O substrato do que é.

O rosto diz uma coisa, a fala outra. Diz que vai e fica. Prometo ficar e me vou. Há desejo em nossos olhos e corpos, mas nos contemos em gestos de leve doçura. Disfarçamos, dissimulamos, contradizemos. E se pomos a emoção em palavras sobre a mesa, com gestos intensos a força lhe ampliamos ou negamos. Sim, sabemos bem dramatizar. E ironizar, debochar, atacar, agredir, desprezar, dissimular, confundir – e a tudo desfazer.

Palavra uma, gesto outro. Gesto amplo, gesto miúdo, gesto forte e escancarado, gesto sutil. Em nossas caras. Em nossos corpos. Tudo revelado, tudo negado, tudo atravessado, tudo dito e desdito – a confundir.

Todo gesto a desnudar. Toda palavra a esconder. O verbo entrega o desejo. O corpo se pune em contenção. O movimento insinua o toque, a palavra nega a vontade. O som revela o sentido, o gesto nega a entrega. Seguimos nos contradizendo. Seguimos com medo. Seguimos em nossas prisões.

Em nossas falas e ações entrecortadas, a relação de força entre o dito e o silenciado. Palavra e gesto ora se contradizem ora se confirmam. Negam-se e complementam-se. Digladiam-se.

E na ponte invisível e concreta entre complementares e opostos desfila o substrato do que é, do que está, do que pulsa sob todas as máscaras, roupas e peles. Sob todos os disfarces e todos os desejos.

@ivonepita

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