Homotransfobia em família: as unhas e a caixa de ferramentas

ImagemEntro em uma loja especializada em produtos para unha e cabelo e uma voz bem alta para que toda a loja ouvisse me chama atenção: “não, ele não gosta de unhas, não! Ele gosta é de ferramentas! Não é fulano? Lá em casa ele tem uma caixa de ferramentas! Eu dei a ele. Não gosta de unhas não, gosta de ferramentas!” Isso gritado para uma criança de talvez pouco mais de dois anos, e, óbvio, para o restante da loja. Fiquei em choque. Fiquei ali, muda, estática, estarrecida, olhando fixamente para aquela cena. Eu estava de costas, mas virei metade do corpo em direção àquela família. O que algum tempo depois me fez pensar como a mulher que falava tão alto não me perguntou o que eu tanto olhava. Passado o choque, fiquei pensando: a preocupação é o que vão pensar sobre o filho dela? Ou ela acredita na ideia de que se a pessoa for criada direito não “vira” transexual e/ou homossexual? E que por isso um menino não pode gostar de esmalte, pois em sua concepção sexista de mundo é coisa de menina? Ou se a criança gostar de caixa de ferramenta isso garante que será um homem cis heterossexual?

Depois foi um turbilhão de sensações e pensamentos. Como será a vida desta criança? Crescerá um homotransfóbico, um machista, um conservador, um reacionário, uma pessoa reprimidíssima, destas que precisam reafirmar o que consideram demonstrações do que definem como masculinidade das formas mais controversas e ridículas? O que a família fará com esta criança? O que causará a ela? E ela, se percebendo homossexual e/ou trans um dia, terá coragem de assumir?  Achei tão triste e dolorosa aquela cena. Não apenas por ser apenas uma pessoinha ainda de tão pouca idade, tão vulnerável e frágil, mas por ser também nossa história. Quem nunca sofreu homofobia e/ou transfobia em família, em maior ou menor grau, de forma explícita ou velada? Quem nunca se viu no meio de questões com saia, tipo de sapato, de corte de cabelo e insistência na história de ter namorado ou namorada? Sabemos bem que este não é um episódio isolado.

Aquela cena me levou a lembranças de pipas não soltadas, de karatê não feito e tantas outras coisas ditas “de menino”, e me lançou nas memórias de todas as obrigatórias aprendizagens e tarefas “de menina”. Fiquei um tempo lembrando a divisão sexista absurda que sofremos desde a idade mais imemorável, o quanto isso nos tolhe, o quanto é opressor, injusto e um forte elemento em nossa própria homotransfobia. E desejei profundamente que cada pessoa entendesse a necessidade de se posicionar, a necessidade de lutar contra algo tão arraigado, tão compulsivamente reproduzido, tão naturalizado que faz com que não seja questionado por tanta gente e que leva tantas outras a desqualificar e agredir as que lutam no sentido contrário.

Como eu gostaria que todas as pessoas procurassem como ajudar na luta contra a discriminação, contra a homofobia e a transfobia e a favor de nossos direitos civis plenos, de nossa cidadania. Como eu gostaria que todas as pessoas prestassem mais atenção ao próprio sexismo, às práticas circundantes e lutassem contra a absurda opressão de expressões de gênero. Como eu gostaria de ver mais gente lutando contra normas tacanhas que ditam regras a nossa expressão individual, a nossos gostos, a nosso modo de ser e estar no mundo. Como eu desejo que as pessoas entendam que não podemos mais permitir agressões e mortes cotidianas. E que a morte não ocorre somente quando física, mas que todos os dias morremos psicológica, emocional, social, amorosa, sexual e identitariamente. E, principalmente, que não se trata somente de mim ou de você, mas também das gentes todas espalhadas por aí e das que ainda estão por vir.

@ivonepita

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2 comentários

  1. É bem por ai.
    E como eu gostaria que me vissem como eu sou e me sinto e não pelo sexo que nasci.
    Quem sabe um dia… Enquanto isso, lutemos!

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    1. Olá, Léo! Pois é, a vida nem ninguém facilita, sabemos. Mas vamos nos agarrando fortemente uns aos outros que tudo fica mais fácil de ser derrotado e as alegrias ficam multiplicadas. ;)

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