Sejamos sem noção

ImagemHoje, dia das crianças, enquanto participava de uma reunião de discussões muito sérias e depois na volta para casa, que fiz a pé por mais de uma hora, fiquei pensando no tanto de coisa que tenho para resolver em meu cotidiano e depois passei a lembrar dos problemas todos que eu tinha quando criança. Os dois dentes da frente quebrados, a queda de uma árvore, o joelho todo ralado e ensanguentado, os pontos no queixo, o rasgo na perna, nada disso era problema meu, mas dos meus pais. Problema mesmo era cair do balanço só por andar no mais alto e com as costas no assento e as pernas para cima ou o galho da árvore estar podre, ou aquela meia-dúzia de cajás colhidos diretamente na fonte e devorados imediatamente estarem verdes.  E havia ainda questões maiores.

O portal da porta nunca era suficiente para o tanto que eu queria subir com um pé de cada lado e nem eu tentando com as costas de um lado e os dois pés do outro. As esculturas em terra molhada, postas para secar ao sol, jamais ficavam intactas por mais de um ou dois dias. Ah… cada obra de arte tão efêmera! Os corrimãos descidos todos em altíssima velocidade sob o olhar angustiado dos adultos jamais foram longos o suficiente para fazer a viagem tão emocionante durar mais que alguns segundos. E o mais angustiante de todos os problemas: o tamanho do barbante. Nenhum deles jamais me permitiu alcançar nuvem alguma com meus lindos balões coloridos.

Obviamente havia os problemas sérios. Não para mim, mas para meus pais. O cotidiano era difícil, de muito trabalho, pouco dinheiro, três filhos e tantas outras dificuldades e incertezas, mas fomos protegidos de tudo isso na medida e da forma como puderam nos proteger. Hoje, adulta, sou imensuravelmente grata por cada vez que meu pai ou minha mãe abandonou o que estava fazendo para brincar comigo, para me levar em algum lugar, cada sacrifício que fizeram para me dar um brinquedo ou um livro. Sou incalculavelmente grata por toda proteção, cuidado e amor. Por cada brincadeira inventada, por cada lição ensinada. E talvez em grande parte por tudo isso é que consigo e faço questão de manter bem viva em mim uma leveza e uma bobeira incuráveis. E o que há de mais imemorial em nós, toda a delicadeza e ânimo anteriores a todas as coisas que aos poucos foram nos assolando durante a vida, é o que desejo que cada pessoa preserve e acione em seu cotidiano.

Que possamos sempre estar confortáveis com nós mesmos, com nossos corpos, nossos jeitos, nossos modos, nossa aparência, nossos cabelos. Que a criança que fomos seja mantida em nós para sempre nos preservar no tempo anterior a nos dizerem o que podíamos ou não fazer e o que era feio ou bonito, reprovável ou aceitável. Antes de nos dizerem o que poderíamos ser, ter ou fazer. E que não tenhamos vergonha de dizer apenas que não sabemos, não vimos, não conhecemos e nenhum receio de pedir: me ensine.

Que sejamos livres para nos permitir pular no meio da rua, sorrir livremente, gargalhar descontroladamente, dar boas risadas de qualquer besteira. Que a gente cante, e cante alto! Que a gente brinque, implique, seja arteira! Que a gente apronte todas! Que a gente nunca deixe de ter os sonhos considerados mais impossíveis e loucos, que a gente ame sem medo, que se entregue sem reservas, que sempre diga o que sente, que fale abertamente, sem subterfúgios, sem mascarar intenções. Que tenhamos sempre brilho nos olhos. Que a gente se permita os cabelos ao vento, eventuais banhos de chuva. Que a gente sempre olhe para a lua. Que sempre sejam descobertas coisas novas, e que não tenhamos medo de nos deslumbrarmos com pessoas e nenhum receio de encantamentos. Que não tenhamos medo algum de todo e qualquer mergulho. Que a gente se entregue total e verdadeiramente em um abraço.

Que tenhamos um lindo, intenso e leve modo de amar a vida. E que sejamos sem noção. Sem noção de amargura, de fracasso, de vergonha, de inibição, de medo, de auto-reprovação. Saibamos manter e preservar o fantástico mundo colorido de nossa primeira infância, antes de qualquer culpa, dor ou reservas, aquela em que tudo era surpresa, alegria, novidade e leveza. Sejamos fantásticos.

@ivonepita

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10 comentários

  1. Isso me trouxe uma nostalgia! E geralmente, as pessoas costumam gostar da sensação nostálgica que alguns textos trazem, mas isso pra mim significa que eu sinto falta de algo que não tenho mais (e que desejo ter novamente). Geralmente temos plena consciência de que essas coisas infelizmente não voltarão, mas a breve sensação de que isso veio de volta num “sopro” torna isso mais aceitável. Texto incrível!

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  2. Me fez muito bem ler essas palavras, me identifiquei muito, até me emocionei.
    Desejos de sinceridade juvenil.
    Adorei.

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  3. Que lindo, Ivone Pita….Difícil, mas a gente deve sempre tentar manter as fantásticas cores da infância (não vou nem falar que me emocionei, rsrsrs). Obrigada, minha querida, por nos presentear com seus textos, que tocam lá no fundo dos nossos corações. <3

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  4. Acho que este foi o texto mais doce que eu li sobre o dia das crianças. Me fez lembrar de como eu costumava “esquecer” propositalmente de fazer a lição de casa pra poder brincar mais… Hoje em dia não consigo nem dormir se tiver deixado de lado uma obrigação.

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