Homonormatividade. Porque gay também é limpinho

Não, não é heteronormatividade, você não leu errado no título, é homonormatividade mesmo. Não é uma questão de se portar de um jeito a ser aceito pelos heterossexuais, mas o fato de que muitos gays sabem exatamente como todos os outros deveriam ser e se comportar. Impressiona a fórmula pronta, a estética fechada, a educação universal. Gay tem que ser viado, bicha nunca. Lésbica sim, sapatão jamais. Viado é jovem, atlético ou, no mínimo, com o corpo bem cuidado – em forma, pois viado que se preza sempre frequenta academia. Viado é educado, não usa palavras de baixo calão, não fala baixaria, não faz saliências em local público, não beija a boca de vários, não é promíscuo. Viado não tem voz fina, não tem trejeitos, não é caricato, não é espalhafatoso, não é chegado a bizarrices. E em bizarrices encontramos de tudo: ser “afeminado”, vestir-se de mulher, por seios, por silicone, pintar unhas, usar maquiagem, gostar de salto alto, ser transgênero e tudo o mais que fuja à imagem de um homem gay “equilibrado”. E o mesmo para as lésbicas. Lésbica também é pura feminilidade, não é como um sapatão. Sapatão parece homem, não cuida das unhas nem do cabelo, não usa saia nem vestido, é agressiva, não é delicada como uma mulher. Fala com voz grossa, anda de um jeito pesado, é uma figura caricata. E o que dizer quando é trans? Gente que retira ou põe seios e pênis. Tudo muito estranho.

Mas deveria existir um padrão de comportamento gay? E quem não se enquadrasse, deveria ser considerado inadequado? Ora, em todos os grupos sociais, existe todo tipo de pessoa. Por que com gays deveria ser diferente? Isso é mais uma pecha jogada em nossos ombros que não nos cabe. Esse é mais um discurso opressor que devemos tomar cuidado para não internalizar. Quem nos oprime é que usa isso: essa moral única, essa normatividade, estes tais valores que são ditos e tratados como se fossem universais: isso pode, aquilo não, pode agir assim, daquele outro jeito não, pode se vestir assim, daquela forma, não. Considero muitíssimo lamentável esses julgamentos sobre o jeito “do outro”, quando a própria pessoa não tem controle sobre seu próprio gestual. Ela apenas é o que é – nos gestos, no modo de andar, na voz, no jeito de falar etc. e, com certeza absoluta, seus modos e suas falas são absolutamente reprováveis por outros – também se enquadram em um estereótipo. Todos nós nos enquadramos. E todos somos achincalhados por outro grupo social, ainda que não saibamos.  Mas quando é conosco, queremos que compreendam que é apenas o que somos. Então, por que quando é com o outro quero que ele se “endireite”? Este não é o justamente o discurso de quem nos oprime? Defender ideias conservadoras e moralistas, ditando um padrão de comportamento idealizado, serve apenas para promover a exclusão de quem não se enquadra. E o que nós sofremos com a heteronormatividade senão exigências, pressões e desqualificações para que vivamos limitados a determinadas regras de conduta social? Um moralismo tosco que estigmatiza e marginaliza, sem respeitar diferenças? Então, excluídos que somos também seremos agentes de exclusão? E de nossos próprios pares? Eu tento não ser, pois, afinal, não é por diversidade que lutamos? Pelo respeito às diferenças?

Quem considera se esta ou aquela postura ou linguagem é chula são os conservadores, os moralistas, que dizem o que é certo ou errado, como as pessoas devem ou não se comportar, como se houvesse uma moral única, imutável e unânime, inclusive, são os mesmos que não reconhecem pessoas trans, o que dizem as razões para que tais pessoas não devessem existir. Portanto, sim, é reprodução do discurso opressor, mas frente a outro grupo. E devemos tomar muito cuidado para não assimilarmos o discurso opressor nem resquícios dele, pois chulo mesmo é ser preconceituoso quando se é alvo de preconceitos. Chula é a linguagem que exclui, que estigmatiza, que rotula, que aparta. Chulos são os gestos de exclusão, de agressão. Escandalosos são os crimes cometidos contra nós. Escandalosas são as agressões que sofremos e nossas cidadanias diminuídas. Escandaloso é ter nossos direitos usurpados. Chulos e escandalosamente imorais são aqueles que querem nos manter invisíveis e à margem da sociedade que cotidianamente também ajudamos a construir e manter, nos relegando a ter somente todos os deveres, mas não todos os direitos. O restante é diversidade. Apenas diversidade. A questão é saber olhar e respeitar o diverso, ainda que não o compreendamos, assim como queremos que nos vejam e nos respeitem.  

@ivonepita

Anúncios

12 comentários

  1. O texto é excelente e ouso dizer que se com os homossexuais a imposição heteronormativa é evidente e brutal, mas ela não deixa de ocorrer entre os próprios heterossexuais para taxar este ou aquele de acordo com a ideologia que mais silenciosamente perpetra nosso arcabouço cultural: o machismo. É ele também quem impõe aos homossexuais o imperativo da postura de “macho” e fêmea” que torne a homossexualidade socialmente “aceitável”. Acredito que enquanto esse cancro não for extirpado do nosso meio, não haverá diversidade que possa existir livre dessas tentativas de normatização.

    Curtir

  2. Texto excelente!! Direto, assertivo e necessário. Obrigada querida Ivone por mais essa contribuição na nossa luta contra heteronormatividade compulsória!! Parabéns! beijoss

    Curtir

  3. Achei incrível o texto, Ivone, parabéns!
    mas ainda acho que se trata da heteronormatividade. Como você mesma aponta ” Viado é educado, não usa palavras de baixo calão, não fala baixaria, não faz saliências em local público, não beija a boca de vários, não é promíscuo. Viado não tem voz fina, não tem trejeitos, não é caricato, não é espalhafatoso, não é chegado a bizarrices.” Logo, o gay que corresponde a tudo isso “positivamente”, é lido como o homem, o hétero. Daqueles que as pessoas comentam “Nossa, mas vc nem parece gay” O que dá no mesmo para a lésbica. Ela toda feminina e etcs…. é lida como mulher, como hétero. A busca é sempre por isso, pra se encaixar nessa caixinha heteronormativa como forma de buscar um suposto respeito que se adquire quando vc faz parte dela. Ademais, seu texto exemplifica muita coisa que acontece e que as pessoas fingem não ver.
    Beijas

    Curtir

  4. Olá! meu nome é LucasRenato e sou moderador do blog “lordgaygay.blogspot.com”. Gostaria primeiramente de parabenizá-los pelo conteúdo do blog “https://ivonepita.wordpress.com/”, pois gostei bastante e acabei me tornando um leitor periódico do mesmo :)
    E em segundo lugar gostaria de propor uma parceria entre nossos blogs, visto que os dois tem bastante compatibilidade entre seus temas, como a informação sobre gênero e sexualidades, inclusão da classe LGBT na sociedade através da fragmentação de estigmas, dentre outros.

    O “LordGayGay” não possui fins lucrativos nem vínculo com qualquer instituição. Seu maior propósito é divulgar o conhecimento relativo a classe LGBT, identidade de gênero e sexualidade às pessoas em geral. Tem classificação livre para todos os públicos e todo o conteúdo disponibilizado é de distribuição gratuita e possui referência do lugar de origem.

    Dentre os conteúdos postados posso destacar: vídeos de documentários, reportagens, entrevistas, debates, filmes, humor, imagens temáticas, textos escritos por mim (ultimamente não tenho escrito tanto devido meus compromissos na faculdade), informações e materiais que considero essenciais para o conhecimento dos LGBT, informações adicionais, pesquisas, dentre outros.

    Creio que poderemos aumentar nossos usuários por meio desta parceria e nos manter informados a respeito das postagens um do outro e estarmos sempre atualizados ;)
    Espero que aceite minha proposta. Em caso positivo, meu e-mail é “lordgaygay@hotmail.com”.

    Atenciosamente.

    Curtir

  5. Parabéns pelo texto Ivone. Fica bastante claro que quando vivemos sob padrões socialmente impostos e sob maneiras consideradas “corretas” de viver que seguem uma ideologia sócio-econômica bem delimitada nós perdemos muito, nos escondemos sob máscaras e não temos coragem de nos revelar por inteiro, só continuamos reproduzindo, reproduzindo e reproduzindo!

    Curtir

  6. Muito bacana sua reflexão… traz inquietudes que também me afetam… somos seres humanos e ponto! A todo momento somos pressionados a enquadrar as pessoas. A normalidade é anormal e deforma o que há de mais especial: as diferenças e suas facetas!

    Curtir

  7. Seu artigo deveria ser usado como REGIMENTO DE NORMATIVA GAY! rs
    Perfeito nas colocações e na forma de abordar os juízes dos costumes!!! Como dizia alguém especial “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.”

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s