Eu te represento, tu me representas

10384356_819295481415378_7048982434445787282_nRepresentar. O que significa exatamente representar alguém ou ser ter nossa representação nas mãos de outra pessoa? Representar vem do latim representare, colocar à frente. E vemos que é isso mesmo: quando temos, por exemplo, alguém que representa nossos interesses, esta pessoa traz à baila assuntos que talvez antes estivessem sendo tratados de forma secundária ou nem sequer tratados. O representante, no entanto, coloca as questões que representa em primeiro plano, as coloca à frente. Bom exemplo disso é a atuação do deputado federal Jean Wyllys no Congresso. Quando tivemos alguém que insistisse tanto nas questões relativas às pessoas LGBT? Quando tivemos um representante político que levasse ao Congresso Nacional projetos de lei para que estejamos em igualdade de direitos com os demais cidadãos? Quando foi possível contar com uma voz ativa na maior casa legislativa do país expondo nossas aflições, nossos problemas e nossas reivindicações? Jamais. E isso se deve justamente à falta de representatividade da qual sofríamos antes. E, por isso mesmo, é importantíssimo falarmos sobre isso e mostrarmos a maior quantidade possível de pessoas o quanto os vários segmentos sociais estarem bem representados na política institucional é importante.

Representatividade, afinal, é isso mesmo: é estarmos presentes, é termos voz. Fazer a representação de todo um segmento é falar e agir em acordo com as tantas vozes que se quer representar, é carregar adiante as bandeiras de luta de todo um grupo social. Representar outra pessoa, ou grupo de pessoas, é receber uma delegação de autoridade para lutar por questões específicas, em nome de outrem. É tornar presente quem não pode estar em determinado espaço, lhe dar voz, lhe garantir a vez. É ser um símbolo da própria luta de todo um grupo social. Ser representante é ser mandatário, é ser procurador dos anseios e necessidades alheias. Ser representante não é ser pouco. É estar lá, à frente, suprindo a ausência de outras tantas pessoas, é se apresentar no lugar delas – por elas. É lhes manifestar a própria vontade. O que, naturalmente, faz com que seja necessário um forte vínculo entre quem representa e quem é representado, pois somente assim a representatividade é satisfatória e tem sua legitimidade reconhecida. E, por isso mesmo, é imprescindível atentarmos a quem designamos como nossos representantes. A grande questão é entendermos, é sabermos – e com certeza – se esta ou aquela pessoa pode e irá de fato falar por nós, agir em nosso lugar, lutar realmente pelas questões que nos são primordiais. E, naturalmente, com lisura, com honestidade e firmeza.

Nossos representantes estão em muitos lugares: em escolas, associações diversas, movimentos sociais, nas ruas, nos sindicatos, em igrejas, em atuações isoladas ou em grupo, lutando sem cessar por um mundo em que sejamos vistos, reconhecidos e respeitados. Disso não devemos duvidar, afinal, os vemos todos os dias em suas lutas tão árduas. Mas e na política institucional, onde se fazem as leis e onde são executadas? Onde estão nossos representantes? Como mudaremos as legislações federal, estaduais e municipais que estejam em acordo com a justiça e a igualdade para todo cidadão brasileiro se não temos nossos representantes nessas instâncias? Se nossas vozes e atuações são importantíssimas fora da política institucional, são também fundamentais na política institucionalizada. E não sendo excludentes, mas o contrário, complementares, por que não elegermos nossos representantes a cargos eletivos? Por que não ampliarmos a voz e a força de nosso único representante no Congresso Nacional? E ainda multiplicamos nossa representatividade em câmaras estaduais e municipais? Não faz sentido algum, pois é urgente que nossa voz seja ampliada e fortalecida. É imprescindível representarmos a nós mesmos, com nossas necessidades e anseios. Somente assim conseguiremos uma inclusão social satisfatória, o reconhecimento de nossos direitos e mecanismos que nos protejam da violência homotransfóbica – seja física ou simbólica.

E que cada grupo social aprenda a importância de eleger seus próprios representantes. Isso é democracia. Este é o embate natural entre os diversos segmentos sociais com seus interesses representados e em disputa de espaço. Saibamos disputar o nosso. Mas saibamos também, e antes, que conceder a alguém a nossa representatividade é autorizar que esta pessoa tome decisões em nosso lugar, numa instância que não chegamos pessoalmente, mas somente por quem nos representa. E daí a importância imensa da escolha correta. Da escolha de quem realmente esteja na luta diária, pondo sua voz e sua imagem a serviço das causas de nosso grupo. Daí a importância de sermos protagonistas de nossa própria luta, das questões que conhecemos como ninguém e que dizem respeito e atingem nossas vidas como nenhuma outra. E, afinal, se a história é nossa, por que não sermos nós mesmos os seus fazedores como protagonistas dela? Por que razão nós mesmos não nos representarmos?

Estamos em um daqueles grandes momentos históricos em que tiramos todo um grupo da margem social e trazemos para o centro. Luto para que todos saibam que podem fazer parte deste momento ou perderão a grande chance de tomar parte dele. Muitos dizem que gostariam de ter lutado contra a ditadura, pela abolição, pela república, pelo voto feminino e outros tantos acontecimentos, mas, ora, estamos agora mesmo travando uma luta enorme! Vamos, portanto, lutar e fazer história que o momento é agora!

@ivonepita

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3 comentários

  1. Muito bons seus textos. A Sociedade está ainda engatinhando nessa questão da representatividade, mas já é um começo. Com pessoas atuantes como Jean Wyllys, Freixo e você, a semente da reflexão, dos questionamentos são lançadas. Obrigada, grande abraço.

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