O orgulho como necessidade

o-orgulho-como-necessidadeVez ou outra há discussões acaloradas sobre as razões para se ter orgulho e em que isso consiste, com boa parcela dos próprios LGBT reproduzindo o discurso de quem nos desqualifica e ataca, dizendo que não há por que nos orgulharmos de algo que apenas somos, que orgulho devemos ter apenas do que conquistamos por esforço, como uma carreira de sucesso ou a superação de um desafio ou uma dificuldade. Ora, mesmo com este argumento teríamos muito orgulho a celebrar, por termos coragem de sermos quem somos, por nossas conquistas, por nossa força cotidiana, por nossa história, por nossa luta. Uma trajetória de enfrentamentos pontuais, diários, individuais, coletivos, de toda uma gente, todo um grupo social a que foram impostos estigmas de pervertidos sexuais, de desequilibrados mentais, de criminosos e que ainda assim, apesar de toda a pecha de párias sociais e degenerados morais, vem conseguindo vencer a marginalização.

Orgulho é um termo que pode ser usado de forma positiva ou negativa e com a intenção de nos desqualificar muitos apelam para o sentido ruim, como se fosse soberba celebrarmos nossa dignidade. Celebramos nosso orgulho, não no sentido de vaidade, como um excesso que nos ensinam a reprimir, mas no sentido de brio. E brio significa dignidade pessoal, significa coragem, significa amor-próprio. Ser digno significa ser merecedor. Portanto, celebrar o Dia do Orgulho LGBT é celebrar nossa coragem, é comemorar nosso amor-próprio e afirmar que, apesar dos cerceamentos e desqualificações, somos merecedores de uma existência plena.  E a tentativa de nos imputar vergonha é a forma de destruir este orgulho. O discurso da vergonha nos é imposto desde sempre, o discurso da inferioridade, da marginalização, da vida que deu errado, do desajuste, da anormalidade, como tentativa de controle. Portanto, não é de se estranhar que as pessoas que sempre lucraram ou sempre viveram em paz com nossa subserviência, com nossa ânsia por ajuste, por aceitação através de adequação, façam o possível para nos desqualificar, para nos jogar novamente no lugar de vergonha e sem poupar esforços. Não toleram nossa superação, nossa saída da vergonha para o orgulho, da invisibilidade para a visibilidade, da anormalidade para o comum, da marginalidade para o convívio social livre de amarras e estigmas.

Ter orgulho de ser quem se é, da própria inserção e atuação no mundo, frente à vida e a outros seres humanos, é um reconhecimento que qualquer pessoa merece e deve conferir a si mesma, como fortalecimento e motivação para seguir em frente.  E os que nos querem infringir vergonha não nos querem nem fortes nem avançando em nossas conquistas. Esforçam-se para nos impor a pecha de indignidade, nos rotulando de imorais, obscenos, infames e desonrosos. Intentam destruir nossa dignidade pessoal e a dignidade de todo o nosso grupo social, através de insultos, de exposição difamatória, de ataque a vulnerabilidades e de tentativas de nos tornar perniciosos socialmente e também ridículos. Estratégia para nos oprimir, agredir e apartar. E é desta forma que muitos LGBTs internalizam vergonha e culpa, condenando não somente a si, mas também seus semelhantes. E daí a imensa e fundamental importância de exercitarmos nosso orgulho sempre, em todos os espaços e de toda forma que pudermos, pois o exercício de orgulho é uma ação positiva, é ato político, uma afirmação de nossa existência, de nossas conquistas e de nossa resistência. Embora sejamos um grupo tão estigmatizado socialmente e com direitos civis básicos diminuídos, resistimos e avançamos. O sentimento de orgulho é essencial para fortalecer nossa caminhada e para dizermos a quem ainda sucumbe a ataques diversos, que podemos ser quem somos com dignidade, alegria e com uma vida plena, e que não há nada de errado em sermos nós mesmos. Portanto, tenhamos orgulho de nós, de nossa força, de nossas conquistas individuais ou coletivas. Se ainda somos muito marginalizados também deixamos muito de ser. E isso se deve a luta diária de cada pessoa e ao exercício de nosso orgulho, nossa dignidade.

Tenhamos orgulho de cada manifestação pública, de cada conquista, não somente jurídica, mas também social, de pessoas, de gestos, de ideias, de cada expressão espontânea e livre do próprio corpo, da própria sexualidade, dos desejos e do amor. Tenhamos orgulho e não vergonha. Estejamos prontos e abertos a dignificar e perceber enfretamentos e desafios a normas e amarras sociais e jamais a apontar e condenar. Basta-nos o que fazem conosco. Se não nos compreendem, não aceitam, não respeitam, nos julgam e condenam, não façamos o mesmo com nossos pares. Ainda que nos fuja a compreensão sobre suas ações e expressões de liberdade e protesto, saibamos aceitar, respeitar e não condenar. Sejamos solidários, generosos e parceiros legítimos de luta por respeito às diversidades e individualidades. Tenhamos orgulho de cada militante que vai às ruas e de cada militante que de sua casa ou trabalho compartilha informações, tenhamos orgulho de militantes que lutam há décadas por igualdade e respeito e de militantes que começaram ontem a impor suas vozes acima da opressão cotidiana, tenhamos orgulho de militantes que compreendem que nossa luta por igualdade não está isolada dos demais grupos discriminados e não se esquecem deles. Tenhamos orgulho dos militantes que mesmo não tendo total compreensão sobre demandas alheias, se esforçam por entendê-las e têm absoluto respeito por elas. Tenhamos orgulho de nós!

@ivonepita

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12 comentários

  1. Ivone,sempre a sua disposição.Muito obrigada pelo texto,atitudes e postura diante da vida,
    do Mundo e de nós mesmos.

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  2. Tenhamos orgulho de tudo que nos representa enquanto pessoas que somos e por tudo que escolhemos ser e ousamos ser. )0(

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