Do jeito que saiu no papel

Chifres, patas e garras

Não quero sua polidez reluzente
de tão bem educada e delicada
Não quero sua delicadeza fofa
de suavidade acolhedora e indiferente
Quero mesmo é teu verbo violento
de me ferir os olhos e reverberar dolorosamente em meus ouvidos
Quero sua brutalidade em me empurrar para frente ainda que me cause ferida
e tire pedaço destes pés fincados no chão por medo de me arriscar
Se me falta coragem, que seja teu afeto a me arremessar para fora do meu lugar
e me fazer andar.

@ivonepita

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De quem sinto falta

Não sinto falta da pessoa fofa que se apresenta ao mundo,
sinto falta da pessoa grosseira que mal me deixava falar ao ser contrariada.

Não sinto falta da pessoa que sabe se portar à mesa de acordo com as convenções da boa educação,
sinto falta da pessoa que come um misto-quente em 5 mordidas enquanto fala.

Não sinto falta da pessoa de gosto gastronômico apurado,
sinto falta da pessoa que gosta de mastigar o inusitado.

Não sinto falta da pessoa que sabe se montar de chique e bem arrumada,
sinto falta da pessoa de cabelo todo jogado para trás, molhado pelas mãos umedecidas em bica de torneira.

Não sinto falta da pessoa que tão bem desfila em sapatos finos e delicados,
sinto falta da pessoa saltitante e acelerada sobre tênis coloridos.

Não sinto falta da pessoa que aprecia um bom whisky ou um bom saquê,
sinto falta da pessoa que adorava parar para uma água de coco.

Sinto – e muito – a falta da pessoa que saberia que metade do dito acima é mentira,
pois a verdade mesmo é que sinto saudade de tudo, dela inteira. E assim a carrego na memória.

@ivonepita

Dentro de mim

Trago dentro de mim uma menina:
arteira, implicante, tagarela, fofa,
maluquinha, paisagista, ceguinha,
Magoo.

Carrego dentro de mim uma pessoinha:
doce, falante, divertida, agitada, atenciosa,
saltitante, entusiasmada, esperta, sorridente
e totalmente fora do carrossel.

Levo dentro de mim uma mulher:
querida, cuidadosa, inteligente, forte,
frágil, estável, generosa, inconstante,
coerente, corajosa, insegura, contraditória,
uma orquídea.

Agita-se dentro de mim uma puta:
sacana, debochada, desbocada, displicente,
leviana, perspicaz, irônica, intensa, narcisista,
egocêntrica, autorreferente, convencida,
sempre tão viva.

Todas se manifestam.
Todas se conflituam.
Todas se harmonizam.
Todas se complementam.

Todas me tocam.
Todas me atravessam.
Todas me desafiam.
Todas me animam.

Todas me habitam.

Em todas elas delicadezas,
sorrisos rasgados, risadas desmedidas,
sutilezas, licenças poéticas,
reações calorosas, fome de mundo,
desejo de vida, conversas randômicas,
humor sem critério.

Cada uma delas é imbecil,
boba, ridícula, besta.

Feliz com tudo.
Feliz por nada.

Em cada uma delas tudo é enormidade,
Tudo é intenso, tudo é inteiro.

Com cada uma delas tenho boas lembranças,
alegrias, desejos, sonhos e planos.

Com todas elas, mesmo sendo tão jacu,
me permito sempre um pouco mais.

Com cada uma delas,
grandes encontros,
caminhos atravessados,
beijos estalados,
abraços apertados,
olhares devassados,
a certeza do afeto,

o pacotinho completo.

@ivonepita

Acenar é preciso

o aceno sempre pode ser uma arte
daquelas visíveis para poucos
ou somente para duas pessoas
o aceno por carta
por riso
por gesto
por uma surpresa
um presente
um correio

o aceno para dizer oi
até mais
me espere
que bom te ver
estou feliz com você
senti saudade
te gosto
te quero
te espero

o aceno que nem sempre se vê
o aceno envergonhado
um sorriso de cabeça baixa
uma careta seguida do riso tímido
acenos

os que são evidentes
que são acordados socialmente
os cordiais e protocolares
os acenos surpreendentes
involuntários
denunciadores
que entregam o desejo
acenos necessários
acenos a não restarem dúvidas
acenos que restabeleçam laços
que evitem o rompimento
que assegurem
em reposta a outro aceno
como declaração de amor
aceno para dizer que não,
aceno para dizer que sim,
aceno que pede tempo
que se despede
que avisa do retorno
que assinala reencontro
aceno para não deixar escapar
aceno para dizer eu vi
recebi
gostei
aceno que diz ainda estou por aqui

aceno para acariciar
para acalmar
para aplacar
para apaziguar

aceno que não deixe dúvida sobre seu significado
que estabeleça laço, ponte, entendimento
aceno para não deixar no vazio
aceno para que não se pense que a espera é vã
aceno para se dizer sem falar
aceno para se poder em paz aguardar
aceno sem ruídos
direto
aceno eloquente
que talvez diga apenas um aguente
e que, sim, é afeto o que se sente

@ivonepita

O tempo do silêncio.

 

o tempo do silêncio é o tempo da abstinência
tempo de não ver
de não falar
não tocar
é o tempo de pensar se vale a pena insistir no exercício da resiliência
ou se é melhor agir feito aquelas pessoas admiráveis
para quem tudo é de todo bom ou de todo ruim
que vivem linda e levemente no reino do maniqueísmo
sem maiores reflexões ou entendimentos, sem ponderação
o tempo do silêncio é o tempo do entendimento
o tempo de pensar se o que se sente é afeto mesmo
ou se foi apenas encantamento, empolgação
se tudo não se resumia a ser divertido somente
sem maiores comprometimentos, riscos ou mergulhos
é o tempo de decidir o que deixaremos para trás
se no passado ficará somente o desentendimento
ou também toda a história vivida, sem lhe darmos continuidade
é o tempo de entender qual o tamanho da saudade
se é saudade de fato ou só uma cisma
é entender que historia foi ou está sendo
o tempo do silêncio é aquele em que você fica só
absolutamente só e sob abstinência:
não ouve nem vê nada que faça referência à pessoa com quem ocorreu o conflito
nem imagens, nem voz, nem músicas, nem um e-mail ou frase curta qualquer,
é o tempo de total afastamento
tempo para ver qual espaço de fato a pessoa ocupa em sua vida
e como se lida com as memórias dela, o que lhe dizem e lhe causam
no tempo do silêncio vamos apurando nosso olhar sobre o que houve
tanto antes do conflito, como durante e depois
é quando conseguimos saber mais e melhor sobre a importância da relação
se era apenas um tanto faz ou se tornava os dias mais felizes
é o tempo de saber se podemos realmente ficar só com o que é bom sem voltar ao ruim
se podemos simplesmente esquecer os embates para ficar apenas junto
é o tempo de saber se a mágoa fica intransponível e se a tudo assola
ou se é plenamente diluível no afeto que a tudo recupera e transforma
o tempo do silêncio é onde se decide pelo rompimento ou pela permanência
é dentro de onde se vê com acuidade se era tudo meio falseado, apenas sonhado
ou tudo absolutamente verdadeiro, legítimo, intenso e se ainda persiste
no silêncio é que se encontra a calma
tão necessária para entender que muito do que se achava
que a outra pessoa tinha errado talvez tenha sido você
e aí mesmo é que é necessário muita, muita calma para resolver
continuar em uma insistência barulhenta pode apenas agravar seus erros
e acabar com qualquer chance de reparo
no silêncio você parecerá sentir todo o peso do mundo, toda angústia e os ecos
todos os ecos de todos os erros, todos os ecos de todas as lembranças boas e ruins
até que tudo ficará realmente mais silencioso, mais calmo
e você poderá distinguir melhor erros e acertos
além disso, você estará fazendo o mesmo pela outra pessoa: a deixando em silêncio.
Em paz.
Sei bem que não é fácil, a vontade é de sair falando, escrevendo, cutucando de alguma forma.
Eu sei que você pode ter criado uma dinâmica toda especial e exclusiva,
que a outra pessoa te inventou todo um cotidiano preenchido pela presença dela.
Eu sei que você pode se contorcer na cama, pelas paredes, na mesa de trabalho,
mas aguente.
Ligar, falar, comentar pode apenas lhe retornar em forma de nada, uma não-resposta
ou, ainda pior, um doloroso fora.
E a mágoa seria novamente remexida.
Deixe passar. Deixe acalmar, pois somente assim será novamente possível.
Eu sei que a vontade louca é de trazer logo tudo de volta. Mas tudo o quê? A mágoa junto?
É preciso deixar que a mágoa se esvaia.
Talvez o tempo do silêncio seja o tempo do escoamento.
É nele que deixamos tudo apenas escoar para assim vermos o que fica.
Ficará a tristeza, a mágoa, as lembranças ruins ou a memória boa, o gosto bom, o quero mais?
E talvez o tempo do silêncio seja isso: o tempo do discernimento e da recuperação.
É preciso deixar que cada coisa que feriu não fira mais.
E fazer o exercício para que o escoamento seja somente do que foi ruim.
E que, finalmente, se possa chegar ao reencontro: o tempo da delicadeza.

@ivonepita

Uma quarta qualquer

Quando uma quarta-feira, uma quarta qualquer, revela-se um monstro-preguiça devorador de suas vontades. E faz de você uma espectadora de si mesma.

Espectadora que olhando reconhece bem o que vê: alguém que abre mão de orgulhos bobos e outros expedientes para não ceder à tentação.

Tentação de não ter disposição alguma à reflexão, à compreensão ou à resiliência e de apenas brigar ou romper com quem insiste em intransigências.

Intransigências tão bem justificadas por quem a elas se agarra, mas tão incompreendidas por quem diante delas fica apenas com a tristeza e a decepção.

Decepção remediada apenas pela calma trazida pelo tempo, senhor dissipador de todo susto e toda mágoa, e que nos permite manter e cultivar o afeto.

Afeto que me toma pela memória os sentidos e me leva em viagens por falas, sorrisos, gestos, olhares e imagens por toda uma quarta, uma quarta qualquer.

@ivonepita

Da resiliência do afeto

Não, não é tarefa fácil. De fato, é extremamente difícil, resiliência é um processo e nele há riscos de várias quedas: em um dia a compreensão está ali, no dia seguinte pode estar somente o ódio egocêntrico. No entanto, é aí mesmo em que reside a resiliência do afeto: resistir a toda montanha russa emocional em que entramos quando ocorre uma briga ou um desentendimento de maior ordem. Para tanto, naturalmente, é necessário entender que é absolutamente natural sucumbirmos a dores, dúvidas, incertezas, mágoas e momentos de fúria e saudade, justamente pelo exercício frustrado do afeto. Mas que é só isso. É o afeto se debatendo sobre si mesmo. É o afeto doente. E precisamos ainda entender que não é a outra pessoa que tem de nos retirar deste lugar, a pessoa que supostamente te atirou nessa área sombria. Nós é que devemos fazer nosso próprio resgate. Nós é que devemos superar todas as dores e mágoas, olhar para o embate como fato ocorrido e entender que é impossível ter domínio total sobre o que aconteceu. E é fundamental não nos esquecermos do óbvio: de que não somos oniscientes. Não podemos saber o que se passou ou que se passa com a outra pessoa. E é isso, cada pessoa age como escolhe ou consegue agir. Talvez se tenha decidido deliberadamente por ferir, talvez não. E qualquer uma dessas ações está dentro do que a pessoa consegue oferecer ao mundo. Dentro do que ela pode e consegue ser. Talvez a grande ferida – seja de que ordem for – esteja na outra pessoa. Não há como saber. E talvez seja anterior a nós. Podemos ter tocado em um ponto de fragilidade ou cruzado uma linha que não percebemos o quanto ia ferir a outra pessoa.

Talvez, para imensa tristeza, dor e desespero, a outra pessoa tenha de fato de ir embora. Talvez temporariamente, talvez de uma vez por todas. Sim, dói demais. É inaceitável até. Mas não é algo que se possa mudar e, principalmente, não precisa ser considerada responsabilidade sua. Como saber por que a outra pessoa foi embora realmente se havia afeto? Quando não há, é fácil. Quando está tudo muito ruim, também. Mas quando está tudo bom e leve e com tanto afeto que quase palpável, como explicar? Como aceitar? Como entender? Como lidar com o rompimento repentino por conta de um ou alguns desencontros? Não há fórmula. Não há remédio. Não há antídoto. É suportar toda a confusão do golpe violento. É aguentar todas as dores que virão a cada dia de lembrança e espera. É lidar com todos os sentimentos controversos sem se deixar derrotar por eles. É se concentrar na certeza de que com o tempo tudo se acalma e pensamos e sentimos tudo de forma mais lúcida. Se a pessoa rompeu, é porque precisou romper. Não importa se de forma abrupta, agressiva ou qual seja, se a decisão foi pelo rompimento é porque a outra pessoa considerou que esta era a melhor escolha naquele momento. A melhor para a outra pessoa, sim, mas quem disse que não foi também por você ou por vocês? O que importa mesmo é: que tipo de afeto será o meu se eu colocar a saudade que sinto acima da necessidade da outra pessoa?

E sim, por mais amargo que seja, nada pode garantir que o afeto voltará para o lugar de antes. Talvez quanto mais tempo passe, com a distância, mas ele se dilua em outra coisa. Mas também nada, nada pode garantir que não voltará ainda mais forte, mais firme, mais enraizado e alastrado, cheio de novas nuances, com mais flexibilidade e maior compreensão – adquirida na resiliência do suportar e transformar. Não é fácil. Pode ser demorado. Tudo pode se perder. Mas se há afeto de fato, se os afetos de duas pessoas se tocaram, se atravessaram, se havia um lugar de afeto único, em que apenas duas pessoas são cúmplices, um espaço que a apenas duas pessoas é inteligível e palpável, o afeto pode vir a se transformar no que tiver ou precisar vir a ser, mas estará ali, ele, o resiliente afeto.

Mas antes da resiliência o looping: o que levou a outra pessoa a reagir de forma exagerada, dramática, agressiva diante de uma ação sua? Por que a outra pessoa apenas não foi compreensiva? Por que não se manteve firme a seu lado? Por que não quis mais conversar? Por que foi embora? E aqui uma evidência: sempre que se pensa sobre a outra pessoa é com uma condenação implícita. Diante do rompimento, mesmo que a gente pense sobre o que levou a outra pessoa a romper, pensamos sempre do nosso lugar de dor, do nosso lugar de narcisistas, egocêntricos e autorreferentes. Por que romper comigo, o que eu fiz de tão grave? Justo agora que estávamos tão bem? Mas se nos gostávamos tanto por que razão ir embora? Alguns dias antes estava tudo tão bem, tão gostoso, foi tão maravilhoso o tempo passado junto e há apenas algumas horas, então, como a outra pessoa pode ir embora? Como pode me pegar de surpresa desta forma e me causar esta dor? Eu, meu sofrimento, minha dor, meu afeto, minhas alegrias, minhas lembranças, meu espanto, meu estarrecimento, minha tristeza, minha sensação de descarte. Tudo assim, no pronome possessivo da primeira pessoa. Mas e, então, você que tem tanto afeto, tanta consideração com a outra pessoa, tanto cuidado, o que tentou entender do sofrimento dela, da dor, do afeto, da tristeza, da sensação de ir embora, da decisão de ir, dos porquês?

A resiliência é um exercício de resistência e também de desapego. De si e das próprias verdades. É se preocupar se há mágoa em quem te magoou, é torcer para que esteja bem quem te deixou tão mal, é querer que pense lucidamente quem te causou tontura. A resiliência do afeto só é vivenciada se conseguimos ultrapassar o eu. Não é tarefa nem um pouco fácil, afinal, fomos ensinados a vida inteira e somos bombardeados todo o tempo, na quase totalidade dos espaços, a olharmos muito para o nosso próprio lado, sobre o que nos atingiu, a nossa dor. No entanto, se há afeto de fato conseguimos nos acalmar, parar de olhar para as próprias feridas, como se fossem as únicas e as piores do mundo e começamos a pensar que se a outra pessoa surtou, também nós surtamos. Que se nos agrediu, também agredimos. Mas óbvio que é sempre mais fácil olhar para a insensibilidade da outra pessoa, o que ela não considerou, o que ela não viu, do que ela não cuidou, afinal somos – todos – autocomplacentes. Com nós mesmos nossa benevolência é ilimitada. Mas e a outra pessoa? Obviamente, no processo para se chegar a resiliência, se não formos algum tipo de sociopata, temos períodos de mágoa, raiva, tristeza, choro, afinal, como não sentir mágoa ou tristeza quando somos feridos e raiva de toda a situação, da outra pessoa e até de nós mesmos? Todos os sentimentos que vêm após um desentendimento com quem se gosta estão permitidos, são naturais e acredito que é muito saudável admiti-los e vivenciá-los até que se esgotem.

Talvez chegar a este esgotamento seja o primeiro passo para chegarmos à resiliência. Ou talvez seja a resiliência que nos faça esgotá-los. Ou ainda, quem sabe, talvez seja um processo conjunto. Cada caso é único e cada pessoa vivencia tudo isso de sua própria forma e em seu próprio tempo. O que importa mesmo é chegarmos a esse momento em que apenas compreendemos, aceitamos e preservamos intacta nossa capacidade de alegria, de encantamento, de envolvimento e de afeto. E – talvez – com a mesma pessoa. A resiliência afetiva vale muito a pena. Não é tarefa fácil e nem para amadores, é exercício diário e é preciso amadurecimento, força, determinação, compromisso. E, mais que tudo, ele, a um só tempo elemento-chave da resiliência e seu maior prêmio: o afeto.

@ivonepita

Se restasse apenas um dia.

Estes dias tenho pensado em como se perde tempo. Como as pessoas perdem tempo, como perdemos tempo. Como nos perdemos. Como deixamos a vida passar sem agarrarmos o que mais nos move ou poderia mover. E mover deliciosamente. Não falo do que eu suponho que seria melhor para a vida desta ou daquela pessoa, não quero impor regra do que seria melhor de se fazer, o contrário disso: penso que não devemos jamais sucumbir ao que se espera que façamos ou ao que devemos fazer ou como devemos viver. Falo justamente sobre fazermos o que sentirmos realmente vontade, sobre viver o que realmente sentimos desejo de vivenciar. De evitarmos nos tolher, diminuir e cercear por convenções, imposições, regras sociais ou uma vida construída nesta ou naquela direção, por mais desestabilizador que seja optar por sermos nós de fato. De direito. E com urgência, afinal, mesmo que não tenhamos apenas esta vida, esta aqui é apenas esta mesmo, jamais se repetirá. O tempo não volta. As situações não se refazem, por isso, é assim mesmo: é agora ou nunca. Ainda que seja depois, jamais será agora, como seria a este tempo, neste momento. Mas, vejam só, o pior ainda anda à espreita: talvez jamais seja.

Quando eu chamo atenção para a possibilidade de restar apenas um dia não penso em catástrofes que destruiriam o mundo como na música que inspirou o título deste texto, penso em catástrofes pessoais: aquela pessoa para quem você queria dizer tanto, mas não disse, com quem você gostaria de viver tanta coisa, mas não viveu, por medo, por insegurança ou por sucumbir às pressões ou convenções sociais, jamais poderá ser vista por você novamente, jamais poderá lhe ouvir de novo ou lhe falar o que quer que seja, fosse para reagir mal a sua declaração ou para correr em sua direção com o sorriso e a recepção com que você estava sonhando. Um dia, uma noite, de um momento para o outro, a vida dela foi interrompida. Não haverá outros longos olhos nos olhos, outros sorrisos, outros sons de risadas atravessadas. Acabou. Terminou uma vida que você queria junto a sua. Uma vida que você amava sendo de outra pessoa. Finalizou qualquer chance de ser feliz como você havia sonhado ou como poderia ser especificamente com aquela pessoa – fosse da forma que fosse e pelo tempo que durasse. Acabou. E é sempre assim: a gente jamais espera ou conta com isso, afinal, ela está ali, linda, feliz, sorridente, leve, divertida, cheia de vida e é assim que contamos que continuará, pois é assim que a vemos, temos e carregamos todo o tempo por aí, sem nos dar conta do quanto pode nos ser arrancado bruscamente. E é assim: sem conspiração, sem o universo estar contra ou a favor da gente. O universo é apenas totalmente indiferente. E, então, caberá a nós aceitar que o erro foi nosso e encontrar forças para superar e jamais repetir o mesmo: a apatia, a covardia, a falta de coragem em viver e amar apesar de.

E tem mais: pode ser você. Dentro de casa, no chuveiro, na escada, no elevador, no carro, atravessando a rua, sem fazer qualquer movimento e mesmo dormindo. A gente pode morrer a qualquer hora, de qualquer forma. Fazendo nada, fazendo qualquer coisa. Sem motivo, sem aviso. E sei bem que nós sabemos disso, eu sei. A questão aqui passa longe do sabermos ou não, mas de internalizarmos e fazermos algo em relação a isso, o que em geral só ocorre quando temos uma experiência de quase-morte ou perdemos alguém muito próximo de maneira repentina. No entanto, a questão que quero fazer arranhar por dentro cada pessoa que ler este texto é o que se está deixando de viver por medo, por covardia, por nos perdermos em cálculos do quanto mudaríamos da vida atual e em previsões – impossíveis! – de como seria a vida futura. E do quanto perdemos com tudo isso quando nos deveríamos importar apenas com o que sentimos ao fazermos o que gostamos, vivendo o que nos dá prazer e com a paixão enlouquecida por quem nos tira do lugar e com o amor por quem nos faz sentir mais vivos.

Pensando em tudo isso, ao reler hoje Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispector, meus olhos paravam mais justamente nos trechos em que nos chama à urgência de vivermos o mais verdadeiramente e intensamente possível, dada a nossa existência ser única e uma só. E, assim, lá estava Lóri, com seu chamado me dizendo que “a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre”, dizendo que a “árvore forte é mais profundamente abalada que a árvore fraca” e me grita sobre o que sempre me correu e corrói por dentro: a voracidade de viver. E seu canto me entorpece ao me lembrar que há “um sentido secreto das coisas da vida” enquanto eu penso que meu desejo é justamente experimentar os segredos que se me apresentam sem necessariamente desvendá-los e, sobretudo, os que me dão prazer e enchem de alegria e vida.

Viver intensamente é por vezes se encontrar em uma montanha russa emocional que não pedimos nem previmos, mas acima de tudo, por Zeus e todo o Olimpo(!), é sentir a vida plenamente, tanto quanto se pode sentir. Eu estou com Guimarães Rosa, no Grande Sertão Veredas: “o que a vida quer da gente é coragem”. Coragem enorme em aceitar as surpresas totalmente estonteantes que ela joga assim sem o menor cuidado sobre nós e que revira tudo por dentro. Coragem de encará-la e segurá-la firmemente com toda a loucura que ela traz. Coragem de mudar o cotidiano, a vida futura, nossa história inteira. Coragem de mandar um texto, qualquer mensagem, fazer apenas um aceno ou uma ligação. Coragem para declarar afeto em um abraço. Coragem para o primeiro beijo. Coragem para aquele primeiro passo. Coragem para desistir de estar certo, para voltar atrás, fazer as pazes, passar por cima e deixar para trás o que não queremos aprender da pior forma: que ter razão ou insistir no rompimento teimoso era o que menos importava. O que importa mesmo é estar junto. É se entender, passando por cima de qualquer mágoa ou orgulho que ficam totalmente sem sentido diante da perda definitiva. O que importa mesmo é ter coragem para afeto pleno, aquele que acima de tudo é firme e resiliente. O afeto que sabe que vivenciá-lo é urgente.

E é isso: meu pacto maior é com a coragem e com a fome de vida. Eu quero mesmo é o quase insuportável de tão intenso, eu quero mesmo é a sensação de um infinito quase intolerável, eu quero é flertar com o impossível. Eu quero mesmo – e muito! – o que é a um só tempo selvagem e suave. E que venha com paixão, amor e dor, mas venha sempre. O que não suporto é a vida morna. O morno é vazio, é estagnante. O morno é morte lenta. Eu amo mesmo é o desassossego. Amo. A vida é um tédio quando estamos sossegados demais. Prefiro o desassossego ainda que ele me arranhe e eu me vire e revire pelo avesso.  O desassossego é o que me faz vivenciar a urgência em viver e ter noção exata do tempo que não temos para perder. É o desassossego que não me permite perder a noção de que a vida pode terminar a qualquer momento e que por isso precisamos mesmo é dela: da grande coragem de mergulhar em nossas próprias existências, enfrentando o medo do que for, o furacão que vier, mas não deixando de viver – por coisa alguma! – o que nos faz sentir de fato plena e intensamente vivos e felizes.

@ivonepita

Da responsabilidade do afeto

Certa vez, eu ainda na escola, uma pessoa disse que achava engraçado como eu dividia meus amigos sempre colocando uma locução adjetiva junto ao nome: da igreja, da escola, da rua. E mais interessante ainda era não colocar adjetivo algum, a pessoa mencionada era somente amiga. E aqui toda a diferença: não havia circunscrição, a pessoa era minha amiga mesmo, de fato, em todos os espaços, sem restrição. E também havia o termo colega, mas que parece ter caminhado para praticamente a ofensa. Dizer que alguém é apenas colega seu é como dizer que você e a outra pessoa apenas coabitam algum lugar por algumas horas e de forma obrigatória, como em um ambiente de trabalho. E aí vemos o amigo de trabalho. Só que há um problema aqui: algumas pessoas acabam creditando às palavras amiga ou amigo muito mais do que apenas um upgrade da palavra colega – mesmo quando ela está ali metida na locução.

É aqui que penso na responsabilidade do afeto. A gente não tem responsabilidade mesmo se a outra pessoa entende uma palavra no meio de uma locução como uma declaração de amor. No entanto, a gente é responsável pelo que diz e demonstra. E somos ainda mais responsáveis se insistimos em dizer o que nós não sabemos com absoluta certeza: se o afeto é legítimo, fixo, estável em nós. Somos responsáveis por afetar a outra pessoa. Isso mesmo: afetar, de afeto. Na psicologia, vemos afetividade ser tratada como suscetibilidade. Ficamos suscetíveis, somos afetados. Ou somos afetados e ficamos suscetíveis. Em latim é afficere, afectum, o que afeta, deixa marca, produz impressão, o que toca, que une, que fixa. É assim: o seu afeto atinge a outra pessoa, o afeto da outra pessoa mexe com você. Ninguém passa impune pelo afeto.

O afeto é isso: um laço criado, um estado de carinho, de ternura, de atenção, de cuidado. Talvez por isso eu sempre opte por usar a palavra afeto. Para mim sempre foi tão importante a precisão das palavras. Sim, gosto de metáforas, mas elas também devem ser precisas ou ficam sem sentido. Precisão. Do que precisa ser exato,mas  também do que é necessário. O afeto produz necessidade. Necessidade de troca, de atenção, de carinho. O afeto pode nos levar a uma resiliência que desconhecíamos em nós. O afeto pode nos fazer ultrapassar o orgulho. Ele pode nos fazer mais disponíveis e dispostos. Meu olhar sobre a outra pessoa é afetado, afinal. Para ela eu olho com ternura, tentando compreender o lugar que ocupa no mundo, a sua psique, e por isso como compreende a vida, os seres humanos, como reage nas interações com coisas e pessoas. O afeto me empurra para além do que costumo doar aos demais indivíduos. O objeto do meu afeto sempre contará com mais benevolência, mais paciência, mais compreensão e diálogo.

Se você declara afeto, você pode estar declarando tudo isso aí acima à pessoa-alvo de sua declaração – ainda mais se for insistente. A outra pessoa pode ficar segura de que há confiança, espaço para intimidade compartilhada. E se sentir confortável para derrubar os muros de proteção. Que se pode permitir a entrada em espaços bem protegidos de si mesmo.  Por isso você precisa ser responsável. Pense: talvez esta pessoa a quem você pretenda declarar afeto seja apenas uma companhia bacana, agradável, leve e divertida com quem você gosta de passear e rir junto. Pense de novo: você é capaz de suportar esta pessoa quando ela não estiver bem, quando ela estiver com problemas, com o humor e o ânimo alterados? Você é capaz de não somente compreendê-la, acolhê-la nesse momento em vez de expulsá-la de sua vida? Você é capaz de por o que sente por ela acima de desentendimentos de um período turbulento, lembrando-se de quem ela é de fato, a pessoa que você conheceu e conhece, e que está apenas transtornada? Pense e se decida. O afeto é resiliente, é tranquilo, sabe dialogar, mas também sabe ficar quieto e esperar. O afeto só não sabe o que é corte fundo e bruto, rompimento brusco e silenciador, caçador da palavra do outro. O afeto permite. Dá espaço, tempo. O afeto (se) renova.

Afetividade é o que liga as pessoas.  Ter afeto é ter apego. Estar apegado a alguém. Sejamos responsáveis ao declararmos afeto. Eu sou. Algumas pessoas ficam ressentidas comigo por eu não trazê-las logo a minha casa, não mostrar minhas coisas, não permitir que elas adentrem minha intimidade, que não divida com elas minhas dores, minhas memórias, meus planos. Queria que elas entendessem que é questão de afeto, mas também de tempo e abordagem. É questão de me sentir mais próxima, acolhida com segurança. É questão de conquistar com paciência e cuidado a minha confiança. É questão de eu ficar absolutamente certa do afeto da outra pessoa por mim, pois essas são minhas barreiras últimas que só permito a algumas poucas pessoas a ultrapassagem. Quando ultrapassam, viro toda afetividade, sou ofendida, agredida e desrespeitada algumas vezes e resisto, converso, reaproximo. Quando ultrapassam, percebo quando a outra pessoa não está bem, observo, tento compreender , se compreendo, espero o tempo de abordagem, de conversa e acolhimento, mesmo sabendo que posso não ter o mesmo quando eu precisar. Sim, eu me dou toda, sem reservas, ao afeto, com cuidado, muito cuidado, e ainda assim, sabendo sempre que posso me machucar, ser profundamente magoada e ficar partida em mil pedaços.  Como agora.

@ivonepita

Renovar. Recomeçar. Refazer.

Quando eu era religiosa, católica de carteirinha, uniforme completo e chuteiras, a cada Páscoa a ressurreição tinha um significado muito especial e estava longe de ficar circunscrita à ressurreição de Cristo. Páscoa significava um momento de reflexão, de renovação, a mim era ensinado que era um momento de parar, pensar e recomeçar o que fosse necessário. Era um momento de renovação. E só o Deus no qual eu acreditava por todos aqueles anos seria capaz de enxergar o quanto eu precisava crer nisso e por em prática com todas as minhas forças para atravessar o tanto de dificuldade que me era imposta para me vestir, para comer, para continuar os estudos, para continuar sonhando, mantendo intacta minha capacidade de me alegrar, de seguir em frente. De afeto. Ali a Páscoa adquiria o sentido de morte e ressurreição. Deixar para trás, se livrar de tudo que pesa, que machuca, que magoa, que impede de seguir adiante. Renovar-se. Fazer ressurgir. A esperança, a certeza no poder de restauro da própria vida. Em nossa natureza restaurativa. Aqui podem ressurgir sonhos, planos, esperanças, desejo de vida. E tantas vezes eu precisei de renovação. Tantas vezes eu precisei restaurar a mim mesma, minha força, minha firmeza diante das dificuldades, minha resistência frente a tanta carência material. Tantas vezes eu precisei renovar minha determinação em acreditar que eu poderia fazer tudo mudar, que eu poderia alterar minha trajetória, mudando minha existência para algo maior e melhor.

Gratidão intransitiva é o que sinto hoje. Sensação de gratidão por tudo que consegui superar, tudo que eu soube enfrentar, toda ajuda que tive – pois, sim, mesmo quando não sabemos, não percebemos, sempre temos ajuda e não falo de nada metafísico, místico, espiritual. Sinto gratidão por cada pessoa sensível e amorosa que atravessou meu caminho, que cruzou apenas minha vida e nela deixou sua marca ou que ainda aqui permanece colaborando com a minha construção diária, me ajudando a ser um ser humano melhor, mais empático. E se você crê que Cristo morreu e ressuscitou por você, então, acredito que nada seria mais coerente com isso e nada corresponderia melhor a essa fé do que renovar a si mesmo, o amor pela vida, a esperança, os sonhos, os planos, os afetos.

Renovar. Recomeçar. Refazer. Restaurar. Você pode chamar como quiser, o importante é que você não se perca de si mesmo, que não perca a noção do privilégio, do espetáculo único que é a vida, o fato de ter nascido e de estar vivo até agora, sendo uma partícula tão micro diante de tantas e tantas múltiplas existências nesse universo e das possibilidades de vida que nunca aconteceram, não irão acontecer ou já se romperam. Ressurreição para os cristãos. Liberdade para os hebreus. Renascimento para os pagãos. Acredite no que for melhor para você. O que importa é o ritual de passagem, de ressurgir, de se libertar, de renascer. O que importa é a renovação. Sim, renovar-se não é fácil. Mas quem disse que a trajetória seria melhor ou mais rica se não tivéssemos que nos exercitar em malabarismos entre os obstáculos? O movimento é justo o que nos torna mais sábios, mais fortes, mais resilientes, mais capazes de manter e fortalecer laços de afeto apesar dos percalços e dificuldades.

E não, eu não acredito em pecado, em milagre, em benção ou em um deus onipotente, onipresente e onisciente. Não acredito em lei do retorno em um sentido místico ou metafísico. Eu acredito no amor, no afeto, no respeito incondicional a outros seres humanos. Acredito em postura ética, em empatia, em consideração na mesma medida em que eu gostaria de ser respeitada.

Renovação. Coisas que deixamos para trás ou precisamos mesmo arremessar ao longe. Coisas preciosas que precisamos resgatar e cuidar melhor. Coisas especiais das quais precisamos cuidar com mais dedicação. Que saibamos passar por qualquer processo de mudança, da melhor forma possível.  Seja no amor, no afeto, na vida que exige decisões diárias. Por outro lado, possamos alcançar a aceitação plena. Que não haja nada em nós que precisemos matar. Que seja superado e deixado pra trás. Sem ódio, sem mágoa, sem rancor. Não vale a pena mesmo guardar e cultivar essas coisas. Que tenhamos toda certeza de que tudo que nos aconteceu, tudo que fizemos ou deixamos de fazer, tudo que conseguimos ou não, tudo de que demos conta ou não, tudo que conquistamos ou não, tudo que fizemos ou não de nós mesmos e da nossa vida precisamos entender que foi o que era possível naquele determinado momento e para aquelas pessoas que éramos naquele tempo. Que isso seja para além de entendido, que seja internalizado de forma tão tranquila, tão como parte nossa que seja essa a melhor Páscoa de toda a nossa vida e que seja melhor a cada ano.

Isso é o que desejo a cada pessoa: renascimento, renovação, passagem. Desejo vida. Vida plena, com tudo o que ela tem de melhor! Amém.

@ivonepita

Do lado de cá

O que nos faz cruzar a linha para a amizade de fato?
Aquela tão sólida que pode levar umas boas marretadas sem que se desfaça.
Aquela com a qual podemos contar para reconstruir boa parte de nós mesmos
quando caímos aos pedaços.

Será a liberdade dos desaforos ditos na cara?
A franqueza escancarada a qualquer custo?
O respeito radical à individualidade?
A sinceridade absoluta em qualquer aproximação?
O grito saído de qualquer jeito – mas ainda assim com afeto – no meio do desentendimento?

O que nos faz chegar ao terreno seguro do amor mais legítimo?
Aquele local de conforto e abrigo, em que dizer o que se deve ou precisa ser dito
não é uma temeridade e onde a leveza é presença sempre confirmada.

Em que momento uma pessoa deixa de ser apenas mais uma?

Quando o vocativo que seria agressivo traduz somente afeto?
Quando se notam os tratamentos carinhosos usados somente após um tanto de proximidade?
Quando o abraço deixa de ser apenas entre ombros, passando a ser de corpo inteiro – colado – sem pudores neurotizados?

Qual passo nos faz cruzar a linha da certeza do afeto?
Este sentimento delicado que atravessa amizades, paixões e amores.

Quando há cuidados desde uns fios de cabelo fora do lugar até o estado de ânimo e de saúde?
Quando passamos a nos sentir seguros e confortáveis a ponto de desnudar segredos, vícios e erros?
Quando começamos a nos ver transparentes, enxergando através das fachadas e máscaras que usamos para manter a segurança?
Quando passamos a poder brincar com o que quisermos e do jeito que quisermos
sem que haja desconfiança de um subtexto, algo não dito ou camuflado?

Quando é que passamos a tocar e a nos deixar tocar sem receio?
Quando se fica absolutamente à vontade para falar sem tato?

Onde, senão no terreno do afeto,
ter a certeza de que não há mais susto ou abalo,
que desgaste o sentimento instaurado?

@ivonepita

Saudades: a do dicionário e a minha

Foi dicionarizado,
saudade é sentimento de pesar
por algo ou alguém distante, ausente.

Mas em mim pesar algum:
não sinto mágoa, tristeza ou dor ao lembrar,
sou – por esta definição – uma pessoa sem saudades.

Se tenho memória de risos, falas, ideias, abraços,
nada disso me dói nem corrói,
está tudo ali: sendo deliciosamente revivido,
sem dor.

Deixar você é guardar algo único.
Como algo tão bom poderia doer?
Eu me alimento da sua presença dentro de mim.

Minha saudade é lembrar do gosto de estar junto,
é saber que estar com você é uma grande alegria
e desejar que ela seja sempre revivida.

@ivonepita

O substrato do que é.

O rosto diz uma coisa, a fala outra. Diz que vai e fica. Prometo ficar e me vou. Há desejo em nossos olhos e corpos, mas nos contemos em gestos de leve doçura. Disfarçamos, dissimulamos, contradizemos. E se pomos a emoção em palavras sobre a mesa, com gestos intensos a força lhe ampliamos ou negamos. Sim, sabemos bem dramatizar. E ironizar, debochar, atacar, agredir, desprezar, dissimular, confundir – e a tudo desfazer.

Palavra uma, gesto outro. Gesto amplo, gesto miúdo, gesto forte e escancarado, gesto sutil. Em nossas caras. Em nossos corpos. Tudo revelado, tudo negado, tudo atravessado, tudo dito e desdito – a confundir.

Todo gesto a desnudar. Toda palavra a esconder. O verbo entrega o desejo. O corpo se pune em contenção. O movimento insinua o toque, a palavra nega a vontade. O som revela o sentido, o gesto nega a entrega. Seguimos nos contradizendo. Seguimos com medo. Seguimos em nossas prisões.

Em nossas falas e ações entrecortadas, a relação de força entre o dito e o silenciado. Palavra e gesto ora se contradizem ora se confirmam. Negam-se e complementam-se. Digladiam-se.

E na ponte invisível e concreta entre complementares e opostos desfila o substrato do que é, do que está, do que pulsa sob todas as máscaras, roupas e peles. Sob todos os disfarces e todos os desejos.

@ivonepita

Por que insisto em bons dias

 
 
Te desejo bom dia desejando que ele seja de fato bom.
Bom dia para que você saiba do meu desejo.
Bom dia porque é como te dizer um oi.
Bom dia porque estou pensando em você.
Bom dia para que você sinta um carinho bom.
Bom dia com desejo de te fazer um pouco mais feliz.
Bom dia porque é como te dar um beijo.
Bom dia porque talvez com isso você disfarce ou abra um sorriso.
E talvez seja até um daqueles sorrisos desmedidos que eu adoro.
 
 
Bom dia!
 
 
@ivonepita

Borboletas no estômago e macaquinhos na cabeça

Eu nunca acho que tenha dado errado,
paixão é paixão.
Então, todas sempre dão certo.
Pode ser duro quando não é correspondida
ou há complicadores em vivenciá-la,
mas e o sonho? as projeções? as trocas? o tesão?
e o bicho arranhando por dentro?
Pronto, só isso já vale:
é dose forte e pura de vida intensa na veia!
Se a outra pessoa irá corresponder é detalhe,
ser correspondido é só um extra, um plus, um adicional.

Ah… as borboletas no estômago!
Apenas se apaixone…
o brilho,
os sentidos apurados,
o olhar aguçado,
a pele sensível,
os pelos que arrepiam,
aquelas ondas de felicidade absurda que circulam pelo corpo!
Aquela alegria que chega a doer, que dá agonia,
que parece que não vai caber…

Vá caminhar ou correr pela cidade,
será de qualquer forma um movimento saltitante,
porque afinal tudo te salta: o coração, o ânimo,
a vontade de viver, de fazer, de amar, de ser feliz!

Os macaquinhos na cabeça…
E daí se a outra pessoa não sabe de sua paixão
e daí se ela sabe e não corresponde?
Permaneça você nesse estado a um só tempo sagrado e profano de pulsão!
Pulsão de sonho, de desejo, de intensidade, de vida!

E daí que talvez a paixão jamais se concretize sexualmente?
Precisa? Às vezes a gente só quer ficar perto, olhar, ouvir,
tocar de alguma forma, rir junto, fazer sorrir.
E daí que pode nunca vir a ser amor duradouro de conto de fadas?
Quem conta ainda com conto de fadas, afinal?
Aproveite para viver por você, sentir por você, ser feliz por você e com você,
enquanto olha aquela criatura maravilhosa, linda e perfeita, motivadora de tudo isso,
que revira e reverbera dentro de você
e que, da forma como você a pensa, adora e carrega todo o tempo,
é só sua.

E vai que sua paixão é correspondida…
talvez em intensidade diferente, talvez não…
Para que saber
se uma das sustentações da paixão é justamente ser sem medida?

Apenas apaixone-se.
Com borboletas no estômago e macaquinhos na cabeça.
Sem medo.
Apaixone-se!

@ivonepita

O foda-se como afeto

– Você não precisa me buscar sempre em casa.
– Por que não?
– Eu não quero, eu fico desconfortável.
– Foda-se, eu que não vou ficar esperando horas até você conseguir um táxi!

– Você não tem que me trazer em casa toda vez que saímos.
– Por que não?
– Porque não, ora, eu pego um táxi!
– Foda-se, é mais um tempo que conversamos. Vou te trazer todas as vezes!

– Não, eu não quero que você me dê isso de presente!
– Mas você não está precisando?
– Sim, mas tenho essa aqui que ainda uso.
– Essa coisa velha, pequena e gasta?
– É, mas tenho conseguido resolver com ela, então, não precisa…
– Foda-se! eu vou te dar de presente porque eu quero!

– Eu lhe devo desculpas. Me desculpe mesmo.
– Pelo que você está me pedindo desculpas?
– Você me chateou, mas eu reagi muito mal e deixei você desconfortável.
– Ah, foda-se, era o que você estava sentindo na hora. Passou.

– Se não dá para nos vermos esta semana, fica para a próxima.
– Eu mudei minha agenda, a gente pode se ver amanhã!
– Mas você não tinha que chegar um dia antes, com calma?
– Foda-se! Eu que não vou ficar sem minha terapia semanal!

– Está chovendo, nosso programa furou.
– Como furou? por causa de uma chuva?!
– Mas, mas… carioca, chuva é igual a ficar em casa.
– Deixar de nos vermos por uma chuvinha de merda? Nem pensar! Foda-se, passo aí pra te pegar!

E me pegou,
de foda-se em foda-se,
em admiração e afeto.

@ivonepita

O tempo da pessoa passa

o tempo da pessoa passa
não, não é a qualquer momento que você pode dizer que sente saudade
que gosta
que queria ver ou ter visto
que seria muito bom sair junto, se divertir ou dar um abraço
a verdade é essa: o tempo das pessoas, assim como o seu, passa.
O tempo passa para você, que se desapega, que cria novos interesses, novos laços
que hoje quer uma coisa amanhã quer outra
que hoje pode desejar um corpo e amanhã outro
que hoje pode se apaixonar por uma pessoa e amanhã por outra

então saiba que o tempo de sua pessoa-alvo também passa
e, pior, talvez passe mais rapidamente que o seu
é por isso que eu sou uma dessas pessoas verborrágicas e sem vergonha na cara:
se gosto me declaro
sinto saudade, digo e ainda agarro
meto um beijo e um abraço apertado
abro os braços no meio da rua, sem receio
e com um sorriso de travar o maxilar
dou risada só de olhar para a pessoa de quem eu gosto
e eu falo, falo mesmo: gosto de você, estou com saudade, seus olhos são lindos,
você me faz bem,
me encanta o seu sorriso
e como é bom te ver sorrindo!
E não, não falo somente de alvos do meu desejo sexual,
ou das minhas projeções de amor, mas de alvos, qualquer alvo
alvos do meu gosto, do meu querer, da minha amizade gratuita, do meu afeto sem explicação

mas o meu tempo passa
o tempo das pessoas todas passa
então, seja para o bem ou para o mal, para ganhar ou perder
diga logo o que sente, diga logo como se sente
se vão correr de você ou na sua direção, adivinhe!
só o tempo dirá
o insuportável mesmo é o não-dizer, é o querer em suspensão
por isso,
por tudo,
por tanto,
diga logo, diga sempre
afinal:
o tempo da pessoa passa.

@ivonepita