Os gays provocam muito. Seja lésbica, viado, travesti ou transexual, a verdade é uma só: gays provocam demais. Riem alto demais, dançam demais, gostam de música demais, lançam moda demais, querem afeto demais, amar demais, trepar demais, serem felizes demais! Eles querem até os mesmos direitos que heterossexuais! Onde já se viu tamanha afronta! Este gays querem ficar por aí, andando, amando e constituindo família livremente e não entendem como isso é ofensivo? Será que não entendem como isso é um ataque frontal à verdade absoluta da heterossexualidade como única existência possível e saudável? Já não basta poderem trabalhar, estudar, andar pela rua, além disso, pretendem se envolver em política, modificar leis? Ainda querem ficar livres para demonstrações públicas de afeto? Querem ser considerados normais como outra pessoa qualquer? Ora, todos sabem que assim, não é possível, assim, não pode ser.
Se uma pessoa mata um viado, certamente o viado teve sua parcela de culpa. Deve ter provocado, deve ter cantado o sujeito decente que o matou, deve ter lhe lançado um olhar abusado. Alguma coisa este viado deve ter feito. Com homens heterossexuais é diferente. Nenhuma mulher vai matar um cara somente por ele ter dado em cima dela, passado a mão pela cintura, puxado o cabelo, passado uma cantada daquelas ou ter lhe sussurrado umas sacanagens gostosas. Claro que não, pois neste caso é normal. A mulher que agredir o homem é louca, claro, merece cadeia. O que tem demais em levar só uma cantadinha ou uma agarradinha? Poxa, tem que ficar lisonjeada… Com viado, não, viado tem que saber o seu lugar, tem que ficar quieto. Que negócio é esse de me expor deste jeito? E se pensarem que o camarada que levou a cantada é viado também? Mulher não, se levar uma boa passada de braço pela cintura e lhe tacarmos um beijo roubado, poxa, é só um beijinho. Não acho que seja tratá-la como objeto, bom, só se for objeto do desejo e aí é uma coisa boa.
O cara tem 18 anos, vai para uma boate, beija na boca e vai logo para cama com um desconhecido, morre com uma facada e todos ficam com pena dele? Mas quem mandou levar o cara para casa? Coisa de viado burro. Com 50 anos? Aí então é coisa de viado carente. Sapatão? Aposto que estava na seca, aí achou outro sapatão doido que lhe enfiou uma faca. O viado que morreu era pobre? Então estava dando um golpe. Era rico? Então estava com um garoto de programa. Algum risco absurdo e desnecessário este viado correu sem necessidade alguma. Ah, se pegou na rua, então, porra, quem mandou estar se prostituindo? Agora morreu de jeito violento. Talvez se não se prostituisse, talvez se não levasse ninguém para sua casa, se não fosse para um motel, se não namorasse, se não trepasse, se não beijasse na boca, se não cismasse em ser feliz, se não fosse gay! Isso é o que dá esta necessidade de ficarem vivendo livremente e fazendo o que bem entendem como se fossem pessoas normais.
E quando é “aquela mulher de saia curta e top que estava andando naquela rua, naquela hora” e foi estuprada? O que dizem algumas pessoas, senão também que a vítima não deveria estar vestida daquele jeito, nem naquele lugar, muito menos naquela hora? É notório e não sem razão que quando se trata de LGBT ou de mulher cis e heterossexual, a vítima, se não recebe toda a culpa, recebe parte dela. No entanto, o que mais fere é ver pessoas da própria comunidade LGBT e mulheres cis heterossexuais culpando a vítima, numa deprimente a auto-sabotadora reprodução dos discursos e práticas de nossos próprios algozes. Por que razão coisas como irresponsabilidade, inconseqüência, falta de amor-próprio, carência e descontrole são sempre atribuídos a quem sofreu o crime e não a quem cometeu? Pense bem.
E quando você fica sabendo de um caso de assassinato ou outra forma de violência, envolvendo uma mulher cis heterossexual ou uma pessoa LGBT, como você olha para esta história? O que você deduz e a partir do que? Você tem informações suficientes sobre a vida dos envolvidos? Sobre o envolvimento de ambos? E ainda que você acredite ter boas informações sobre tudo isso, estará certo do que realmente houve? Mais do que isso: como se dá sua interpretação dos fatos? Sob que prisma você analisa o ocorrido? Será que não há resquícios dos discursos e das práticas sexistas, machistas e homotransfóbicos a que somos submetidos todos os dias? Será que não absorvemos e reproduzimos parte da postura de nossos próprios algozes? E quando é um caso de violência entre pessoas cis e heterossexuais, qual é a reação da imprensa, da população em geral e de nós mesmos? Pense sobre isso, pois não se trata apenas de mim, de você e de nossas ações, mas do discurso inferiorizante que nos infligem a todo o momento e que não podemos de forma alguma reproduzir, pois de nada adianta lutarmos e irmos às ruas por orgulho, respeito e dignidade se carregarmos nossos algozes dentro de nós. É preciso urgentemente romper estas amarras!
@ivonepita

Nossa, Ivone, como seu texto flui! É como se eu estivesse ouvindo você falando… aqui, na minha frente! Agora, falando da essência da conversa…rsrs…é sempre ”saudável e natural”, para os heteronarmativos (não simpatizo com esse termo), que a culpa recaia sobre a vítima. Ser hétero, e ”passar” uma cantadinha ou ”qualquer outra coisa” na vítima, é válido. É elogio. Agora, se um de nós, apenas olharmos para um hétero homofóbico, e ele se sentir incomodado, ele tem direito de nos agredir, ou coisa pior, e a culpa ainda será nossa?! Será que eu ainda vou viver, para ver um caso de estupro, agressão ou assassinato ser tratado com imparcialidade! Ou é melhor dizer, com justiça!?
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Gelson, obrigada! Bacana demais vc me dizer que parecia que eu estava aí na sua frente falando com vc! rsrs Quanto ao restante, concordo com tudo e esperamos e lutamos juntos por um mundo mais justo e igualitário. ;)
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Eu pensei: Viu dar uma passada de olho nesse texto da Ivone, quando vi já estava terminando de ler. Parabéns, mais uma vez adorei. Bjos!
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Obrigada, Edimar! Vc sempre um querido apoiando tanto minhas ações! =)
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Muito Bom o texto….em um mundo cheio de preconceito as vitimas geralmente são criminalizadas. e hora de dizer basta a estes tipos de desculpas para agredir. assim como dizer basta a “liberdade” de agressão. parabéns Ivone
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Eu não poderia concordar mais, Lucio! Basta! Obrigada por seu comentário. =)
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Gostei bastante Ivone, principalmente da construção da voz do algoz no começo do texto tentando justificar seus preconceitos e conceitos errados, misturados e totalmente confusos sobre pessoas cis, pessoas trans, sexualidades etc e aí no fim você assume a fala e retoma as questões não só pela ótica nossa, pessoas LGBTTs às pessoas de fora, mas também para dentro do próprio movimento que tanto ajuda a perpetuar tais falas, machismos, e até o próprio peso da heteronormatividade.
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Obrigada, Lena! Fico muito feliz que vc tenha gostado! =)
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Eu gostei bastante do seu texto, mas tenho uma dúvida: você escreveu “gays” no início pra designar pessoas não-hétero cis e trans*. Você fez isso de forma irônica pra falar como uma pessoa cis e hétero (no caso, a que culpabiliza vítimas)?
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Obrigada. E, sim, os dois primeiros parágrafos são inteiramente uma fala preconceituosa e confusa, fazendo alusão a tantas que ouvimos por aí, que só se desfaz totalmente no quarto parágrafo.
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Ah, sim, perfeito. Ficou ótimo, menine c:
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É isso aí fofosa a luta continua!”
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Obrigada, Raquel.
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Excelente.
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Obrigada, Rita.
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show!
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Obrigada, Luis Eduardo!
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Texto FANTASTICO! (Desculpe o grito, é que viado grita demais).
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hahahahaahahahaha Né? Obrigada, Emanuel, pelo comentário e que ainda me fez dar uma boa risada! =)
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