Entre o combate e a propaganda

Vários grupos discriminados ao longo da história lutaram e conquistaram espaço, reconhecimento e leis específicas. Mesmo tendo muito que conquistar, todos tem uma melhor inserção social ainda que carreguem várias pechas de preconceito, vários rótulos, acusações, antipatias, desqualificações e mesmo cerceamentos, e não são mais a mola propulsora dos pânicos coletivos. Neste quesito, é a nossa vez, a vez dos LGBTs. Não falo do pânico gerado em nós pela violência, pelas agressões, pelas torturas e assassinatos. Sobre este digo sempre e repito: em vez de nos recolhermos e sermos invisíveis, como querem os homotransfóbicos, temos mais é que ocupar os espaços, garantir nossos direitos e legitimar cada vez mais nossa existência.  Refiro-me ao pânico criado por nossos algozes a partir de nós: o pânico social. Este é sempre criado de maneira pensada, bem arquitetada, com o claro objetivo de tornar um grupo social discriminado em inimigo da sociedade de forma que este seja impedido de alcançar equiparação de direitos e exercício pleno de sua cidadania e seja através de que artifícios torpes forem necessários.

O pânico social serve justamente para recrutar uma parcela excluída da sociedade: a que não faz parte do grupo social apartado de seus direitos nem do grupo que quer manter a situação de opressão para tirar ou permanecer tirando proveito do embate. Estas pessoas, à margem do embate, são recrutadas por serem convencidas de que a sociedade como conhecem mudaria drasticamente caso as pessoas discriminadas conquistasses cidadania – naturalmente não com estas palavras, mas dizendo que tais pessoas não são discriminadas, que desejam privilégios, proteção especial, que desejam serem alçadas a uma categoria superior aos demais cidadãos e que certamente, ao conquistarem reconhecimento, irão implantar seus próprios valores e de forma ditatorial. Defendem, portanto, que o controle, o impedimento à conquista de algum direito é algo plenamente justo, pois serve para conter abusos e concessões especiais. Tudo com o evidente objetivo de gerar horror em relação a um determinado grupo.

Nós LGBTs, como grupo-alvo da vez, temos de tomar muito cuidado para não fazer eco a nossos algozes lhes ampliando a voz, lhes dando espaço e lhes promovendo os discursos e ideias. Há muitas pessoas que lutam contra a cidadania LGBT de quem nunca havíamos ouvido falar, não tinham destaque midiático e, no entanto, após terem um nicho de promoção – falar impropriedades e absurdos sobre LGBTs, através de agressão e distorção de discursos – estão em destaque. E conquistando essa projeção arregimentam mais incautos e outros aproveitadores. Dar espaço a este tipo gente e a seus discursos, citando quem são e o que defendem, mesmo que seja criticando, é promover quem quer mesmo promoção, ou seja, é colaborar com eles. A crítica, o questionamento e a desconstrução do discurso podem ser feitos sem que as pessoas e suas falas sejam citadas de maneira a lhes fornecer propagando gratuita. Muitas vezes nos atemos aos discursos e às ações de pessoas sem importância ou influência – que apenas querem se promover à custa de polêmica – em vez de promover ações e textos de quem realmente interessa: nossos pares e aliados.

Promover os desimportantes, os que têm pouco alcance, não tem mídia nem público vasto cativo, e nenhum poder efetivo de nos cercear os direitos, serve somente para atrair o tipo de gente torpe que concorda com a discriminação e que nos causa apenas revolta e tristeza. Temos de ter discernimento para saber quem e o que é importante combater por ser de fato nocivo à conquista de nossos direitos ou quem é totalmente inócuo e seria apenas promovido de forma gratuita e justamente por nós, seus alvos. Os que têm realmente o poder de decidir sobre a vida alheia, elaborar e aprovar ou reprovar leis, os que têm grande alcance midiático, estes sim, devem ser combatidos, mas ainda assim, com o devido cuidado para não nos usarem como promotores de suas figuras e ideias. Precisamos realmente prestar muita atenção a estas estratégias usadas para nos desviar de nossos objetivos, resistir e não reagir a tudo e todos, todo o tempo, pois é desvio de foco, tempo empregado da forma como nossos algozes nos querem manipular para utilizarmos. Nosso tempo, nossas ações e nossa luta devem ser decididos e gerenciados por nós, de forma estratégica, de forma propositiva e jamais somente em resposta a ataques, portanto, sempre um passo depois. Vamos lutar, mas sem desperdiçar energia com pessoas e coisas que não valem a pena. Vamos lutar, mas que estejamos sempre à frente.

@ivonepita

 

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