Quero ver as pessoas que por ousarem ser quem são, foram agredidas, apanharam e sobreviveram. Quero ver como carregam suas dores. Quero ver como andam pelo mundo, como caminham entre as gentes. Como olham para o mundo, o que pensam. Quero que nos digam por quais transformações passaram. Quero que venham a público falarem de seu enfrentamento cotidiano do medo, do rancor, do constrangimento, da vergonha, da raiva, da sensação de impotência. Todas essas coisas que ninguém quer ver, das quais ninguém quer saber.

A violência que sofremos nos chega sob tantas formas e por tanto tempo. Quando cada caso de agressão, de desrespeito, de morte, de ofensa, de negação de direitos termina em apenas um apanhado de números. Quando anúncios espalhados em outdoors dizem que não deveríamos existir. Quando todos nos dizem quem podemos ou não amar. Quando por toda nossa infância, adolescência e juventude nos cobram a respeito de quem namoramos. Quando não podemos ser quem somos no trabalho. Quando temos de esconder parte de nós na escola. Quando somos perseguidos na vizinhança, na família, no colégio, na faculdade. Quando propõem nossa cura absurda e inexistente. Quando não podemos beijar livremente quem amamos nas ruas. Quando andar de mãos dadas se torna uma temeridade. Quando mesmo um falar ao telefone precisa ser cercado de cuidados e disfarces. Quando nos apontam por nossas roupas, modos, vozes e expressões, quando somos as personagens principais de piadas caricaturais, ofensivas, que ridicularizam e estigmatizam.

Em todos os modelos de vida e janelas para o mundo, seja na TV, em filmes, revistas ou qualquer outro meio, se não somos estigmatizados ou esmagados pela heteronormatividade, sofremos, no mínimo, omissão. Desde muito cedo, de lembranças imemoriais, nos ensinam que somos um erro, um pecado, uma doença, uma abominação, uma aberração, uma perversão ou quaisquer outros dos tantos nomes com os quais se esmeram em nos rotular. Por tudo isso, é surpreendente que resistamos tanto a tantas intimidações, sem nos tornarmos pessoas absolutamente inseguras, vulneráveis e de baixíssima autoestima. É incrível superarmos tanta estigmatização e não aceitarmos viver segregados. É de uma força admirável que consigamos construir relações afetivas saudáveis, vidas profissionais de sucesso, carreiras sólidas, amizades duradouras e constituir família. É fantástico não enlouquecermos, não sucumbirmos à opressão que nos é imposta desde nossa mais tenra idade, sem data para término e por todos os dias de nossas vidas.  É absolutamente admirável nosso enfrentamento diário e mais ainda por se dar entre risos, danças, amores, alegria e uma inabalável crença em um futuro melhor.

@ivonepita

Homotransfobia em família: as unhas e a caixa de ferramentas

ImagemEntro em uma loja especializada em produtos para unha e cabelo e uma voz bem alta para que toda a loja ouvisse me chama atenção: “não, ele não gosta de unhas, não! Ele gosta é de ferramentas! Não é fulano? Lá em casa ele tem uma caixa de ferramentas! Eu dei a ele. Não gosta de unhas não, gosta de ferramentas!” Isso gritado para uma criança de talvez pouco mais de dois anos, e, óbvio, para o restante da loja. Fiquei em choque. Fiquei ali, muda, estática, estarrecida, olhando fixamente para aquela cena. Eu estava de costas, mas virei metade do corpo em direção àquela família. O que algum tempo depois me fez pensar como a mulher que falava tão alto não me perguntou o que eu tanto olhava. Passado o choque, fiquei pensando: a preocupação é o que vão pensar sobre o filho dela? Ou ela acredita na ideia de que se a pessoa for criada direito não “vira” transexual e/ou homossexual? E que por isso um menino não pode gostar de esmalte, pois em sua concepção sexista de mundo é coisa de menina? Ou se a criança gostar de caixa de ferramenta isso garante que será um homem cis heterossexual?

Depois foi um turbilhão de sensações e pensamentos. Como será a vida desta criança? Crescerá um homotransfóbico, um machista, um conservador, um reacionário, uma pessoa reprimidíssima, destas que precisam reafirmar o que consideram demonstrações do que definem como masculinidade das formas mais controversas e ridículas? O que a família fará com esta criança? O que causará a ela? E ela, se percebendo homossexual e/ou trans um dia, terá coragem de assumir?  Achei tão triste e dolorosa aquela cena. Não apenas por ser apenas uma pessoinha ainda de tão pouca idade, tão vulnerável e frágil, mas por ser também nossa história. Quem nunca sofreu homofobia e/ou transfobia em família, em maior ou menor grau, de forma explícita ou velada? Quem nunca se viu no meio de questões com saia, tipo de sapato, de corte de cabelo e insistência na história de ter namorado ou namorada? Sabemos bem que este não é um episódio isolado.

Aquela cena me levou a lembranças de pipas não soltadas, de karatê não feito e tantas outras coisas ditas “de menino”, e me lançou nas memórias de todas as obrigatórias aprendizagens e tarefas “de menina”. Fiquei um tempo lembrando a divisão sexista absurda que sofremos desde a idade mais imemorável, o quanto isso nos tolhe, o quanto é opressor, injusto e um forte elemento em nossa própria homotransfobia. E desejei profundamente que cada pessoa entendesse a necessidade de se posicionar, a necessidade de lutar contra algo tão arraigado, tão compulsivamente reproduzido, tão naturalizado que faz com que não seja questionado por tanta gente e que leva tantas outras a desqualificar e agredir as que lutam no sentido contrário.

Como eu gostaria que todas as pessoas procurassem como ajudar na luta contra a discriminação, contra a homofobia e a transfobia e a favor de nossos direitos civis plenos, de nossa cidadania. Como eu gostaria que todas as pessoas prestassem mais atenção ao próprio sexismo, às práticas circundantes e lutassem contra a absurda opressão de expressões de gênero. Como eu gostaria de ver mais gente lutando contra normas tacanhas que ditam regras a nossa expressão individual, a nossos gostos, a nosso modo de ser e estar no mundo. Como eu desejo que as pessoas entendam que não podemos mais permitir agressões e mortes cotidianas. E que a morte não ocorre somente quando física, mas que todos os dias morremos psicológica, emocional, social, amorosa, sexual e identitariamente. E, principalmente, que não se trata somente de mim ou de você, mas também das gentes todas espalhadas por aí e das que ainda estão por vir.

@ivonepita

‎O perverso discurso da igualdade

o-perverso-discurso-da-igualdadeHá uma humanidade que nos une a quase todos. Nós, seres humanos, estamos sempre em busca de nossos sonhos, nos aproximamos em expressões de nossos desejos, sonhamos com um futuro melhor para nós mesmos, para os demais e para o mundo de forma geral. Nós somos capazes de nos sentir tão repletos de amor, como se estivéssemos transbordando, como se um sentimento tão forte pudesse ser visível e palpável. Essa humanidade, comum a maior parte de nós seres humanos, está em cada pessoa, a despeito de crenças, aparência física, expressões de sexualidade, manifestações culturais, preferências musicais ou estéticas. E se por um lado somos iguais em humanidade, por outro somos diferentes em necessidades, em forma de experimentar, sentir e vivenciar, no entanto, o discurso de igualdade, quando pervertido, propaga que basta uma igualdade generalizante, vaga e abstrata, sem reconhecimento de particularidades.  E é nesta amplitude e generalização que somos engolidos e atropelados diariamente.  Através deste discurso vago e perverso da igualdade nos tornam invisíveis e nos silenciam. Como o discurso de todos sermos iguais apela para o emocional, a ideia é assimilada e propagada sem que se pense na estratégia de esvaziamento da qual faz parte.

Sim, “somos iguais em desgraça”, em sonhos, amores, decepções, em dores, em perdas de ideais, mas somos tão diferentes em nossas particularidades, em nossas idiossincrasias, em nossas necessidades, em nossas histórias. Tratar todos como iguais, passando por cima de especificidades, é silenciar pessoas, grupos sociais inteiros e aniquilar suas lutas, suas reivindicações e lhes cassar a palavra.  O discurso perverso da igualdade absoluta, que questiona uma suposta divisão da humanidade em grupos serve justamente a quem não vive em situação de violência e exclusão às quais estão submetidas as pessoas pertencentes a grupos não-hegemônicos.  Por que razão os grupos sociais que não são discriminados não usam o discurso da igualdade da forma inversa da que tem usado? Em vez de dizer que não precisamos ser mencionados de forma específica em lei, pois todos os cidadãos são mencionados de forma geral, por quais razões não dizem o oposto: como somos tão iguais, então, que se faça menção evidente às populações marginalizadas.  Não, insistem cinicamente na questão da igualdade somente quando é para nos dizer que não é necessário nomeações nem uso de termos específicos, ou seja, insistem na igualdade somente quando é para nos negar reconhecimento expresso, quando é para não nos incluir.

O combate à discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero, por exemplo, é sempre diluído em termos generalizantes como preconceito e diversidade. E assim certas palavras e temas vão sendo agrupados no “todo”. Não é incomum, por exemplo, ouvirmos que “deve-se combater todas as formas de discriminação: contra índios, negros, mulheres, idosos, deficientes e todo tipo de preconceito.” O que é corretíssimo, mas se todos são nomeados, que nós também sejamos. Não nomear, não dizer de forma específica, é uma evidente estratégia de silenciamento e invisibilidade. E nossa igualdade será conquistada somente por uma verdadeira equiparação de direitos civis, por isonomia, por reconhecimento de autonomia, o que será possível apenas através de reconhecimento explícito e bem delimitado de nossa existência e de nossas necessidades. Sem isso, a igualdade é somente ilusória.

Para que seja realmente igualdade, é necessário acabar com a desigualdade diante de leis que deveriam ser para todos, mas sem suprimir as diferenças e sim as reconhecendo e não tentando anulá-las ou apagá-las sob o totalitário discurso da igualdade absoluta. Somente assim, não haverá desigualdade jurídica instituída e a tão propalada igualdade deixará de ser apenas um discurso perverso e seremos, de fato, todos iguais.

@ivonepita