Lésbicas: orgulho e visibilidade

Imagem

Somos lésbicas. Somos mulheres que vivem sem homens em um mundo machista e de mentalidade patriarcal. Somos mulheres que subvertem a ordem do sexo frágil, da dependência e da subserviência. Somos mulheres que não seguem o “manual de boas práticas femininas”, que dita modos de vestir, de agir, de falar, de ser e estar no mundo. Somos revolucionárias na acepção própria da palavra: fazemos uma transformação radical na estrutura da sociedade. Estamos onde supostamente mulheres não deveriam estar. É ainda espantoso para muitos, por exemplo, aceitar que duas mulheres possam viver sem um homem. Como vão resolver tarefas cotidianas tidas como masculinas? Não irá lhes faltar força? Jeito? Tino? Há ainda as tentativas de ridicularizar, diminuir e não reconhecer nossa sexualidade. Há uma desqualificação fálica de nosso sexo. Para machistas de carteirinha – e uniforme completo! – lésbicas não trepam de verdade, apenas brincam de se esfregar. Sim, meninas, como se fosse pouco e somente o que fizéssemos. Mas a despeito das agressões e desqualificações, seguimos subvertendo a ordem, desconstruindo certezas e quebrando o que estaria estratificado.

Entretanto, sem orgulho, nada disso é possível. Sem orgulho, nos encolhemos, nos escondemos, deixamos a vida passar. Sem orgulho, não nos fazemos visíveis e sem visibilidade é como se não existíssemos. E, assim, nenhuma revolução acontece, nenhuma revolução é possível. E sem visibilidade não promovemos o orgulho. Somente a partir do momento em que nos tornamos visíveis por sermos nós mesmas, é que somos plenamente orgulhosas de sermos quem somos.  E para isso é preciso coragem, muita coragem. Vivemos em uma sociedade que insiste em dizer qual é o lugar da mulher, como deve ser sua inserção social e como deve se comportar. Sendo lésbica, melhor nem existir, pois não cabemos nos papéis destinados à mulher. E é assim que cotidianamente a sociedade nos diz que deveríamos nos envergonhar de ser quem somos e esconder nosso amor. É assim que a sociedade insiste em nossa invisibilidade, pois o que não se vê não existe, não incomoda, não subverte.

Quando permanecemos invisíveis, contribuímos com a manutenção da discriminação e da violência, motivos pelos quais muitas mulheres optam por uma vida de anulação e silêncio. Contribuímos com a lesbofobia, pois não dizemos ao mundo que estamos em todos os lugares, em todas as profissões, em todas as famílias, em todos os cargos. Não dizemos que somos mães, filhas, avós, tias, irmãs, empregadas domésticas, médicas, advogadas, professoras e toda sorte de representação e inserção social. Não ajudamos outras mulheres a se revelarem, a se assumirem, a serem plenas. Assinalando nossa existência, derrotamos o medo do desconhecido, a discriminação e o ódio alimentado pela perversidade delirante – e nada inocente – de lésbicas destruidoras de família. Existindo publicamente, abordamos questões que nos são específicas e combatemos o sexismo.

A invisibilidade é uma grande violência contra nós  lésbicas. Na mídia, por exemplo, o foco são os homossexuais masculinos. A violência homofóbica é tratada como um fenômeno que atinge somente homens. A violência física a nós mulheres, provocada especificamente por nossa sexualidade, não é mostrada nos jornais, e isso se deve à violência do silenciamento: seja pela invisibilidade auto-imposta, por medo, seja pela falta de estatística específica.  Não temos dados específicos de coisa alguma e são raros os registros de nossa história. E daí a imensa importância do coletivo. Para enfrentar os desafios que nos são apresentados e superar tanta opressão, não há como avançar individualmente, a única forma de alterarmos o ciclo perverso de invisibilidade e descaso é pela união de nossas vozes, de nossa força. A única saída possível é nos organizarmos e lutarmos. E isso depende de cada uma de nós, não de agentes externos. A visibilidade lésbica cotidiana é que derrubará a censura que nos é imposta e o cerceamento de nossos afetos e desejos, portanto, realize algo grandioso: torne-se visível, desafie a opressão e o autoritarismo da heteronormatividade, pois é assim que escreveremos nossa história, uma nova história, e construiremos uma sociedade mais justa, mais solidária, democrática e plural. Nós temos direito à existência, a uma vida completa, à cidadania plena, à visibilidade. Podemos e devemos ser felizes. Plenamente felizes.

@ivonepita

Anúncios

27 comentários

  1. Ivone, do seu ponto de vista, a falta de visibilidade das lésbicas no movimento LGBT e motivo por outros LGBT’s( pelos homens homossexuais) ou isso tem outro fato relacionado a lésbicas?

    Curtir

  2. oi, ivone, … eu fiquei chocada com o seu texto, sou hétero, não tenho nenhum preconceito, não me preocupo com a sexualidade das pessoas…. mas fiquei muito preocupada com as suas colocações pois, não tinha a noção de q exite no mundo de hoje, século XXI, tantos imbecis assim (k pra nós, achava q era só os bíblias), e nem consigo entender pq tanta preocupação com a sexualidade do outro…. daí, esta visão q vc deu de visibilidade, achei importantíssima … conte comigo para divulgar o seu blog, acho tão natural q não me preocupava … alienada realmente!

    Curtir

  3. Nós mulheres estamos tão acostumadas a sermos reprimidas, que acabamos achando normal esconder qualquer coisa que a “sociedade” condene e isso só nos traz uma terrível solidão. Seu texto é inteligente e intrigante, gostaria de ler mais coisas suas.

    Curtir

      1. Amei o texto! Apesar de nao ser lesbica, me encaixei na situação. Basta ter um pensamento diferente do da maioria para sermos criticadas como mulheres. Esse desabafo é para todas as mulheres que pensam a frente da maioria. Que teem como objetivo maior a realização dos sonhos, ou uma carreira profissional próspera, do que um casamento sem perspectivas, e são criticadas por isso. Desabafo contra contra todas as “piadinhas” machistas com aquele fundinho de verdade. Escreva mais!

        Curtir

  4. Ótimo texto, e “tamo junto”, como paulistana que sou, me dei o direito de escrever em gíria paulista, kkk. Tenho compartilhado seus textos por ai, gosto da forma que vc consegue girar em torno dos assuntos, e ao mesmo tempo tocar em pontos tão óbvios, mas tão difíceis de serem notados.

    Curtir

  5. Perfeito, Ivone! Se eu fosse citar tudo que me chamou atenção, colocaria o texto todo rsrs, mas a questão da visibilidade é o ponto crucial, uma lésbica me recriminou por eu compartilhar assuntos LGBT, disse que não é necessário “esfregar” ( o esfregar foi ótimo, como se fosse um assunto abominável) esse assunto todo tempo, mas espera, é isso que os conservadores querem, que as pessoas escondam sua sexualidade. Claro, só quem pode expressar o amor em redes sociais são os héteros. As pessoas têm todo direito de amar, de andar de mãos dadas, de expressar carinho, e o que tem de errado nisso tudo?? E não é só a luta pelo amor, mas a luta contra essa violência assustadora que as lésbicas sofrem, seja ela verbal, psicológica e/ou sexual. O que mais me chocou foi que ouvi isso de uma lésbica, ela parecia querer se punir, ou sei lá o que. Eu não sou lésbica, e por esse motivo, ela se acha cheia da razão, mal sabe ela que está se auto punindo, uma pena e muito triste… E mais uma vez, amei o texto! Abraços, Ivone Pita :)

    Curtir

    1. Obrigada, Sharlenny! Ela está se punindo, se acha errada, recriminável, que o que faz é feio e condenável, uma lástima, mas algo que pode ser superado com o tempo. Vamos torcer! ;)

      Curtir

  6. Fantastic!
    Que a revoluçao seja feita, que as pessoas possas se descontagiar dessa virosa da desinformação e preconceito, sobre tudo que seja por mim, pois não posso ser covarde comigo, não posso me enganar, esconder, e procurar coisas que não me cabem.
    Iv. Ótimas palavras. Besos.

    Curtir

  7. E muitos dizem (eu era um) que as mulheres homossexuais tem mais “sorte”, pois passam por menos situações de constrangimento, violência verbal e física, do que os homens homossexuais.Pois aí está a tal da invisibilidade!Pra frente, queridas! .o/

    Curtir

  8. Você tem toda a razão. Sem orgulho nunca teremos a visibilidade que nos encaminhará a uma verdadeira inserção social. Precisamos trabalhar para ter e aumentar esse orgulho em nossos peitos, mentes e atos quotidianos.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s