Horror vermelho sangue à cultura do pelo menos!

horrorNunca gostei do pelo menos e ainda não gosto, portanto, não posso aceitar o triste argumento de que seria bom que fosse permitido que casais LGBT adotassem, sem terem de passar por um processo complicado na justiça, porque assim, pelo menos, as crianças não ficariam em orfanatos. Menos ainda poderia aceitar pretensos argumentos de que até abortos iriam diminuir e que em vez de termos corpos de bebês jogados em lixo ou em meio de estrada, teríamos crianças felizes, pois LGBTs, pelo menos, ajudariam a diminuir tamanha barbaridade. Ou seja, sermos adotantes pode ser algo tolerado se for para resolvermos problemas ou nem deveríamos pleitear tamanho disparate. Até podem pensar em nos permitir determinada inserção social, desde que seja para ficarmos com o que outras pessoas descartaram. Um serviço de limpeza mesmo. Se pelo menos tiver essa função, talvez seja aceitável a adoção por parte de LGBTs. E assim, quem sabe, até descobrem um sentido para nossa existência? Posso até vislumbrar uma chamada: “não batam nem matem os gays, eles tem utilidade: esvaziar os orfanatos, tirar as crianças das ruas, reduzir a quantidade de abortos”. Ora, este é o motivo de nossa existência? A ideia é de um reducionismo absurdo dos indivíduos, dos cidadãos LGBTs. Pelo propósito da existência e por ser diretamente relacionado a sobras. E lamento ver que muita gente adere a este tipo de campanha, que nos coloca em posição secundária, como última alternativa, como o “menos pior”. Como menos. É preciso atenção para não corroborar este tipo de discurso, que nos menospreza, que nos torna restos.

Também não somos serviço de utilidade pública. Isso cria uma função utilitarista para nós LGBTs e considero isso terrível. Tenho horror ao utilitarismo, imagine em relação a indivíduos! Uma existência apenas utilitarista e regulada pelas necessidades de outras pessoas! Ora, somos cidadãos e devemos ter nossa cidadania plenamente reconhecida, equiparada ao restante da população e não sermos tratados como cidadãos inferiores, opção secundária ou última. Em uma sociedade de homotransfobia institucionalizada, que nos obrigada a viver de sobras, não precisamos nós mesmos corroborar este tipo de discurso ou apoiar a prática, como se concordássemos, como se nos fosse um benefício. Em todas as instâncias nos fazem existir em função da heteronormatividade. Lidamos cotidianamente com o heterocissexismo, não precisamos nós mesmos colaborar nossa própria depreciação. Eu não quero que aceitem nosso direito à adoção pelo viés do “pelo menos”, do “menos pior”, com discursos de “é melhor gay adotar que ficar na rua” ou “gay deveria poder adotar, pois assim ajuda a resolver o abandono de crianças” etc. Eu quero ter o direito de adotar por ser cidadã e o Estado ter o dever de garantir o pleno reconhecimento dos meus direitos civis.

Em minha tríade de luta –  o casamento civil, a lei anti-homotransfobia e o reconhecimento das identidades trans – não quero o pelo menos da união estável, mesmo que esta nos garanta alguns direitos, não quero união civil, quero casamento civil, quero todos os mesmos direitos, com os mesmos nomes, sem qualquer diferenciação, não quero que homofóbicos sejam responsabilizados criminalmente somente se nos espancarem e matarem, quero que assumam legalmente a responsabilidade por xingar, agredir, humilhar e incitar o ódio e a segregação contra nós, não quero que pessoas trans tenham o nome social reconhecido somente em boletins de ocorrência, em listas de chamadas nas escolas ou em prontuários de hospitais, quero o reconhecimento de suas identidades e não quero que sejam obrigadas a se submeterem a cirurgias que nem sempre desejam para alcançarem tal reconhecimento.

Ora, nós somos violentados a cada vez que ouvimos um discurso homotransfóbico. Somos violentados em nossa cidadania quando não temos direitos igualitários ou quando LGBTs são caçados, torturados e mortos e nem sequer se reconhece o crime como sendo de ódio. Somos barbaramente violentados quando culpam a vítima pela violência sofrida. A cada suicídio vamos sendo cortados por dentro por um mundo em que não se consegue mais respirar tranquilamente diante de tanta e tão ameaçadora violência homotransfóbica.  Vamos sendo dilacerados a cada pessoa despedida, agredida, humilhada, expulsa, apartada, estuprada, espancada e assassinada. A cada corpo retalhado de um dos nossos e a cada tiro, facada, chute, soco, paulada, dentes e costelas quebradas, e tantos objetos transformados em armas letais que atravessam, quebram ou esmagam nossos corpos – quando não chegam ao extremo de nos tirar a vida. E é por tanto sangue derramado de cada uma destas pessoas e por cada uma das que ainda estão por vir – pois virão -, que não devemos nos contentar nem negociar nem aceitar qualquer “pelo menos”, afinal, não queremos nada em excesso, mas apenas o que nos é de direito. E é muito sangue derramado para não nos causar absoluto horror a sermos nivelados por baixo e silenciados com pequenos e insuficientes agrados. Na novela não pode ser suficiente que sejamos retratados de maneira jocosa, com desdém e agressões, por “pelo menos” estarmos lá. Basta. Disso tivemos muito até o momento, agora queremos mais, queremos seriedade na abordagem de tantas pessoas tão diferentes que somos e na abordagem de tudo que temos de enfrentar diariamente. Sim, eu acredito que devemos comemorar cada pequena vitória, mas ainda mais que não devemos aceitar migalhas. Jamais.

@ivonepita

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6 comentários

  1. Olá, Ivone.
    Fui ficando com o coração pequenino ao ler seu texto: porque concordo.
    Me revolto² com o preconceito que ainda existe entre nós, me revolto com o conformismo e a síndrome de vira-latas que servem bem ao discurso do ódio travestido em tantos personagens…

    Sabemos da dificuldade (enorme) que há em despertar a empatia, em arrancar as pessoas em geral de seus umbigos e seus achismos para enxergar outro mundo, um mundo onde a cidadania das pessoas é devastada em elementos dos mais básicos. Esse “pelo menos” é uma temeridade, pois joga areia nos olhos de quem já é cego; areia que é retirada do fosso da marginalização, que fica mais fundo.

    Um exemplo bem comum e não menos triste dessa cegueira seletiva:
    Durante uma conversa despretensiosa que tive recentemente, ouvi a afirmação de que o romance entre duas pessoas do mesmo sexo resume-se a “um par e não casal”, pois “casal é homem e mulher”. Assim, tão natural como quando comentamos “nossa, já é domingo amanhã, né?”, reduzindo e empobrecendo o conceito de “casal” à condição biológica de macho e fêmea, dissociado então de afeto, compromisso, respeito, tesão e tudo o mais.

    Inspirei, com a agulha atravessando, ciente de que é melhor esclarecer que devolver a violência com a mesma bordoada – esclarecer e talvez calar um preconceito, multiplicando nossas vozes.
    (…)
    Então, pra comentar apenas um dos exemplos a que você fez referência, dizer que “pelo menos saiu o reconhecimento da união estável” é estúpido!, pois é consentir que somos “pares” (ou páreas!).

    Muito pertinente o seu puxão de orelha.

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  2. Muito bom, somos iguais e temos direitos como todos. Acredito muito que um dia, não muito longe, por mérito de lutadores como você, Ivone, a sociedade compreenderá de forma muito mais completa os diversos!! Beijos, te admiro.

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  3. Acho muito engraçado que na hora de cobrarem e receberem os impostos das pessoas LGBTs, os governantes não os colocam como “diferentes” nem ” inferiores”, cobram como cobram de todo cidadão, na hora de reconhecer seus direitos de cidadãos, deixam de considerá-los como tais. Isso é revoltante, é nojento e não tem possibilidade de um “pelo menos” fazer qualquer sentido aqui.

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