Se restasse apenas um dia.

Estes dias tenho pensado em como se perde tempo. Como as pessoas perdem tempo, como perdemos tempo. Como nos perdemos. Como deixamos a vida passar sem agarrarmos o que mais nos move ou poderia mover. E mover deliciosamente. Não falo do que eu suponho que seria melhor para a vida desta ou daquela pessoa, não quero impor regra do que seria melhor de se fazer, o contrário disso: penso que não devemos jamais sucumbir ao que se espera que façamos ou ao que devemos fazer ou como devemos viver. Falo justamente sobre fazermos o que sentirmos realmente vontade, sobre viver o que realmente sentimos desejo de vivenciar. De evitarmos nos tolher, diminuir e cercear por convenções, imposições, regras sociais ou uma vida construída nesta ou naquela direção, por mais desestabilizador que seja optar por sermos nós de fato. De direito. E com urgência, afinal, mesmo que não tenhamos apenas esta vida, esta aqui é apenas esta mesmo, jamais se repetirá. O tempo não volta. As situações não se refazem, por isso, é assim mesmo: é agora ou nunca. Ainda que seja depois, jamais será agora, como seria a este tempo, neste momento. Mas, vejam só, o pior ainda anda à espreita: talvez jamais seja.

Quando eu chamo atenção para a possibilidade de restar apenas um dia não penso em catástrofes que destruiriam o mundo como na música que inspirou o título deste texto, penso em catástrofes pessoais: aquela pessoa para quem você queria dizer tanto, mas não disse, com quem você gostaria de viver tanta coisa, mas não viveu, por medo, por insegurança ou por sucumbir às pressões ou convenções sociais, jamais poderá ser vista por você novamente, jamais poderá lhe ouvir de novo ou lhe falar o que quer que seja, fosse para reagir mal a sua declaração ou para correr em sua direção com o sorriso e a recepção com que você estava sonhando. Um dia, uma noite, de um momento para o outro, a vida dela foi interrompida. Não haverá outros longos olhos nos olhos, outros sorrisos, outros sons de risadas atravessadas. Acabou. Terminou uma vida que você queria junto a sua. Uma vida que você amava sendo de outra pessoa. Finalizou qualquer chance de ser feliz como você havia sonhado ou como poderia ser especificamente com aquela pessoa – fosse da forma que fosse e pelo tempo que durasse. Acabou. E é sempre assim: a gente jamais espera ou conta com isso, afinal, ela está ali, linda, feliz, sorridente, leve, divertida, cheia de vida e é assim que contamos que continuará, pois é assim que a vemos, temos e carregamos todo o tempo por aí, sem nos dar conta do quanto pode nos ser arrancado bruscamente. E é assim: sem conspiração, sem o universo estar contra ou a favor da gente. O universo é apenas totalmente indiferente. E, então, caberá a nós aceitar que o erro foi nosso e encontrar forças para superar e jamais repetir o mesmo: a apatia, a covardia, a falta de coragem em viver e amar apesar de.

E tem mais: pode ser você. Dentro de casa, no chuveiro, na escada, no elevador, no carro, atravessando a rua, sem fazer qualquer movimento e mesmo dormindo. A gente pode morrer a qualquer hora, de qualquer forma. Fazendo nada, fazendo qualquer coisa. Sem motivo, sem aviso. E sei bem que nós sabemos disso, eu sei. A questão aqui passa longe do sabermos ou não, mas de internalizarmos e fazermos algo em relação a isso, o que em geral só ocorre quando temos uma experiência de quase-morte ou perdemos alguém muito próximo de maneira repentina. No entanto, a questão que quero fazer arranhar por dentro cada pessoa que ler este texto é o que se está deixando de viver por medo, por covardia, por nos perdermos em cálculos do quanto mudaríamos da vida atual e em previsões – impossíveis! – de como seria a vida futura. E do quanto perdemos com tudo isso quando nos deveríamos importar apenas com o que sentimos ao fazermos o que gostamos, vivendo o que nos dá prazer e com a paixão enlouquecida por quem nos tira do lugar e com o amor por quem nos faz sentir mais vivos.

Pensando em tudo isso, ao reler hoje Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispector, meus olhos paravam mais justamente nos trechos em que nos chama à urgência de vivermos o mais verdadeiramente e intensamente possível, dada a nossa existência ser única e uma só. E, assim, lá estava Lóri, com seu chamado me dizendo que “a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre”, dizendo que a “árvore forte é mais profundamente abalada que a árvore fraca” e me grita sobre o que sempre me correu e corrói por dentro: a voracidade de viver. E seu canto me entorpece ao me lembrar que há “um sentido secreto das coisas da vida” enquanto eu penso que meu desejo é justamente experimentar os segredos que se me apresentam sem necessariamente desvendá-los e, sobretudo, os que me dão prazer e enchem de alegria e vida.

Viver intensamente é por vezes se encontrar em uma montanha russa emocional que não pedimos nem previmos, mas acima de tudo, por Zeus e todo o Olimpo(!), é sentir a vida plenamente, tanto quanto se pode sentir. Eu estou com Guimarães Rosa, no Grande Sertão Veredas: “o que a vida quer da gente é coragem”. Coragem enorme em aceitar as surpresas totalmente estonteantes que ela joga assim sem o menor cuidado sobre nós e que revira tudo por dentro. Coragem de encará-la e segurá-la firmemente com toda a loucura que ela traz. Coragem de mudar o cotidiano, a vida futura, nossa história inteira. Coragem de mandar um texto, qualquer mensagem, fazer apenas um aceno ou uma ligação. Coragem para declarar afeto em um abraço. Coragem para o primeiro beijo. Coragem para aquele primeiro passo. Coragem para desistir de estar certo, para voltar atrás, fazer as pazes, passar por cima e deixar para trás o que não queremos aprender da pior forma: que ter razão ou insistir no rompimento teimoso era o que menos importava. O que importa mesmo é estar junto. É se entender, passando por cima de qualquer mágoa ou orgulho que ficam totalmente sem sentido diante da perda definitiva. O que importa mesmo é ter coragem para afeto pleno, aquele que acima de tudo é firme e resiliente. O afeto que sabe que vivenciá-lo é urgente.

E é isso: meu pacto maior é com a coragem e com a fome de vida. Eu quero mesmo é o quase insuportável de tão intenso, eu quero mesmo é a sensação de um infinito quase intolerável, eu quero é flertar com o impossível. Eu quero mesmo – e muito! – o que é a um só tempo selvagem e suave. E que venha com paixão, amor e dor, mas venha sempre. O que não suporto é a vida morna. O morno é vazio, é estagnante. O morno é morte lenta. Eu amo mesmo é o desassossego. Amo. A vida é um tédio quando estamos sossegados demais. Prefiro o desassossego ainda que ele me arranhe e eu me vire e revire pelo avesso.  O desassossego é o que me faz vivenciar a urgência em viver e ter noção exata do tempo que não temos para perder. É o desassossego que não me permite perder a noção de que a vida pode terminar a qualquer momento e que por isso precisamos mesmo é dela: da grande coragem de mergulhar em nossas próprias existências, enfrentando o medo do que for, o furacão que vier, mas não deixando de viver – por coisa alguma! – o que nos faz sentir de fato plena e intensamente vivos e felizes.

@ivonepita

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4 comentários

  1. Passei a viver ‘como se fosse o último dia’ há algum tempo. Minha vida tornou-se mais feliz, mais producente, mais intensa e sobretudo mais pragmática. Dessa forma, confesso, que estamos todos na iminência da morte e se pensarmos assim, degustaríamos melhor os momentos e esqueceríamos o que passou. Sem dúvidas, ‘o melhor lugar do mundo, é aqui e agora’. Façamos acontecer!

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  2. Se ainda é preciso dizer mais alguma coisa do que voce escreveu,te digo;
    esse texto é do caralho! um grande beijo desse fã de suas palavras.

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