Eu não cismei

O termo cisgênero, usado para especificar pessoas cujas identidades de gênero estão em conformidade com os gêneros que lhes foram designados, fazendo contraponto com transgênero, para mim, é só mais um termo para estabelecer contraposição, marcar diferenças entre um grupo e outro, como vemos em relação à orientação sexual entre homossexuais e heterossexuais. Ora, por que razão iríamos nomear apenas o grupo transgênero? Por que razão apenas um grupo receberia especificação? Isso sim seria rotular um grupo como um nome diferente, um nome para quem não está em acordo com o restante. E o restante? Do que seria chamado o restante, de nada? Isso sim é diferenciar uns, colocando-os como anormais e por isso mesmo necessitados de nomeação, uma patologização por rótulo, e isentar os demais.  Por que razão não nomear todos os grupos? Por que razão não especificar a que grupo cada pessoa pertence e apenas alguns deles? Afinal, sabemos que os considerados diferentes, anormais é que sempre são os rotulados, caso apenas um dos lados seja nomeado.

Se nós lidamos bem com as terminologias quando dizem respeito à orientação sexual, não vejo por que razão não lidarmos tranquilamente quando os termos dizem respeito à identidade de gênero. Não vejo nenhuma intransigência no fato de pessoas trans usarem e solicitarem o uso do termo cis, afinal, é assim que o termo é difundido, entendido e aceito. É assim que o termo trans deixa de ser aquele que rotula um grupo como sendo o diferente, o que se destaca do restante. Não entendo por que razão um termo para apenas contrapor pessoas que não são trans a pessoas que são poderia causar ou provocaria divisões no movimento LGBT. Ou por que razão quando termos são usados para especificar quem é ou não homossexual ou bissexual são especificações necessárias à luta por identidade, reconhecimento, construção de narrativas e história, mas quando são usados para especificar quem é ou não trans, de especificação necessária passa-se a considerar rótulo desnecessários e que apenas atrapalhariam o movimento.

Tenho visto algumas alegações contra o uso do termo cis bem parecidas com as que são usadas contra outros grupos: que o termo foi cunhado e é utilizado para diminuir os ditos normativos, como um revide, por exemplo, e que também é usado para desqualificar o interlocutor, acusado de não entender a realidade trans ou não poder sobrepor a fala de pessoas trans, frente à militantes trans, se é pessoas cis. Ora, o mesmo dizemos se uma pessoa heterossexual se arvora de mais entendedora da realidade de uma pessoa homossexual que a própria pessoa que vivencia tal realidade.  E o termo cis não surgiu do nada. Ele circula na web há duas décadas(!). E é absolutamente necessário à construção identitária, não é uma coisa qualquer, uma cisma. E se o termo é usado por algumas pessoas para silenciar militantes cis ou para agredi-los, isso não pode ser usado para condenar o seu uso, afinal, são apenas algumas pessoas. Seria o mesmo de pinçar algum exemplo de homossexual que fez isso ou aquilo para desqualificar todos os demais.

O que pode causar uma cisão no movimento LGBT é justamente a cisnormatividade e não o fato de recentemente nós, cisgêneros, termos também sido nomeados. Nós, os que antes se viam como um grupo oprimido, sem os privilégios dos heterossexuais, nos vimos acusados de também sermos opressores em relação a outros grupos, de também termos privilégios. Não, isso não é fácil de processar, mas também não chega a ser uma catástrofe. Todo grupo oprimido pode estar em situação de vantagem em relação a outro sem que se tenha que comparar quem sofre mais opressão na totalidade. Qualquer coisa com que me deixe em perfeito alinhamento com o que se considera normal, me dará o privilégio de passar despercebida, sem maiores problemas ou entraves e isso sempre ocorrerá em relação a pessoas que serão apontadas como o contraponto anormal e que serão alijadas de processos e situações, que serão impedidas em determinados pontos. Isso, sim, é o que se constitui privilégio. Exatamente como ocorre entre homossexuais e heterossexuais.

Por fim, ninguém tem a obrigação de usar o termo cisgênero, mas toda pessoa precisa saber o que significa usar ou não o termo, o que significa por sob um termo especificador apenas um grupo e não o outro. É preciso que saibamos, sim, a opção que estamos fazendo quando escolhemos impedir o não protagonismo – também em termos de voz – das pessoas trans, quando as ouvimos de fato ou não, quando realmente consideramos suas reivindicações, propostas e reclamações ou não. Quando promovemos entendimento e união ou não.

@ivonepita

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