Minha buceta grita xavasca.

A gente sabe, tanto se fala e falou sobre isso: bucetas do mundo inteiro são reprimidas, umas mais, outra menos, mas todas sofrem toda sorte de silenciamento, invisibilidade e opressão. Não se pode falar, não se pode ver, não se pode empoderar estas bucetas. Todas devem ser bem comportadas, bem cobertas, bem dispostas a parir não a trepar, a fazer a amor, não a devorar. E bucetas, gente, bucetas devem ter boas medidas: os lábios devem ser assim e assado, o clitóris no lugar, sem se expor. Assim como devem ser suas donas – donas? – devem ser delicadas as bucetas. Imagina aquela buceta exposta, agressiva, com lábios e clitóris avantajados. Para que isso, afinal? Fica feio, praticamente uma afronta. Deve ser desse tipo de buceta que é muito usada. Fica gasta, caída, né? Ou é doença. Ou um tipo de monstruosidade qualquer. Deve ser. Não é possível alguém achar bonita uma buceta exposta. Uma buceta avantajada. Não, não, todas devem ter medidas pequenas, delicadas.

E assim os fiscais de buceta alheia seguem definindo como devem ser as bucetas que carregamos entre as pernas. Assim os fiscais de buceta alheia tem a pachorra de dizer como deve ser o tamanho, o formato e o comportamento de nossas bucetas. Ora, ora, tenho a dizer que “não, obrigada”, “não, não sou obrigada”. Minha buceta é minha e só minha. As formas da minha buceta dizem respeito somente a mim a quem gostar dela, desejá-la, pegá-la com vontade e encher a boca com ela. Então, peguem suas métricas, suas réplicas e tréplicas e devorem-se a si mesmos com elas. Meçam a si mesmos, principalmente, e, por favor, as merdas que fazem, que dizem, que reproduzem, que nos inventam. As escolhas que fazem, as reproduções esdrúxulas que passam adiante. Não adianta dizer que não tem a pretensão de determinar como devem ser nossas medidas e aparências se faz e repassa piadinhas que pretendem ridicularizar estas ou aquelas formas.

Eu realmente não entendo essa necessidade de expor ridicularizando seja lá o que for. Talvez a Maldita Trindade, Freud, Yung e Lacan, consigam. Eu não tenho esta pretensão. Não sei o que se passa na cabeça de alguém, ou que tipo de índole e ânimo tem alguém que se presta a ridicularizar corpos, partes de corpos, modos e comportamentos. Se não gosto, não olho. Se não me agrada, não convivo. Se não me apetece, não como. Simples assim. Daí a determinar o que é belo, o que é feio, o que é ou não desejável, como se todos tivéssemos o mesmo padrão de apreciação, de desejo, de querer, é outra coisa. É tão diferente. E daí a fazer publicações que ridicularizem o que foge a determinado padrão criado por mecanismos que silenciam, excluem e oprimem, vai um abismo. Um abismo de caráter, de humanidade, de empatia.

É essa imposição doida de como deve ser isso e aquilo, até as bucetas, que faz com que muitas mulheres sintam vergonha de ir à praia e perceberem certo volume sob suas roupas. É o que faz muitas delas se arriscarem em cirurgias em busca do que seriam lábios vaginais perfeitos. É o que faz com que muitas não consigam ter uma vida sexual mais livre, mais segura, mais prazerosa. É por isso que me recuso a infantilizar e dessexualizar minha buceta a chamando de pepeca. É por isso que imagino xavasca como uma buceta devoradora. Poderosa. É por isso que minha buceta grita xavasca. E é por isso que minha buceta grita por xavascas, por amá-las e devorá-las: bucetas e xavascas.

@ivonepita

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10 comentários

  1. Senti firmeza na sua maneira de falar. É bom ser assim. É bom ter certeza de si mesmo na vida.
    Ótimo post.
    Abraços

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  2. Adoro esse jeito irreverente, essa forma meio doida e consciente de extravasar os gritos presos de algo tão cheio de tabus e repressões.Parabéns Ivone!

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