Sem medo e com afeto

Ter a minha memória é excelente. A auditiva e a visual, um arraso.
Números, datas, fisionomia, cenas, frases. Passam anos, eu lembro, eu reconheço.
Mas, óbvio, como tudo que é bom demais, também é um grande desgaste em alguns momentos.
Agora não mais.
Houve, há mais de duas décadas, uma pessoa que considerei mais que irmã por anos,
que eu idolatrava, pela qual era completamente apaixonada, mas sem qualquer conotação sexual.
Nem um pensamento erótico, nem mesmo um sonho daqueles que chegam em um susto e como grandes revelações.
A menina era quatro anos mais velha do que eu e venceu várias das minhas barreiras,
uma vez que nem mesmo simplesmente abraçar as pessoas era uma tarefa fácil para mim.
Imagine todo o novo contato físico que ela introduziu na minha vida. Ela.
E, ainda assim, algo que nunca relacionei à homossexualidade, ao homoerotismo ou à homoafetividade.
Eu tinha 14 anos, ela, 18. Até que pouco antes de eu completar 22 anos, ela apenas me cortou.
A família dela era extensão da minha. Eu amava a mãe dela. Adorava a irmã e uma de suas primas ainda criança.
Um dia ela combinou comigo de conversar em sua casa e antes mesmo que eu me percebesse homossexual,
abriu um papel de caderno, destes grandes, preenchidos se não me engano dos dois lados, com exemplos do meu comportamento estranho,
que eu mesma não entendia, via ou percebia como esquisito,
e me disse, da forma mais gélida e distante que pode, que eu nunca mais falasse nem com ela nem com sua família.
E foi assim que eu, ainda muito menina, fui barbaramente ferida,  nesse sentido, pela primeira vez.
Daquela casa saiu uma pessoa chorando compulsivamente, se sentindo sem chão, sem pele e, literalmente, cambaleante.
Daquela história saiu parte da mulher que sou hoje, com todas as minhas neuras, medos e resguardos.
De tudo que foi bom e ruim naquela história, como em tantas outras, é que sou a força que eu mesma reconheço hoje,
com habilidade para saber me preservar, mantendo adequada distância quando necessário,
com coragem suficiente para amar e me apaixonar sem qualquer restrição de intensidade, entrega ou forma.
@ivonepita
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6 comentários

  1. Bela triste história, menina Ivone. Registro fiel, delicado e marcante para qualquer Ser humano. Mais belo, ainda, foi o aprendizado que tirastes dessa experiência.
    .
    Beijo carinhoso, querida.

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  2. Tenho certeza que a dor vivenciada neste dia, foi um impulso forte para a construção da mulher que você é hoje. Você é uma pessoa excepcional! Grande abraço! Roberta Macedo.

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  3. Além de ser excelente escritora, que consegue expressar sentimentos com objetividade (algo difícil), você é cuidadosa, gentil, discreta. Vou descobrindo suas qualidades em seus escritos, com muito prazer.

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