Parada obrigatória

ImagemEm todos os cantos ouvimos e lemos várias críticas – e nada construtivas – sobre o caráter festivo do maior evento LGBT do Brasil. Quantidade não é qualidade. As pessoas só dançam e se embebedam. Apenas beijam na boca. Virou apenas uma festa. A luta pela causa se perdeu. Ninguém lembra mais dos nossos direitos. Tudo bem que há visibilidade, que mostramos que somos muitos, mas isso é pouco! As pessoas vão lá e se comportam como se a parada fosse apenas uma grande festa, um grande carnaval fora de época. E para a parada ter algum resultado positivo, ela tem que ser um palanque para nossas reivindicações e não um palco onde todo mundo sobe e aparece dançando, cantando e com roupas extravagantes ou quase sem roupa. A Parada ficou apolítica! A Parada é puro comércio! A Parada é pura hipocrisia! Como se não se comportar de acordo com regras pré-definidas fosse hipocrisia. Ser hipócrita é fingir ser o que não é, é aparentar sentimentos nobres, mas exercer e difundir outros bem diferentes, é se dizer muito compreensivo e tolerante, mas não aceitar e ainda rechaçar qualquer um que seja diferente. As pessoas que vão à Parada são justamente o oposto disso: mostram quem e como são, agem como querem e assumem seus desejos. Hipócritas são os outros, não nós, nós somos legítimos e corajosos. Não ficamos confinados em guetos, não contamos com permissão ou complacência. Somos de carne e osso, somos seres humanos, somos reais e não há como nos ignorar, nem encarcerar em espaços de invisibilidade. Mostramos que somos muitos, que somos cidadãos.

Alguns reclamam sobre a Parada não ser mais séria como um dia foi, em evidente saudosismo ilusório sobre algo que nunca viram, pois a Parada sempre incomodou, sempre foi condenada e desqualificada. Acredito que muita gente vê a Parada apenas através de um recorte moralista. No entanto, nas maiores Paradas do país, há recolhimento de assinaturas para petições, grupos protestando, com uso de roupas brancas ou pretas, discursos em palanques, distribuição de panfletos educativos, faixas, cartazes etc. Mas boa parte disso não aparece em jornais e TV. Muito menos nos discursos inflamados de nossos algozes. Portanto, precisamos pensar sobre como construímos nosso olhar – como olhamos e para o que olhamos. A Parada reúne tanta gente e tanta atividade diversa e os olhos veem apenas sexo e o que rotulam “baixaria”? Por que alguns olhos veem somente o que consideram imoral? Por que razão reduzem tudo a um único recorte moralizante? E não é possível se alinhar ao discurso da boa moral e bons costumes, quando são estes os alicerces do sexismo, do machismo, da homofobia e da transfobia. Mesmo a visibilidade trazida pela Parada, seu objetivo inicial e principal, é condenada por muitos como algo ruim. Ora, a visibilidade trazida pela Parada é ruim ou ruim é o olhar que alguns lançam sobre ela? O que não considero nada bom é a tentativa de controlar as pessoas e por isso prefiro não me alinhar à gente reguladora de corpos e modos.

O que precisamos entender é que a Parada não é marcha nem passeata, ela não cabe em si mesma, a maneira marcante de protesto da Parada é a alegria, a liberação. E se nas marchas e passeatas não comparece tanta gente como em uma Parada como a de São Paulo, eu nem vejo por que razão estabelecer este tipo de comparação, pois é totalmente arbitrário, pois são três eventos de características bem diferentes. E um evento não exclui nem diminui o outro. E que mesmo a monetização da Parada e outras formas de controle presentes não conseguem consegue impor apenas um caráter utilitário ao evento, como querem alguns, justamente por  não haver controle eficaz sobre sua verve festiva e transgressora. Considero um exagero e um equívoco achar que é esta ou aquela roupa, este ou aquele comportamento que faz com que muitos nos condenem. Não é, é o simples fato de existirmos. Para alguns somos toleráveis somente se em silêncio e invisíveis, e a Parada grita e acena que estamos aqui e temos corpo, cara, voz, vida, identidade, sexualidade.  A Parada é a nossa cara! Somos nós que lhe damos forma. Portanto, se você gosta da Parada, não deixe de comparecer! Se você não gosta da Parada, compareça!

@ivonepita

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