Da responsabilidade do afeto

Certa vez, eu ainda na escola, uma pessoa disse que achava engraçado como eu dividia meus amigos sempre colocando uma locução adjetiva junto ao nome: da igreja, da escola, da rua. E mais interessante ainda era não colocar adjetivo algum, a pessoa mencionada era somente amiga. E aqui toda a diferença: não havia circunscrição, a pessoa era minha amiga mesmo, de fato, em todos os espaços, sem restrição. E também havia o termo colega, mas que parece ter caminhado para praticamente a ofensa. Dizer que alguém é apenas colega seu é como dizer que você e a outra pessoa apenas coabitam algum lugar por algumas horas e de forma obrigatória, como em um ambiente de trabalho. E aí vemos o amigo de trabalho. Só que há um problema aqui: algumas pessoas acabam creditando às palavras amiga ou amigo muito mais do que apenas um upgrade da palavra colega – mesmo quando ela está ali metida na locução.

É aqui que penso na responsabilidade do afeto. A gente não tem responsabilidade mesmo se a outra pessoa entende uma palavra no meio de uma locução como uma declaração de amor. No entanto, a gente é responsável pelo que diz e demonstra. E somos ainda mais responsáveis se insistimos em dizer o que nós não sabemos com absoluta certeza: se o afeto é legítimo, fixo, estável em nós. Somos responsáveis por afetar a outra pessoa. Isso mesmo: afetar, de afeto. Na psicologia, vemos afetividade ser tratada como suscetibilidade. Ficamos suscetíveis, somos afetados. Ou somos afetados e ficamos suscetíveis. Em latim é afficere, afectum, o que afeta, deixa marca, produz impressão, o que toca, que une, que fixa. É assim: o seu afeto atinge a outra pessoa, o afeto da outra pessoa mexe com você. Ninguém passa impune pelo afeto.

O afeto é isso: um laço criado, um estado de carinho, de ternura, de atenção, de cuidado. Talvez por isso eu sempre opte por usar a palavra afeto. Para mim sempre foi tão importante a precisão das palavras. Sim, gosto de metáforas, mas elas também devem ser precisas ou ficam sem sentido. Precisão. Do que precisa ser exato,mas  também do que é necessário. O afeto produz necessidade. Necessidade de troca, de atenção, de carinho. O afeto pode nos levar a uma resiliência que desconhecíamos em nós. O afeto pode nos fazer ultrapassar o orgulho. Ele pode nos fazer mais disponíveis e dispostos. Meu olhar sobre a outra pessoa é afetado, afinal. Para ela eu olho com ternura, tentando compreender o lugar que ocupa no mundo, a sua psique, e por isso como compreende a vida, os seres humanos, como reage nas interações com coisas e pessoas. O afeto me empurra para além do que costumo doar aos demais indivíduos. O objeto do meu afeto sempre contará com mais benevolência, mais paciência, mais compreensão e diálogo.

Se você declara afeto, você pode estar declarando tudo isso aí acima à pessoa-alvo de sua declaração – ainda mais se for insistente. A outra pessoa pode ficar segura de que há confiança, espaço para intimidade compartilhada. E se sentir confortável para derrubar os muros de proteção. Que se pode permitir a entrada em espaços bem protegidos de si mesmo.  Por isso você precisa ser responsável. Pense: talvez esta pessoa a quem você pretenda declarar afeto seja apenas uma companhia bacana, agradável, leve e divertida com quem você gosta de passear e rir junto. Pense de novo: você é capaz de suportar esta pessoa quando ela não estiver bem, quando ela estiver com problemas, com o humor e o ânimo alterados? Você é capaz de não somente compreendê-la, acolhê-la nesse momento em vez de expulsá-la de sua vida? Você é capaz de por o que sente por ela acima de desentendimentos de um período turbulento, lembrando-se de quem ela é de fato, a pessoa que você conheceu e conhece, e que está apenas transtornada? Pense e se decida. O afeto é resiliente, é tranquilo, sabe dialogar, mas também sabe ficar quieto e esperar. O afeto só não sabe o que é corte fundo e bruto, rompimento brusco e silenciador, caçador da palavra do outro. O afeto permite. Dá espaço, tempo. O afeto (se) renova.

Afetividade é o que liga as pessoas.  Ter afeto é ter apego. Estar apegado a alguém. Sejamos responsáveis ao declararmos afeto. Eu sou. Algumas pessoas ficam ressentidas comigo por eu não trazê-las logo a minha casa, não mostrar minhas coisas, não permitir que elas adentrem minha intimidade, que não divida com elas minhas dores, minhas memórias, meus planos. Queria que elas entendessem que é questão de afeto, mas também de tempo e abordagem. É questão de me sentir mais próxima, acolhida com segurança. É questão de conquistar com paciência e cuidado a minha confiança. É questão de eu ficar absolutamente certa do afeto da outra pessoa por mim, pois essas são minhas barreiras últimas que só permito a algumas poucas pessoas a ultrapassagem. Quando ultrapassam, viro toda afetividade, sou ofendida, agredida e desrespeitada algumas vezes e resisto, converso, reaproximo. Quando ultrapassam, percebo quando a outra pessoa não está bem, observo, tento compreender , se compreendo, espero o tempo de abordagem, de conversa e acolhimento, mesmo sabendo que posso não ter o mesmo quando eu precisar. Sim, eu me dou toda, sem reservas, ao afeto, com cuidado, muito cuidado, e ainda assim, sabendo sempre que posso me machucar, ser profundamente magoada e ficar partida em mil pedaços.  Como agora.

@ivonepita

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3 comentários

  1. Seremos sempre assim, expostos aos riscos e aos desavisos. Por mais que haja súplica para sejamos precisos, as palavras, às vezes, não compensarão. Noutras, entretanto, serão gestos que virão em nosso socorro. Portanto, é essencial correr certos riscos, sem o que não será possível nem o gozo da amizade nem o silêncio necessário à restauração. Fique bem

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  2. Ivone…seus textos são sempre fortes e delicados, críticos e sonhadores. Um universo de afetos misturados. Sempre encantando! Obrigada por nos oferecer tudo isso…

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