Invisibilidade e silenciamento não cabem no próprio movimento!

Sem Título-2Para começar este texto direi o que para mim e muitas outras pessoas grita obviedade: transfobia e homofobia não são a mesma coisa! Homofobia é discriminação sofrida pela orientação sexual. Transfobia é a discriminação sofrida por identidade de gênero. Mas eis que ainda há muita gente que insiste em deixar isso para lá, para deixarmos tudo sob o manto da homofobia, pois assim a população entende melhor, não complica, não é mais um termo criado e não forçamos os pobres mortais ignorantes a terem de engolir uma “sopa de letrinhas”.  E por aí seguem os argumentos mais estapafúrdios para se fazer o que sempre se fez: silenciar e apagar a luta e todas as questões relacionadas às pessoas trans. Elas que venham à reboque, que aproveitem as vozes alheias e os espaços que puderem frequentar. Voz própria e espaço próprio para que, afinal?

Todos estes discursos constituem os mesmos argumentos utilizados desde sempre diante de qualquer grupo marginalizado que se organize e reivindique espaço, visibilidade, reconhecimento e voz própria. Não foi o que vimos e vemos todos os dias? Não é contra este massacre e sufocamento de identidades, de individualidades que lutamos? Então, como podemos reproduzir este tipo de opressão e apagamento dentro do próprio movimento LGBT? Não criamos letras, siglas, nomes, movimentos, conceitos? E se foram criados não tiveram de ser ensinados? Não tiveram de ser disseminados e explicados até serem entendidos?

A 18ª edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo escolheu o tema “País vencedor é país sem homofobia. Chega de mortes!”, enquanto nas redes milhares de pessoas pediam para que o tema fosse uma reivindicação pela aprovação da lei João Nery de Identidade de Gênero. Assim, além de ignorar a reivindicação de pessoas que se mobilizaram para tentar um diálogo com a organização da Parada, no tema abordam apenas homofobia, ou seja, além de não ouvirem, silenciam vozes e invisibilizam identidades.

Confrontada a organização da Parada soltou nota explicando que a intenção é chamar atenção para os casos de homofobia. Ora, isso a gente entende, tá mais do que dito e bem explicitado no tema. O que não está no tema é a transfobia. Aquilo para que não se chama atenção é para a transfobia, é para a marginalização, a perseguição, a violência psicológica e emocional, o apagamento identitário, o linchamento moral e a morte física de milhares de pessoas, todos os dias, em todo o canto deste país. Pessoas trans. Pessoas mais uma vez silenciadas e apagadas em um evento LGBT. Um evento enorme, de alcance internacional, que tem destaque na programação da TV e que, com tudo isso, fará apenas mais do mesmo: fazer de conta que pessoas trans não existem.

O maior evento LGBT do país decepa uma letra, aparta um grupo, e há quem ainda questione por que razão os movimentos trans se tornam cada vez mais independentes, como se fossem estes movimentos a rejeitarem e dividirem o movimento LGBT. No entanto, o maior evento LGBT do país não permite o protagonismo da luta das pessoas trans. O maior evento LGBT do país promove o silenciamento e o apagamento das pessoas trans, suas demandas e questões particulares, suas identidades. Ora, invisibilidade e silenciamento não cabem no próprio movimento!

@ivonepita

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2 comentários

  1. Obrigada Ivone Pita por estar ao nosso lado , pois precisamos de mais vozes que entendam que as pessoas TRANS, são comissão de frente do movimento GLBTTs mundial , pois fomos sempre apontadas em primeiro lugar e em todos os lugares.

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