Um dia homofóbica, no outro, sapatão.

Como vocês podem imaginar não foi tão rápido ou fácil assim, de um dia para o outro, mas fato é que sempre fui homofóbica. Até chegar à faculdade, atravessá-la até a metade. Depois passei a aceitar (aceitar, vejam só! Como se fosse da alçada dos homofóbicos nos aceitarem ou não!) os homossexuais homens. Aquelas velhas barbaridades que conhecemos bem: homem, mesmo que seja um sexo nojento com outro homem, ao menos faz sexo de verdade, tem coisas sendo introduzidas. Depois não pensamos mais se é nojento ou não e se descobre que nojento mesmo é o sexo entre mulheres: imagine só, chupar uma buceta! Como uma mulher pode pensar em chupar uma buceta?! E ter prazer com isso?! Ah, não, nojento demais! E é assim mesmo: lá vamos nós nos colocando no lugar de mulheres que fazem isso, sem nos dar conta do talvez estejamos fazendo. E sentimos nojo. Após um tempo, num estágio mais próximo de nos entendermos lésbicas, o nojo some, mas consideramos bem curioso que uma mulher realmente sinta mais prazer com outra do que com um homem e que seja possível um sexo estupendo sem que seja baseado no prazer pelo falo.

Um dia, no entanto, assim, sem mais nem menos, acontece a grande revelação de nós para nós mesmas. Cai reto e pesado em nossas cabeças o grande terror que talvez pressentíssemos (ou não!) ali: nós também somos gays. Somos homossexuais. Eu era lésbica! O horror! O horror! Nós gostamos mesmo, mais do que qualquer outro sexo antes experimentado, é de trepar com mulher. Nenhum sexo anterior, com nenhum homem, ainda que tenha sido bom ou maravilhoso até, nos levou ao nirvana que tocamos ao gozar e fazer gozar outra mulher. E nós mulheres que amam, são amadas, devoram e são devoradas por mulheres compartilhamos desse grande momento de epifania em nossas vidas: ter o amor de uma mulher. Amar e ser amada por uma mulher. Trepar com mulheres. Desejar mulheres. Ser amada e desejada por elas. Parece um grande mistério que eu precisava encontrar e desvendar ainda nessa vida. É mesmo como uma grande irmandade conhecedora de um grande segredo apenas a nós revelado, uma epifania coletiva: a relação sexual e amorosa entre mulheres.

Mas e nossa homofobia internalizada de cada dia? Aquela que nos ensinou durante toda a vida que pessoas do mesmo sexo transando é nojento, um amor seco, sem procriação, sem um bem determinado e suposto encaixe anatômico que deveria ocorrer. A homofobia que nos ensinou por toda uma vida que homossexuais são minoria por terem um desvio psicológico ou um vício de comportamento. Até que tudo vai se esvaindo. E não, não se esvai de uma hora para a outra. Dependendo do nível de homofobia que foi internalizada durante toda uma vida, pode levar anos, décadas, quase até uma vida inteira. Para mim, demorou. Lembro que eu saía para dançar com minha primeira namorada e achava a coisa mais esquisita ver aquelas mulheres beijando outras e aqueles homens beijando outros, enquanto eu e minha namorada nos beijávamos o mais que podíamos. É, estranhávamos. Nós duas mulheres se beijando, estranhando outras que se beijavam.

Estranhamento. O mundo, a nossa vida inteira, nos ensinou que aquela visão não era normal, era esquisita e, como nós nunca víamos mesmo homossexuais se beijando, era algo incomum, estranho aos nossos olhos. E por isso mesmo hoje sei como é importante nossa visibilidade. Se não por nós, por quem vem depois, ou para quem está chegando. Para que seus olhos não estranhem o que virem e, assim, não estranhem outras pessoas nem a si mesmos. Lembro a propósito, de ficar em frente a um espelho como a minha namorada e a gente se olhando para entender aquela imagem, sim, éramos nós, lindas, se amando. Lembro muito vivamente da primeira vez que trepamos, da primeira vez que a fiz gozar. Da primeira vez que estava nua na cama ao lado dela e pensei: estou nua ao lado de outra mulher nua! E, vejam só, havíamos acabado de trepar uma noite inteirinha, non stop.

É, o tempo. O tempo de adentrar um novo território, ir sendo feliz e tendo prazer. Isso vai desfazendo a homofobia internalizada que nos faz estranhar a nós mesmos e a nossos pares. E, com certeza, e de forma muito forte e decisiva, as redes de apoio mútuo, diálogo e compreensão que vamos construindo. E talvez por isso eu sempre exercite e chame atenção para a necessidade de entendimento, de resiliência, de disposição em conversar, explicar, escrever. É lendo, conversando, compartilhando informações e nos apoiando, que vamos vencendo os monstros e fantasmas horrendos de rejeição que nos foram impostos e postos dentro de nós. É somente contando com nossos pares e com a coragem de vivenciarmos efetivamente o que nos dá prazer e alegria de fato – sermos nós mesmos – que vamos ficando cada vez mais livres, plenos e seguros em uma vida mais completa, intensa e feliz. É somente contando com nós mesmos e encontrando quem nos ame e acompanhe que abandonamos o personagem homofóbico que assumimos. Quando, finalmente, saímos de uma existência tolhida para uma vida em que tudo é possível. Inclusive, nós.

@ivonepita

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5 comentários

  1. ” A homofobia que nos ensinou por toda uma vida que homossexuais são minoria por terem um desvio psicológico ou um vício de comportamento”. É isso que foi ensinado a nós por muitos anos, e causa tantos conflitos entre pais e filhos. Felizmente, o amor rompe com todos esses preconceitos

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  2. Bom, já que estamos na fase de revelações, sou hetero. Apesar disso (o apesar foi brincadeira), penso que há muitas facetas nossas não aceitas interna ou externamente e, nesse sentido, tanto faz se é a questão da atração pelo outro ou se estamos falando de gostar de música clássica ou rock. O que vc e seus textos impressionantes fazem comigo é pensar. Pensar, às vezes (como diria o machistissimo Millor) dói. Mas sempre e sempre acende o poder que temos e isso não tem preço, nem sexo.

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  3. Acho que é mais ou menos quando eu dizia “ser trava tudo bem,mas puta que horror,nunca”.Depois que fui puta pela primeira vez e recebi o dinheiro,mais dinheiro,e dinheiro por trepada,pensei:Céus,era esse o problema,cobrar por sexo?”.Bem era só sexo afinal com prazer garantido:O dinheiro

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  4. Oi sempre visito seu blog, quase nunca comento.
    Sou lésbica desde os 14, no começo achei que era o fardo que Deus reservou p mim e q eu tinha q lutar contra ele p ir pro céu.
    Mas aos 17 cheguei a conclusão que a vida da gente é só uma e q eu n qria passar a minha lutando contra minha vontade.
    Seus textos e comentários me ajudaram muito a entender como as coisas funcionam e a me livrar de um milhão de pré conceitos que eu tinha.
    Por causa do movimento lgbt conheci o feminismo e foi outro mundo que descobri, mais auto aceitação e mais pré conceitos rompidos..
    Eu sei q o comentário ficou extenso,mas eu queria dizer que vc dai de longe contribuiu diretamente no meu empoderamento
    Obrigada :)

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    1. Isabela,

      estou realmente sem palavras. Vc me deixou muito emocionada com este depoimento. Que lindo. Que lindo! É bom demais ver você seguindo o seu caminho com coragem, assumindo a vida como precisa vivê-la. E, óbvio, é muito bacana saber que contribuo com isso em algum nível. Estou sem saber o que dizer mesmo! Lindo, lindo demais!

      Um abraço bem apertado!

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