Algo de podre.

Parece que em todo lugar que olhamos aquele bicho que a tudo corrói de forma voraz, insaciável e inescrupulosa está lá: o corrupto. E, praga das pragas, parece se multiplicar sem controle. A podridão corre solta, todos veem: nas câmaras municipais e estaduais, no congresso, em empresas, em negócios de família e até em relações das quais nem desconfiávamos ou em instituições em que deveria ser impensável. É muito difícil não nos desgastarmos a ponto de fugirmos, deixarmos para lá. No entanto, por mais que possa soar estranho aos ouvidos, parecer incomum aos olhos e inacreditável para nossa abalada confiança, há quem faça política, institucionalizada ou não, de outra forma.

Mas esconder, escamotear, desvirtuar as questões importantes e que realmente afetam nossas vidas é tarefa primordial para quem quer se manter no poder, ainda que tenham que mentir ou distorcer fatos, evidências e até mesmo leis. Vejamos, por exemplo, a questão do voto nulo e do voto branco. Desde 1997, votos nulos e brancos não são considerados nas eleições, pois não são votos válidos e, no entanto, há inúmeras e insistentes propagandas, inclusive com grande suporte de marketing, que insistem em divulgar que voto nulo consegue cancelar uma eleição, algo presente no código eleitoral de 1965, como se não tivessem ocorrido alterações posteriores. Pelo forte aparato com que contam tais propagandas enganosas, como sites, blogs e propagandas persuasivas, pode-se notar uma evidente estratégia de afastar os eleitores do poder que tem de destituir os corruptos de seus cargos. Afastando os cidadãos do exercício do voto, quem está no poder, por ter sido eleito por um contingente de eleitores, sabe que pode contar com o mesmo contingente e se perpetuar no poder. E as pessoas que acompanham os casos de corrupção, os escândalos de sonegação, de desvio de verbas, a não aprovação de projetos importantes e a aprovação acelerada de projetos que beneficiam grupos no poder, acabam por acreditar, então, que o melhor caminho é a anulação do pleito, sem saber que estão sendo bárbara e deliberadamente enganadas. E isso é tudo que os donos do poder querem: que os que poderiam fazer diferença votem nulo.

Votar nulo ou em branco é ficar de fora do processo de eleição e deixar que outros votem e decidam por nós. E podemos ter certeza absoluta que muita gente, muita gente mesmo, comemoraria se LGBTs, feministas, negros, índios e outros tantos grupos marginalizados apenas não votassem, pois não votar não provoca qualquer mudança. Dizer apenas que não concorda com coisa alguma, que é tudo sujeira e não se envolver não votando, não faz diferença, pois as instituições de poder não desaparecem somente por isso, o sistema não muda – nada é alterado pelo voto nulo. A única coisa que pode alterar o quadro que se apresenta somos nós. E nosso maior poder contra a corrupção institucionalizada – no momento – é o voto. Portanto, sem qualquer exagero: uma das maneiras de mudar o país é votando. Muitas mudanças podem vir através do voto, retirando do poder os políticos corruptos e conservadores tacanhos que não deixam o país avançar em várias direções. Uma profunda mudança é possível com a eleição dos nossos representantes, não somente LGBTs e feministas, mas representantes de outros grupos sociais marginalizados, discriminados e lesados historicamente. Isso poderia mudar este país de um jeito que ainda estamos por ver. E isso, sim, depende não do voto nulo, mas somente de nós eleitores, do nosso voto.

Precisamos mudar quem está na política institucionalizada, quem a faz. E podemos fazer isso através do voto, afinal, foi através dele que estas pessoas foram e são eleitas e é através dele que outras pessoas melhores podem ser postas no lugar delas – basta vermos a atuação de Jean Wyllys no Congresso Nacional, por exemplo. Jean é um grande exemplo de como a política pode ser feita de forma diferente da que estávamos acostumados a ver. É possível haver compromisso, responsabilidade, coragem e lisura. E é assim: através do voto que elegemos quem faz as leis contra ou a nosso favor. Outros grupos estiveram e estão organizados para votar em seus representantes, que defendam os seus interesses. Por tudo isso, em vez de anularmos nosso voto, devemos nós também estarmos organizados e votar em candidatos que tenham provado estar do nosso lado, que estejam realmente comprometidos com as lutas que são nossas, nas quais acreditamos. E se eles não forem eleitos, ao menos teremos tentado. Lutar jamais é fracassar, mas não tentar é fracasso antecipado. Não devemos pensar que com nosso voto somos apenas uma pessoa lutando, há sempre muita gente que pensa como nós, basta nos descobrirmos, nos encontrarmos e nos organizarmos. Precisamos sempre nos lembrar que “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, mas se juntar o bicho corre”!

@ivonepita

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