Do lado de cá

O que nos faz cruzar a linha para a amizade de fato?
Aquela tão sólida que pode levar umas boas marretadas sem que se desfaça.
Aquela com a qual podemos contar para reconstruir boa parte de nós mesmos
quando caímos aos pedaços.

Será a liberdade dos desaforos ditos na cara?
A franqueza escancarada a qualquer custo?
O respeito radical à individualidade?
A sinceridade absoluta em qualquer aproximação?
O grito saído de qualquer jeito – mas ainda assim com afeto – no meio do desentendimento?

O que nos faz chegar ao terreno seguro do amor mais legítimo?
Aquele local de conforto e abrigo, em que dizer o que se deve ou precisa ser dito
não é uma temeridade e onde a leveza é presença sempre confirmada.

Em que momento uma pessoa deixa de ser apenas mais uma?

Quando o vocativo que seria agressivo traduz somente afeto?
Quando se notam os tratamentos carinhosos usados somente após um tanto de proximidade?
Quando o abraço deixa de ser apenas entre ombros, passando a ser de corpo inteiro – colado – sem pudores neurotizados?

Qual passo nos faz cruzar a linha da certeza do afeto?
Este sentimento delicado que atravessa amizades, paixões e amores.

Quando há cuidados desde uns fios de cabelo fora do lugar até o estado de ânimo e de saúde?
Quando passamos a nos sentir seguros e confortáveis a ponto de desnudar segredos, vícios e erros?
Quando começamos a nos ver transparentes, enxergando através das fachadas e máscaras que usamos para manter a segurança?
Quando passamos a poder brincar com o que quisermos e do jeito que quisermos
sem que haja desconfiança de um subtexto, algo não dito ou camuflado?

Quando é que passamos a tocar e a nos deixar tocar sem receio?
Quando se fica absolutamente à vontade para falar sem tato?

Onde, senão no terreno do afeto,
ter a certeza de que não há mais susto ou abalo,
que desgaste o sentimento instaurado?

@ivonepita

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16 comentários

    1. Obrigada, Rebeca! Cada um lê de uma forma: no seu caso a amizade que se transforma em outra sentimento, mas não para todos é assim ou seria assim. E eu falo de afeto justamento por ele estar em tudo: amor, amizade, paixão. Por atravessar todos estes campos e sem necessariamente por uma barreira divisória entre eles. ;)

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  1. Nossa, veio a minha mente tantas novas amizades… Amizades que mais parecem seculares e que foram formadas apenas a alguns anos.
    O afeto… sem ele viveríamos solitários. ;)

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