Chifres, patas e garras

Não quero sua polidez reluzente
de tão bem educada e delicada
Não quero sua delicadeza fofa
de suavidade acolhedora e indiferente
Quero mesmo é teu verbo violento
de me ferir os olhos e reverberar dolorosamente em meus ouvidos
Quero sua brutalidade em me empurrar para frente ainda que me cause ferida
e tire pedaço destes pés fincados no chão por medo de me arriscar
Se me falta coragem, que seja teu amor a me arremessar para fora do meu lugar
e me fazer andar.

@ivonepita

De quem sinto falta

Não sinto falta da pessoa fofa que se apresenta ao mundo,
sinto falta da pessoa grosseira que mal me deixava falar ao ser contrariada.

Não sinto falta da pessoa que sabe se portar à mesa de acordo com as convenções da boa educação,
sinto falta da pessoa que come um misto-quente em 5 mordidas enquanto fala.

Não sinto falta da pessoa de gosto gastronômico apurado,
sinto falta da pessoa que gosta de mastigar o inusitado.

Não sinto falta da pessoa que sabe se montar de chique e bem arrumada,
sinto falta da pessoa de cabelo todo jogado para trás, molhado pelas mãos umedecidas em bica de torneira.

Não sinto falta da pessoa que tão bem desfila em sapatos finos e delicados,
sinto falta da pessoa saltitante e acelerada sobre tênis coloridos.

Não sinto falta da pessoa que aprecia um bom whisky ou um bom saquê,
sinto falta da pessoa que adorava parar para uma água de coco.

Sinto – e muito – a falta da pessoa que saberia que metade do dito acima é mentira,
pois a verdade mesmo é que sinto saudade de tudo, dela inteira. E assim a carrego na memória.

@ivonepita

Minha buceta grita xavasca.

A gente sabe, tanto se fala e falou sobre isso: bucetas do mundo inteiro são reprimidas, umas mais, outra menos, mas todas sofrem toda sorte de silenciamento, invisibilidade e opressão. Não se pode falar, não se pode ver, não se pode empoderar estas bucetas. Todas devem ser bem comportadas, bem cobertas, bem dispostas a parir não a trepar, a fazer a amor, não a devorar. E bucetas, gente, bucetas devem ter boas medidas: os lábios devem ser assim e assado, o clitóris no lugar, sem se expor. Assim como devem ser suas donas – donas? – devem ser delicadas as bucetas. Imagina aquela buceta exposta, agressiva, com lábios e clitóris avantajados. Para que isso, afinal? Fica feio, praticamente uma afronta. Deve ser desse tipo de buceta que é muito usada. Fica gasta, caída, né? Ou é doença. Ou um tipo de monstruosidade qualquer. Deve ser. Não é possível alguém achar bonita uma buceta exposta. Uma buceta avantajada. Não, não, todas devem ter medidas pequenas, delicadas.

E assim os fiscais de buceta alheia seguem definindo como devem ser as bucetas que carregamos entre as pernas. Assim os fiscais de buceta alheia tem a pachorra de dizer como deve ser o tamanho, o formato e o comportamento de nossas bucetas. Ora, ora, tenho a dizer que “não, obrigada”, “não, não sou obrigada”. Minha buceta é minha e só minha. As formas da minha buceta dizem respeito somente a mim a quem gostar dela, desejá-la, pegá-la com vontade e encher a boca com ela. Então, peguem suas métricas, suas réplicas e tréplicas e devorem-se a si mesmos com elas. Meçam a si mesmos, principalmente, e, por favor, as merdas que fazem, que dizem, que reproduzem, que nos inventam. As escolhas que fazem, as reproduções esdrúxulas que passam adiante. Não adianta dizer que não tem a pretensão de determinar como devem ser nossas medidas e aparências se faz e repassa piadinhas que pretendem ridicularizar estas ou aquelas formas.

Eu realmente não entendo essa necessidade de expor ridicularizando seja lá o que for. Talvez a Maldita Trindade, Freud, Yung e Lacan, consigam. Eu não tenho esta pretensão. Não sei o que se passa na cabeça de alguém, ou que tipo de índole e ânimo tem alguém que se presta a ridicularizar corpos, partes de corpos, modos e comportamentos. Se não gosto, não olho. Se não me agrada, não convivo. Se não me apetece, não como. Simples assim. Daí a determinar o que é belo, o que é feio, o que é ou não desejável, como se todos tivéssemos o mesmo padrão de apreciação, de desejo, de querer, é outra coisa. É tão diferente. E daí a fazer publicações que ridicularizem o que foge a determinado padrão criado por mecanismos que silenciam, excluem e oprimem, vai um abismo. Um abismo de caráter, de humanidade, de empatia.

É essa imposição doida de como deve ser isso e aquilo, até as bucetas, que faz com que muitas mulheres sintam vergonha de ir à praia e perceberem certo volume sob suas roupas. É o que faz muitas delas se arriscarem em cirurgias em busca do que seriam lábios vaginais perfeitos. É o que faz com que muitas não consigam ter uma vida sexual mais livre, mais segura, mais prazerosa. É por isso que me recuso a infantilizar e dessexualizar minha buceta a chamando de pepeca. É por isso que imagino xavasca como uma buceta devoradora. Poderosa. É por isso que minha buceta grita xavasca. E é por isso que minha buceta grita por xavascas, por amá-las e devorá-las: bucetas e xavascas.

@ivonepita

Dentro de mim

Trago dentro de mim uma menina:
arteira, implicante, tagarela, fofa,
maluquinha, paisagista, ceguinha,
Magoo.

Carrego dentro de mim uma pessoinha:
doce, falante, divertida, agitada, atenciosa,
saltitante, entusiasmada, esperta, sorridente
e totalmente fora do carrossel.

Levo dentro de mim uma mulher:
querida, cuidadosa, inteligente, forte,
frágil, estável, generosa, inconstante,
coerente, corajosa, insegura, contraditória,
uma orquídea.

Agita-se dentro de mim uma puta:
sacana, debochada, desbocada, displicente,
leviana, perspicaz, irônica, intensa, narcisista,
egocêntrica, autorreferente, convencida,
sempre tão viva.

Todas se manifestam.
Todas se conflituam.
Todas se harmonizam.
Todas se complementam.

Todas me tocam.
Todas me atravessam.
Todas me desafiam.
Todas me animam.

Todas me habitam.

Em todas elas delicadezas,
sorrisos rasgados, risadas desmedidas,
sutilezas, licenças poéticas,
reações calorosas, fome de mundo,
desejo de vida, conversas randômicas,
humor sem critério.

Cada uma delas é imbecil,
boba, ridícula, besta.

Feliz com tudo.
Feliz por nada.

Em cada uma delas tudo é enormidade,
Tudo é intenso, tudo é inteiro.

Com cada uma delas tenho boas lembranças,
alegrias, desejos, sonhos e planos.

Com todas elas, mesmo sendo tão jacu,
me permito sempre um pouco mais.

Com cada uma delas,
grandes encontros,
caminhos atravessados,
beijos estalados,
abraços apertados,
olhares devassados,
a certeza do afeto,

o pacotinho completo.

@ivonepita

Algo de podre.

Parece que em todo lugar que olhamos aquele bicho que a tudo corrói de forma voraz, insaciável e inescrupulosa está lá: o corrupto. E, praga das pragas, parece se multiplicar sem controle. A podridão corre solta, todos veem: nas câmaras municipais e estaduais, no congresso, em empresas, em negócios de família e até em relações das quais nem desconfiávamos ou em instituições em que deveria ser impensável. É muito difícil não nos desgastarmos a ponto de fugirmos, deixarmos para lá. No entanto, por mais que possa soar estranho aos ouvidos, parecer incomum aos olhos e inacreditável para nossa abalada confiança, há quem faça política, institucionalizada ou não, de outra forma.

Mas esconder, escamotear, desvirtuar as questões importantes e que realmente afetam nossas vidas é tarefa primordial para quem quer se manter no poder, ainda que tenham que mentir ou distorcer fatos, evidências e até mesmo leis. Vejamos, por exemplo, a questão do voto nulo e do voto branco. Desde 1997, votos nulos e brancos não são considerados nas eleições, pois não são votos válidos e, no entanto, há inúmeras e insistentes propagandas, inclusive com grande suporte de marketing, que insistem em divulgar que voto nulo consegue cancelar uma eleição, algo presente no código eleitoral de 1965, como se não tivessem ocorrido alterações posteriores. Pelo forte aparato com que contam tais propagandas enganosas, como sites, blogs e propagandas persuasivas, pode-se notar uma evidente estratégia de afastar os eleitores do poder que tem de destituir os corruptos de seus cargos. Afastando os cidadãos do exercício do voto, quem está no poder, por ter sido eleito por um contingente de eleitores, sabe que pode contar com o mesmo contingente e se perpetuar no poder. E as pessoas que acompanham os casos de corrupção, os escândalos de sonegação, de desvio de verbas, a não aprovação de projetos importantes e a aprovação acelerada de projetos que beneficiam grupos no poder, acabam por acreditar, então, que o melhor caminho é a anulação do pleito, sem saber que estão sendo bárbara e deliberadamente enganadas. E isso é tudo que os donos do poder querem: que os que poderiam fazer diferença votem nulo.

Votar nulo ou em branco é ficar de fora do processo de eleição e deixar que outros votem e decidam por nós. E podemos ter certeza absoluta que muita gente, muita gente mesmo, comemoraria se LGBTs, feministas, negros, índios e outros tantos grupos marginalizados apenas não votassem, pois não votar não provoca qualquer mudança. Dizer apenas que não concorda com coisa alguma, que é tudo sujeira e não se envolver não votando, não faz diferença, pois as instituições de poder não desaparecem somente por isso, o sistema não muda – nada é alterado pelo voto nulo. A única coisa que pode alterar o quadro que se apresenta somos nós. E nosso maior poder contra a corrupção institucionalizada – no momento – é o voto. Portanto, sem qualquer exagero: uma das maneiras de mudar o país é votando. Muitas mudanças podem vir através do voto, retirando do poder os políticos corruptos e conservadores tacanhos que não deixam o país avançar em várias direções. Uma profunda mudança é possível com a eleição dos nossos representantes, não somente LGBTs e feministas, mas representantes de outros grupos sociais marginalizados, discriminados e lesados historicamente. Isso poderia mudar este país de um jeito que ainda estamos por ver. E isso, sim, depende não do voto nulo, mas somente de nós eleitores, do nosso voto.

Precisamos mudar quem está na política institucionalizada, quem a faz. E podemos fazer isso através do voto, afinal, foi através dele que estas pessoas foram e são eleitas e é através dele que outras pessoas melhores podem ser postas no lugar delas – basta vermos a atuação de Jean Wyllys no Congresso Nacional, por exemplo. Jean é um grande exemplo de como a política pode ser feita de forma diferente da que estávamos acostumados a ver. É possível haver compromisso, responsabilidade, coragem e lisura. E é assim: através do voto que elegemos quem faz as leis contra ou a nosso favor. Outros grupos estiveram e estão organizados para votar em seus representantes, que defendam os seus interesses. Por tudo isso, em vez de anularmos nosso voto, devemos nós também estarmos organizados e votar em candidatos que tenham provado estar do nosso lado, que estejam realmente comprometidos com as lutas que são nossas, nas quais acreditamos. E se eles não forem eleitos, ao menos teremos tentado. Lutar jamais é fracassar, mas não tentar é fracasso antecipado. Não devemos pensar que com nosso voto somos apenas uma pessoa lutando, há sempre muita gente que pensa como nós, basta nos descobrirmos, nos encontrarmos e nos organizarmos. Precisamos sempre nos lembrar que “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, mas se juntar o bicho corre”!

@ivonepita

Acenar é preciso.

o aceno sempre pode ser uma arte
daquelas visíveis para poucos
ou somente para duas pessoas
o aceno por carta
por riso
por gesto
por uma surpresa
um presente
um correio

o aceno para dizer oi
até mais
me espere
que bom te ver
estou feliz com você
senti saudade
te gosto
te quero
te espero

o aceno que nem sempre se vê
o aceno envergonhado
um sorriso de cabeça baixa
uma careta seguida do riso tímido
acenos

os que são evidentes
que são acordados socialmente
os cordiais e protocolares
os acenos surpreendentes
involuntários
denunciadores
que entregam o desejo
acenos necessários
acenos a não restarem dúvidas
acenos que estabeleçam laços
que evitem o rompimento
que assegurem
em reposta a outro aceno
como declaração de amor
aceno para dizer que não,
aceno para dizer que sim,
aceno que pede tempo
que se despede
que avisa do retorno
que assinala reencontro
aceno para não deixar escapar
aceno para dizer eu vi
recebi
gostei
aceno que diz ainda estou por aqui

aceno para acariciar
para acalmar
para aplacar
para apaziguar

aceno que não deixe dúvida sobre seu significado
que estabeleça laço, ponte, entendimento
aceno para não deixar no vazio
aceno para que não se pense que a espera é vã
aceno para se dizer sem falar
aceno para se poder em paz aguardar
aceno sem ruídos
direto
aceno eloquente
que talvez diga apenas um aguente
e que, sim, é afeto o que se sente

@ivonepita

O que acontecerá com os filhos de casais LGBT?

Quando pessoas desagradáveis – para dizer o mínimo – dizem que a mãe é sapatão e o pai é viado, apontando isso como um demérito, como uma falha, como uma aberração, basta explicar tudo direitinho: que o problema é dos outros! E avisar e preparar os filhos para o que eles vão enfrentar. Afinal, quem, na infância ou na adolescência, nunca sofreu pelos amigos dizerem coisas horríveis sobre os pais? Tudo depende de como somos preparados para o enfrentamento e de como nossos pais nos apoiam. E isso serve para qualquer constituição familiar.

Há apenas algumas décadas havia um grande alarde sobre como filhos de casais inter-raciais enfrentariam tal situação e que isso seria um problema imenso. E, então, os conservadores – novamente para dizer o mínimo – de plantão, logo se arvoravam de defensores das crianças e se posicionavam contra relações inter-raciais. Imagine uma criança negra filha de pais brancos ou uma criança branca filha de pais negros?! Isso seria, certamente, traumático para a criança. Como adultos iriam impor isso a criaturas tão indefesas e que não escolheram isso?! Foram os pais que traçaram tal destino para a desamparada criança.

Tudo isso como se todos nós escolhêssemos os pais que queremos ter e jamais sofrêssemos agressões por causa deles e das mais variadas – pais gordos, pais velhos, pais baixos, pais carecas e mais uma infinidade de bobagens. Mas, obviamente, os tais autointitulados baluartes da família “natural” não eram racistas, pensavam somente no bem da criança! Exatamente como fazem agora: eles não têm nada contra os LGBTs, preocupam-se somente com as criancinhas do Brasil. Por isso nos tratam tão bem, com tanto respeito e consideração, a questão é somente o que iria acontecer com a criança.

Ora, eu não sei o que acontecerá com crianças criadas por casais LGBT, eu sei o que já está acontecendo. A criança criada por LGBT pode ter uma boa chance de aprender desde cedo que é tudo muito natural e, claro a relação com seus pais e/ou mães assim também o é. É a família que ela conhece e ama. Ela não julga, não acha errado, não vê coisa alguma de mais (nem de menos!).

Aqui na cidade do Rio de Janeiro, há escolas em que dependendo se é dia dos pais ou das mães, os alunos levam dois ou nenhum presente para casa. Simples assim. Sem traumas. Ninguém morre ou surta por isso. Na reunião de pais, revezam dois homens ou duas mulheres. Ao chegarem à escola, estes alunos são deixados por seus pais e/ou suas mães, todos sabem quem é quem e todos convivem muito bem, harmoniosamente e sem disfarces. E há muito mais acontecendo neste sentido do que alguns imaginam e acontece assim, desta forma tranquila e agora, em nossos dias. Acho que esta discussão, inclusive, já deveria ter sido superada, pois todos sabem – exceto se a criatura tiver passado as últimas décadas em uma caverna no aconchego do centro da Terra! – que o casal não determina a sexualidade da criança e que o fato da constituição familiar não estar alinhada aos moldes conservadores, não impede um lar amoroso e uma vida saudável.

É preciso, portanto, lutarmos contra as possíveis discriminações e nunca – jamais! – permitirmos o impedimento ao amor, ao afeto, à família. Por isso devemos nos unir e lutar cotidianamente: por nosso direito à felicidade, não somente a minha e a sua, mas a de cada um de nós tão diferentes e tão iguais em desejos.

@ivonepita

O tempo do silêncio.

 

o tempo do silêncio é o tempo da abstinência
tempo de não ver
de não falar
não tocar
é o tempo de pensar se vale a pena insistir no exercício da resiliência
ou se é melhor agir feito aquelas pessoas admiráveis
para quem tudo é de todo bom ou de todo ruim
que vivem linda e levemente no reino do maniqueísmo
sem maiores reflexões ou entendimentos, sem ponderação
o tempo do silêncio é o tempo do entendimento
o tempo de pensar se o que se sente é afeto mesmo
ou se foi apenas encantamento, empolgação
se tudo não se resumia a ser divertido somente
sem maiores comprometimentos, riscos ou mergulhos
é o tempo de decidir o que deixaremos para trás
se no passado ficará somente o desentendimento
ou também toda a história vivida, sem lhe darmos continuidade
é o tempo de entender qual o tamanho da saudade
se é saudade de fato ou só uma cisma
é entender que historia foi ou está sendo
o tempo do silêncio é aquele em que você fica só
absolutamente só e sob abstinência:
não ouve nem vê nada que faça referência à pessoa com quem ocorreu o conflito
nem imagens, nem voz, nem músicas, nem um e-mail ou frase curta qualquer,
é o tempo de total afastamento
tempo para ver qual espaço de fato a pessoa ocupa em sua vida
e como se lida com as memórias dela, o que lhe dizem e lhe causam
no tempo do silêncio vamos apurando nosso olhar sobre o que houve
tanto antes do conflito, como durante e depois
é quando conseguimos saber mais e melhor sobre a importância da relação
se era apenas um tanto faz ou se tornava os dias mais felizes
é o tempo de saber se podemos realmente ficar só com o que é bom sem voltar ao ruim
se podemos simplesmente esquecer os embates para ficar apenas junto
é o tempo de saber se a mágoa fica intransponível e se a tudo assola
ou se é plenamente diluível no afeto que a tudo recupera e transforma
o tempo do silêncio é onde se decide pelo rompimento ou pela permanência
é dentro de onde se vê com acuidade se era tudo meio falseado, apenas sonhado
ou tudo absolutamente verdadeiro, legítimo, intenso e se ainda persiste
no silêncio é que se encontra a calma
tão necessária para entender que muito do que se achava
que a outra pessoa tinha errado talvez tenha sido você
e aí mesmo é que é necessário muita, muita calma para resolver
continuar em uma insistência barulhenta pode apenas agravar seus erros
e acabar com qualquer chance de reparo
no silêncio você parecerá sentir todo o peso do mundo, toda angústia e os ecos
todos os ecos de todos os erros, todos os ecos de todas as lembranças boas e ruins
até que tudo ficará realmente mais silencioso, mais calmo
e você poderá distinguir melhor erros e acertos
além disso, você estará fazendo o mesmo pela outra pessoa: a deixando em silêncio.
Em paz.
Sei bem que não é fácil, a vontade é de sair falando, escrevendo, cutucando de alguma forma.
Eu sei que você pode ter criado uma dinâmica toda especial e exclusiva,
que a outra pessoa te inventou todo um cotidiano preenchido pela presença dela.
Eu sei que você pode se contorcer na cama, pelas paredes, na mesa de trabalho,
mas aguente.
Ligar, falar, comentar pode apenas lhe retornar em forma de nada, uma não-resposta
ou, ainda pior, um doloroso fora.
E a mágoa seria novamente remexida.
Deixe passar. Deixe acalmar, pois somente assim será novamente possível.
Eu sei que a vontade louca é de trazer logo tudo de volta. Mas tudo o quê? A mágoa junto?
É preciso deixar que a mágoa se esvaia.
Talvez o tempo do silêncio seja o tempo do escoamento.
É nele que deixamos tudo apenas escoar para assim vermos o que fica.
Ficará a tristeza, a mágoa, as lembranças ruins ou a memória boa, o gosto bom, o quero mais?
E talvez o tempo do silêncio seja isso: o tempo do discernimento e da recuperação.
É preciso deixar que cada coisa que feriu não fira mais.
E fazer o exercício para que o escoamento seja somente do que foi ruim.
E que, finalmente, se possa chegar ao reencontro: o tempo da delicadeza.

@ivonepita

Eleição, afeto e equívocos.

Nestes últimos dias, desde que anunciei minha pré-candidatura, e agora já em campanha, tenho recebido muito apoio, muito carinho incentivo. Estando com Jean e falando com as pessoas, pude perceber o mesmo: muito afeto. É uma linda – linda mesmo! – profusão de elogios, abraços, beijos, poses para foto. É bom demais ficar junto de pessoas que em vez de nos atacarem por nossa luta e nossas escolhas nessa trajetória, chegam junto para ou apoiar tudo o que fazemos ou discordar em parte com diálogo e novas ideias. É delicioso poder conversar, debater questões importantes para o país e especificamente para o Estado do Rio de Janeiro com gente realmente disposta a ouvir e a falar. Depois de encontros como este, a sensação é de força renovada, é de termos mais fôlego e a maravilhosa confirmação de que não estamos sozinhos, há interlocutores, ótimos interlocutores na concordância e na discordância e há gente que vem junto, que caminha junto, que ora vem ao lado ora vem atrás ora nos puxa pela mão e nos diz para seguir em frente. E isso é imensurável é sensação quase indescritível.

No entanto, um equívoco é facilmente identificado no meio de tanta conversa boa e tanto afeto: a crença de que Jean Wyllys já está eleito, a aposta de que eu irei facilmente junto ou de que já estamos eleitos por sermos bem conhecidos entre ativistas de Direitos Humanos. E é um grave equívoco. Tão grave que a insistência ou superação de tal engando pode significar em grande parte a definição de nossa eleição ou não. Explico: por melhor que tenha sido e seja o trabalho de Jean, com as conquistas que alcançou, com os prêmios que recebeu, com os eventos em que esteve presente, e por mais que eu esteja nas redes, leiam e admirem meus textos e eu participe de manifestações, ainda assim, nós dois somos totalmente engolidos pela avalanche de propaganda de nossos concorrentes. E isso não é pouco. Não é pouco mesmo. A gente sabe bem que boa parte da população vota das formas mais aleatórias, pelos motivos mais inesperados e em quem dizem para votar ou naquele número daquela pessoa de quem recebeu um “santinho”. Além disso, há ainda o poderio dos que fazem parte dos jogos de poder, dos que tem ligações com os donos do dinheiro, que são donos do dinheiro, dos que tem relação com os donos ou são eles mesmos proprietários de veículos midiáticos. E assim, contra tudo isso, lutando para não sermos engolidos por todos estes monstros que sabem facilmente triturar os adversários, é que Jean Wyllys e eu seguimos nestas eleições.

E, então, em frente nós caminhamos felizes e fortalecidos pelo afeto, preocupados com a participação efetiva de quem acredita em nós. Nossa preocupação é que cada pessoa que sabe de nossa campanha, que conhece nossos trabalhos, como lutamos, o quanto lutamos, pelo que lutamos e tudo aquilo em que cremos e temos compromisso, realmente participe dessa caminhada. Não temos dinheiro, não temos acordos espúrios – nem queremos! -, não somos de famílias de empresários nem da imprensa nem de outros setores, contamos com a força dos nossos pares. Contamos com a contribuição de quem vem mesmo junto, contribuindo com o que pode, seja doação em dinheiro, em material, em trabalho voluntário de panfletagem, em abertura de comitê, em promoção de reuniões, em divulgação de nossos cartazes pelas redes. E é isso: mesmo com apenas uma mudança de imagem de perfil, colocando a minha foto com Jean, a ajuda à campanha é imensa. Várias pessoas não sabem se Jean é candidato à deputado federal ou estadual, por mais incrível que possa parecer a nós que participamos mais de perto do ativismo. Várias pessoas não sabem que, finalmente, me sinto preparada e resolvi me candidatar à deputada estadual. E não temos realmente como ampliar nossa força de propaganda senão pela colaboração de quem acredita na gente. Não temos como fazer frente ao poderio dos conservadores, dos fundamentalistas, dos que estão lá desde sempre, o que promovem apenas mais do mesmo, senão pelo apoio e participação efetiva das pessoas que querem mudanças, que nos conhecem e sabem quais são nossos compromissos. Por isso, não se iluda de que é ou será fácil, não se acomode por ver outras pessoas nos divulgando e apoiando, sua participação é muito importante. O apoio de cada pessoa é fundamental. Então, venha participar de forma concreta das nossas campanhas. E agora, no minuto em que lê este trecho, pois basta a divulgação de uma imagem, por exemplo, algo tão fácil, simples e rápido, e não temos tempo algum a perder, afinal, ainda temos tanto a fazer e a conquistar pelo bem comum. Tanto!

Divulgue o cartaz abaixo em seu Facebook, no Twitter, no Whatsapp e em todas as redes que puder e venha participar do grupo em que planejamos ações, divulgamos cartazes etc.(https://www.facebook.com/groups/334443036680627/) Nossa campanha é colaborativa e é algo realmente bacana de se construir junto. E sigamos. o/

@ivonepita
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Eu te represento, tu me representas

10384356_819295481415378_7048982434445787282_nRepresentar. O que significa exatamente representar alguém ou ser ter nossa representação nas mãos de outra pessoa? Representar vem do latim representare, colocar à frente. E vemos que é isso mesmo: quando temos, por exemplo, alguém que representa nossos interesses, esta pessoa traz à baila assuntos que talvez antes estivessem sendo tratados de forma secundária ou nem sequer tratados. O representante, no entanto, coloca as questões que representa em primeiro plano, as coloca à frente. Bom exemplo disso é a atuação do deputado federal Jean Wyllys no Congresso. Quando tivemos alguém que insistisse tanto nas questões relativas às pessoas LGBT? Quando tivemos um representante político que levasse ao Congresso Nacional projetos de lei para que estejamos em igualdade de direitos com os demais cidadãos? Quando foi possível contar com uma voz ativa na maior casa legislativa do país expondo nossas aflições, nossos problemas e nossas reivindicações? Jamais. E isso se deve justamente à falta de representatividade da qual sofríamos antes. E, por isso mesmo, é importantíssimo falarmos sobre isso e mostrarmos a maior quantidade possível de pessoas o quanto os vários segmentos sociais estarem bem representados na política institucional é importante.

Representatividade, afinal, é isso mesmo: é estarmos presentes, é termos voz. Fazer a representação de todo um segmento é falar e agir em acordo com as tantas vozes que se quer representar, é carregar adiante as bandeiras de luta de todo um grupo social. Representar outra pessoa, ou grupo de pessoas, é receber uma delegação de autoridade para lutar por questões específicas, em nome de outrem. É tornar presente quem não pode estar em determinado espaço, lhe dar voz, lhe garantir a vez. É ser um símbolo da própria luta de todo um grupo social. Ser representante é ser mandatário, é ser procurador dos anseios e necessidades alheias. Ser representante não é ser pouco. É estar lá, à frente, suprindo a ausência de outras tantas pessoas, é se apresentar no lugar delas – por elas. É lhes manifestar a própria vontade. O que, naturalmente, faz com que seja necessário um forte vínculo entre quem representa e quem é representado, pois somente assim a representatividade é satisfatória e tem sua legitimidade reconhecida. E, por isso mesmo, é imprescindível atentarmos a quem designamos como nossos representantes. A grande questão é entendermos, é sabermos – e com certeza – se esta ou aquela pessoa pode e irá de fato falar por nós, agir em nosso lugar, lutar realmente pelas questões que nos são primordiais. E, naturalmente, com lisura, com honestidade e firmeza.

Nossos representantes estão em muitos lugares: em escolas, associações diversas, movimentos sociais, nas ruas, nos sindicatos, em igrejas, em atuações isoladas ou em grupo, lutando sem cessar por um mundo em que sejamos vistos, reconhecidos e respeitados. Disso não devemos duvidar, afinal, os vemos todos os dias em suas lutas tão árduas. Mas e na política institucional, onde se fazem as leis e onde são executadas? Onde estão nossos representantes? Como mudaremos as legislações federal, estaduais e municipais que estejam em acordo com a justiça e a igualdade para todo cidadão brasileiro se não temos nossos representantes nessas instâncias? Se nossas vozes e atuações são importantíssimas fora da política institucional, são também fundamentais na política institucionalizada. E não sendo excludentes, mas o contrário, complementares, por que não elegermos nossos representantes a cargos eletivos? Por que não ampliarmos a voz e a força de nosso único representante no Congresso Nacional? E ainda multiplicamos nossa representatividade em câmaras estaduais e municipais? Não faz sentido algum, pois é urgente que nossa voz seja ampliada e fortalecida. É imprescindível representarmos a nós mesmos, com nossas necessidades e anseios. Somente assim conseguiremos uma inclusão social satisfatória, o reconhecimento de nossos direitos e mecanismos que nos protejam da violência homotransfóbica – seja física ou simbólica.

E que cada grupo social aprenda a importância de eleger seus próprios representantes. Isso é democracia. Este é o embate natural entre os diversos segmentos sociais com seus interesses representados e em disputa de espaço. Saibamos disputar o nosso. Mas saibamos também, e antes, que conceder a alguém a nossa representatividade é autorizar que esta pessoa tome decisões em nosso lugar, numa instância que não chegamos pessoalmente, mas somente por quem nos representa. E daí a importância imensa da escolha correta. Da escolha de quem realmente esteja na luta diária, pondo sua voz e sua imagem a serviço das causas de nosso grupo. Daí a importância de sermos protagonistas de nossa própria luta, das questões que conhecemos como ninguém e que dizem respeito e atingem nossas vidas como nenhuma outra. E, afinal, se a história é nossa, por que não sermos nós mesmos os seus fazedores como protagonistas dela? Por que razão nós mesmos não nos representarmos?

Estamos em um daqueles grandes momentos históricos em que tiramos todo um grupo da margem social e trazemos para o centro. Luto para que todos saibam que podem fazer parte deste momento ou perderão a grande chance de tomar parte dele. Muitos dizem que gostariam de ter lutado contra a ditadura, pela abolição, pela república, pelo voto feminino e outros tantos acontecimentos, mas, ora, estamos agora mesmo travando uma luta enorme! Vamos, portanto, lutar e fazer história que o momento é agora!

@ivonepita

Uma quarta qualquer

Quando uma quarta-feira, uma quarta qualquer, revela-se um monstro-preguiça devorador de suas vontades. E faz de você uma espectadora de si mesma.

Espectadora que olhando reconhece bem o que vê: alguém que abre mão de orgulhos bobos e outros expedientes para não ceder à tentação.

Tentação de não ter disposição alguma à reflexão, à compreensão ou à resiliência e de apenas brigar ou romper com quem insiste em intransigências.

Intransigências tão bem justificadas por quem a elas se agarra, mas tão incompreendidas por quem diante delas fica apenas com a tristeza e a decepção.

Decepção remediada apenas pela calma trazida pelo tempo, senhor dissipador de todo susto e toda mágoa, e que nos permite manter e cultivar o afeto.

Afeto que me toma pela memória os sentidos e me leva em viagens por falas, sorrisos, gestos, olhares e imagens por toda uma quarta, uma quarta qualquer.

@ivonepita

Da resiliência do afeto

Não, não é tarefa fácil. De fato, é extremamente difícil, resiliência é um processo e nele há riscos de várias quedas: em um dia a compreensão está ali, no dia seguinte pode estar somente o ódio egocêntrico. No entanto, é aí mesmo em que reside a resiliência do afeto: resistir a toda montanha russa emocional em que entramos quando ocorre uma briga ou um desentendimento de maior ordem. Para tanto, naturalmente, é necessário entender que é absolutamente natural sucumbirmos a dores, dúvidas, incertezas, mágoas e momentos de fúria e saudade, justamente pelo exercício frustrado do afeto. Mas que é só isso. É o afeto se debatendo sobre si mesmo. É o afeto doente. E precisamos ainda entender que não é a outra pessoa que tem de nos retirar deste lugar, a pessoa que supostamente te atirou nessa área sombria. Nós é que devemos fazer nosso próprio resgate. Nós é que devemos superar todas as dores e mágoas, olhar para o embate como fato ocorrido e entender que é impossível ter domínio total sobre o que aconteceu. E é fundamental não nos esquecermos do óbvio: de que não somos oniscientes. Não podemos saber o que se passou ou que se passa com a outra pessoa. E é isso, cada pessoa age como escolhe ou consegue agir. Talvez se tenha decidido deliberadamente por ferir, talvez não. E qualquer uma dessas ações está dentro do que a pessoa consegue oferecer ao mundo. Dentro do que ela pode e consegue ser. Talvez a grande ferida – seja de que ordem for – esteja na outra pessoa. Não há como saber. E talvez seja anterior a nós. Podemos ter tocado em um ponto de fragilidade ou cruzado uma linha que não percebemos o quanto ia ferir a outra pessoa.

Talvez, para imensa tristeza, dor e desespero, a outra pessoa tenha de fato de ir embora. Talvez temporariamente, talvez de uma vez por todas. Sim, dói demais. É inaceitável até. Mas não é algo que se possa mudar e, principalmente, não precisa ser considerada responsabilidade sua. Como saber por que a outra pessoa foi embora realmente se havia afeto? Quando não há, é fácil. Quando está tudo muito ruim, também. Mas quando está tudo bom e leve e com tanto afeto que quase palpável, como explicar? Como aceitar? Como entender? Como lidar com o rompimento repentino por conta de um ou alguns desencontros? Não há fórmula. Não há remédio. Não há antídoto. É suportar toda a confusão do golpe violento. É aguentar todas as dores que virão a cada dia de lembrança e espera. É lidar com todos os sentimentos controversos sem se deixar derrotar por eles. É se concentrar na certeza de que com o tempo tudo se acalma e pensamos e sentimos tudo de forma mais lúcida. Se a pessoa rompeu, é porque precisou romper. Não importa se de forma abrupta, agressiva ou qual seja, se a decisão foi pelo rompimento é porque a outra pessoa considerou que esta era a melhor escolha naquele momento. A melhor para a outra pessoa, sim, mas quem disse que não foi também por você ou por vocês? O que importa mesmo é: que tipo de afeto será o meu se eu colocar a saudade que sinto acima da necessidade da outra pessoa?

E sim, por mais amargo que seja, nada pode garantir que o afeto voltará para o lugar de antes. Talvez quanto mais tempo passe, com a distância, mas ele se dilua em outra coisa. Mas também nada, nada pode garantir que não voltará ainda mais forte, mais firme, mais enraizado e alastrado, cheio de novas nuances, com mais flexibilidade e maior compreensão – adquirida na resiliência do suportar e transformar. Não é fácil. Pode ser demorado. Tudo pode se perder. Mas se há afeto de fato, se os afetos de duas pessoas se tocaram, se atravessaram, se havia um lugar de afeto único, em que apenas duas pessoas são cúmplices, um espaço que a apenas duas pessoas é inteligível e palpável, o afeto pode vir a se transformar no que tiver ou precisar vir a ser, mas estará ali, ele, o resiliente afeto.

Mas antes da resiliência o looping: o que levou a outra pessoa a reagir de forma exagerada, dramática, agressiva diante de uma ação sua? Por que a outra pessoa apenas não foi compreensiva? Por que não se manteve firme a seu lado? Por que não quis mais conversar? Por que foi embora? E aqui uma evidência: sempre que se pensa sobre a outra pessoa é com uma condenação implícita. Diante do rompimento, mesmo que a gente pense sobre o que levou a outra pessoa a romper, pensamos sempre do nosso lugar de dor, do nosso lugar de narcisistas, egocêntricos e autorreferentes. Por que romper comigo, o que eu fiz de tão grave? Justo agora que estávamos tão bem? Mas se nos gostávamos tanto por que razão ir embora? Alguns dias antes estava tudo tão bem, tão gostoso, foi tão maravilhoso o tempo passado junto e há apenas algumas horas, então, como a outra pessoa pode ir embora? Como pode me pegar de surpresa desta forma e me causar esta dor? Eu, meu sofrimento, minha dor, meu afeto, minhas alegrias, minhas lembranças, meu espanto, meu estarrecimento, minha tristeza, minha sensação de descarte. Tudo assim, no pronome possessivo da primeira pessoa. Mas e, então, você que tem tanto afeto, tanta consideração com a outra pessoa, tanto cuidado, o que tentou entender do sofrimento dela, da dor, do afeto, da tristeza, da sensação de ir embora, da decisão de ir, dos porquês?

A resiliência é um exercício de resistência e também de desapego. De si e das próprias verdades. É se preocupar se há mágoa em quem te magoou, é torcer para que esteja bem quem te deixou tão mal, é querer que pense lucidamente quem te causou tontura. A resiliência do afeto só é vivenciada se conseguimos ultrapassar o eu. Não é tarefa nem um pouco fácil, afinal, fomos ensinados a vida inteira e somos bombardeados todo o tempo, na quase totalidade dos espaços, a olharmos muito para o nosso próprio lado, sobre o que nos atingiu, a nossa dor. No entanto, se há afeto de fato conseguimos nos acalmar, parar de olhar para as próprias feridas, como se fossem as únicas e as piores do mundo e começamos a pensar que se a outra pessoa surtou, também nós surtamos. Que se nos agrediu, também agredimos. Mas óbvio que é sempre mais fácil olhar para a insensibilidade da outra pessoa, o que ela não considerou, o que ela não viu, do que ela não cuidou, afinal somos – todos – autocomplacentes. Com nós mesmos nossa benevolência é ilimitada. Mas e a outra pessoa? Obviamente, no processo para se chegar a resiliência, se não formos algum tipo de sociopata, temos períodos de mágoa, raiva, tristeza, choro, afinal, como não sentir mágoa ou tristeza quando somos feridos e raiva de toda a situação, da outra pessoa e até de nós mesmos? Todos os sentimentos que vêm após um desentendimento com quem se gosta estão permitidos, são naturais e acredito que é muito saudável admiti-los e vivenciá-los até que se esgotem.

Talvez chegar a este esgotamento seja o primeiro passo para chegarmos à resiliência. Ou talvez seja a resiliência que nos faça esgotá-los. Ou ainda, quem sabe, talvez seja um processo conjunto. Cada caso é único e cada pessoa vivencia tudo isso de sua própria forma e em seu próprio tempo. O que importa mesmo é chegarmos a esse momento em que apenas compreendemos, aceitamos e preservamos intacta nossa capacidade de alegria, de encantamento, de envolvimento e de afeto. E – talvez – com a mesma pessoa. A resiliência afetiva vale muito a pena. Não é tarefa fácil e nem para amadores, é exercício diário e é preciso amadurecimento, força, determinação, compromisso. E, mais que tudo, ele, a um só tempo elemento-chave da resiliência e seu maior prêmio: o afeto.

@ivonepita

Um dia homofóbica, no outro, sapatão.

Como vocês podem imaginar não foi tão rápido ou fácil assim, de um dia para o outro, mas fato é que sempre fui homofóbica. Até chegar à faculdade, atravessá-la até a metade. Depois passei a aceitar (aceitar, vejam só! Como se fosse da alçada dos homofóbicos nos aceitarem ou não!) os homossexuais homens. Aquelas velhas barbaridades que conhecemos bem: homem, mesmo que seja um sexo nojento com outro homem, ao menos faz sexo de verdade, tem coisas sendo introduzidas. Depois não pensamos mais se é nojento ou não e se descobre que nojento mesmo é o sexo entre mulheres: imagine só, chupar uma buceta! Como uma mulher pode pensar em chupar uma buceta?! E ter prazer com isso?! Ah, não, nojento demais! E é assim mesmo: lá vamos nós nos colocando no lugar de mulheres que fazem isso, sem nos dar conta do talvez estejamos fazendo. E sentimos nojo. Após um tempo, num estágio mais próximo de nos entendermos lésbicas, o nojo some, mas consideramos bem curioso que uma mulher realmente sinta mais prazer com outra do que com um homem e que seja possível um sexo estupendo sem que seja baseado no prazer pelo falo.

Um dia, no entanto, assim, sem mais nem menos, acontece a grande revelação de nós para nós mesmas. Cai reto e pesado em nossas cabeças o grande terror que talvez pressentíssemos (ou não!) ali: nós também somos gays. Somos homossexuais. O horror! O horror! Nós gostamos mesmo, mais do que qualquer outro sexo antes experimentado, é de trepar com mulher. Nenhum sexo anterior, com nenhum homem, ainda que tenha sido bom ou maravilhoso até, nos levou ao nirvana que tocamos ao gozar e fazer gozar outra mulher. E nós mulheres que amam, são amadas, devoram e são devoradas por mulheres compartilhamos desse grande momento de epifania em nossas vidas: ter o amor de uma mulher. Amar e ser amada por uma mulher. Trepar com mulheres. Desejar mulheres. Ser amada e desejada por elas. Parece um grande mistério que eu precisava encontrar e desvendar ainda nessa vida. É mesmo como uma grande irmandade conhecedora de um grande segredo apenas a nós revelado, uma epifania coletiva: a relação sexual e amorosa entre mulheres.

Mas e nossa homofobia internalizada de cada dia? Aquela que nos ensinou durante toda a vida que pessoas do mesmo sexo transando é nojento, um amor seco, sem procriação, sem um bem determinado e suposto encaixe anatômico que deveria ocorrer. A homofobia que nos ensinou por toda uma vida que homossexuais são minoria por terem um desvio psicológico ou um vício de comportamento. Até que tudo vai se esvaindo. E não, não se esvai de uma hora para a outra. Dependendo do nível de homofobia que foi internalizada durante toda uma vida, pode levar anos, décadas, quase até uma vida inteira. Para mim, demorou. Lembro que eu saía para dançar com minha primeira namorada e achava a coisa mais esquisita ver aquelas mulheres beijando outras e aqueles homens beijando outros, enquanto eu e minha namorada nos beijávamos o mais que podíamos. É, estranhávamos. Nós duas mulheres se beijando, estranhando outras que se beijavam.

Estranhamento. O mundo, a nossa vida inteira, nos ensinou que aquela visão não era normal, era esquisita e, como nós nunca víamos mesmo homossexuais se beijando, era algo incomum, estranho aos nossos olhos. E por isso mesmo hoje sei como é importante nossa visibilidade. Se não por nós, por quem vem depois, ou para quem está chegando. Para que seus olhos não estranhem o que virem e, assim, não estranhem outras pessoas nem a si mesmos. Lembro a propósito, de ficar em frente a um espelho como a minha namorada e a gente se olhando para entender aquela imagem, sim, éramos nós, lindas, se amando. Lembro muito vivamente da primeira vez que trepamos, da primeira vez que a fiz gozar. Da primeira vez que estava nua na cama ao lado dela e pensei: estou nua ao lado de outra mulher nua! E, vejam só, havíamos acabado de trepar uma noite inteirinha, non stop.

É, o tempo. O tempo de adentrar um novo território, ir sendo feliz e tendo prazer. Isso vai desfazendo a homofobia internalizada que nos faz estranhar a nós mesmos e a nossos pares. E, com certeza, e de forma muito forte e decisiva, as redes de apoio mútuo, diálogo e compreensão que vamos construindo. E talvez por isso eu sempre exercite e chame atenção para a necessidade de entendimento, de resiliência, de disposição em conversar, explicar, escrever. É lendo, conversando, compartilhando informações e nos apoiando, que vamos vencendo os monstros e fantasmas horrendos de rejeição que nos foram impostos e postos dentro de nós. É somente contando com nossos pares e com a coragem de vivenciarmos efetivamente o que nos dá prazer e alegria de fato – sermos nós mesmos – que vamos ficando cada vez mais livres, plenos e seguros em uma vida mais completa, intensa e feliz. É somente contando com nós mesmos e encontrando quem nos ame e acompanhe que abandonamos o personagem homofóbico que assumimos. Quando, finalmente, saímos de uma existência tolhida para uma vida em que tudo é possível, inclusive nós.

@ivonepita

* Naturalmente, falo da minha experiência pessoal, como mulher cisgênero, do que se passou comigo há mais de 20 anos, em que eu nem sequer pensava na existência de pessoas trans e em que usávamos gays e não LGBT.

Se restasse apenas um dia.

Estes dias tenho pensado em como se perde tempo. Como as pessoas perdem tempo, como perdemos tempo. Como nos perdemos. Como deixamos a vida passar sem agarrarmos o que mais nos move ou poderia mover. E mover deliciosamente. Não falo do que eu suponho que seria melhor para a vida desta ou daquela pessoa, não quero impor regra do que seria melhor de se fazer, o contrário disso: penso que não devemos jamais sucumbir ao que se espera que façamos ou ao que devemos fazer ou como devemos viver. Falo justamente sobre fazermos o que sentirmos realmente vontade, sobre viver o que realmente sentimos desejo de vivenciar. De evitarmos nos tolher, diminuir e cercear por convenções, imposições, regras sociais ou uma vida construída nesta ou naquela direção, por mais desestabilizador que seja optar por sermos nós de fato. De direito. E com urgência, afinal, mesmo que não tenhamos apenas esta vida, esta aqui é apenas esta mesmo, jamais se repetirá. O tempo não volta. As situações não se refazem, por isso, é assim mesmo: é agora ou nunca. Ainda que seja depois, jamais será agora, como seria a este tempo, neste momento. Mas, vejam só, o pior ainda anda à espreita: talvez jamais seja.

Quando eu chamo atenção para a possibilidade de restar apenas um dia não penso em catástrofes que destruiriam o mundo como na música que inspirou o título deste texto, penso em catástrofes pessoais: aquela pessoa para quem você queria dizer tanto, mas não disse, com quem você gostaria de viver tanta coisa, mas não viveu, por medo, por insegurança ou por sucumbir às pressões ou convenções sociais, jamais poderá ser vista por você novamente, jamais poderá lhe ouvir de novo ou lhe falar o que quer que seja, fosse para reagir mal a sua declaração ou para correr em sua direção com o sorriso e a recepção com que você estava sonhando. Um dia, uma noite, de um momento para o outro, a vida dela foi interrompida. Não haverá outros longos olhos nos olhos, outros sorrisos, outros sons de risadas atravessadas. Acabou. Terminou uma vida que você queria junto a sua. Uma vida que você amava sendo de outra pessoa. Finalizou qualquer chance de ser feliz como você havia sonhado ou como poderia ser especificamente com aquela pessoa – fosse da forma que fosse e pelo tempo que durasse. Acabou. E é sempre assim: a gente jamais espera ou conta com isso, afinal, ela está ali, linda, feliz, sorridente, leve, divertida, cheia de vida e é assim que contamos que continuará, pois é assim que a vemos, temos e carregamos todo o tempo por aí, sem nos dar conta do quanto pode nos ser arrancado bruscamente. E é assim: sem conspiração, sem o universo estar contra ou a favor da gente. O universo é apenas totalmente indiferente. E, então, caberá a nós aceitar que o erro foi nosso e encontrar forças para superar e jamais repetir o mesmo: a apatia, a covardia, a falta de coragem em viver e amar apesar de.

E tem mais: pode ser você. Dentro de casa, no chuveiro, na escada, no elevador, no carro, atravessando a rua, sem fazer qualquer movimento e mesmo dormindo. A gente pode morrer a qualquer hora, de qualquer forma. Fazendo nada, fazendo qualquer coisa. Sem motivo, sem aviso. E sei bem que nós sabemos disso, eu sei. A questão aqui passa longe do sabermos ou não, mas de internalizarmos e fazermos algo em relação a isso, o que em geral só ocorre quando temos uma experiência de quase-morte ou perdemos alguém muito próximo de maneira repentina. No entanto, a questão que quero fazer arranhar por dentro cada pessoa que ler este texto é o que se está deixando de viver por medo, por covardia, por nos perdermos em cálculos do quanto mudaríamos da vida atual e em previsões – impossíveis! – de como seria a vida futura. E do quanto perdemos com tudo isso quando nos deveríamos importar apenas com o que sentimos ao fazermos o que gostamos, vivendo o que nos dá prazer e com a paixão enlouquecida por quem nos tira do lugar e com o amor por quem nos faz sentir mais vivos.

Pensando em tudo isso, ao reler hoje Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispector, meus olhos paravam mais justamente nos trechos em que nos chama à urgência de vivermos o mais verdadeiramente e intensamente possível, dada a nossa existência ser única e uma só. E, assim, lá estava Lóri, com seu chamado me dizendo que “a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre”, dizendo que a “árvore forte é mais profundamente abalada que a árvore fraca” e me grita sobre o que sempre me correu e corrói por dentro: a voracidade de viver. E seu canto me entorpece ao me lembrar que há “um sentido secreto das coisas da vida” enquanto eu penso que meu desejo é justamente experimentar os segredos que se me apresentam sem necessariamente desvendá-los e, sobretudo, os que me dão prazer e enchem de alegria e vida.

Viver intensamente é por vezes se encontrar em uma montanha russa emocional que não pedimos nem previmos, mas acima de tudo, por Zeus e todo o Olimpo(!), é sentir a vida plenamente, tanto quanto se pode sentir. Eu estou com Guimarães Rosa, no Grande Sertão Veredas: “o que a vida quer da gente é coragem”. Coragem enorme em aceitar as surpresas totalmente estonteantes que ela joga assim sem o menor cuidado sobre nós e que revira tudo por dentro. Coragem de encará-la e segurá-la firmemente com toda a loucura que ela traz. Coragem de mudar o cotidiano, a vida futura, nossa história inteira. Coragem de mandar um texto, qualquer mensagem, fazer apenas um aceno ou uma ligação. Coragem para declarar afeto em um abraço. Coragem para o primeiro beijo. Coragem para aquele primeiro passo. Coragem para desistir de estar certo, para voltar atrás, fazer as pazes, passar por cima e deixar para trás o que não queremos aprender da pior forma: que ter razão ou insistir no rompimento teimoso era o que menos importava. O que importa mesmo é estar junto. É se entender, passando por cima de qualquer mágoa ou orgulho que ficam totalmente sem sentido diante da perda definitiva. O que importa mesmo é ter coragem para afeto pleno, aquele que acima de tudo é firme e resiliente. O afeto que sabe que vivenciá-lo é urgente.

E é isso: meu pacto maior é com a coragem e com a fome de vida. Eu quero mesmo é o quase insuportável de tão intenso, eu quero mesmo é a sensação de um infinito quase intolerável, eu quero é flertar com o impossível. Eu quero mesmo – e muito! – o que é a um só tempo selvagem e suave. E que venha com paixão, amor e dor, mas venha sempre. O que não suporto é a vida morna. O morno é vazio, é estagnante. O morno é morte lenta. Eu amo mesmo é o desassossego. Amo. A vida é um tédio quando estamos sossegados demais. Prefiro o desassossego ainda que ele me arranhe e eu me vire e revire pelo avesso.  O desassossego é o que me faz vivenciar a urgência em viver e ter noção exata do tempo que não temos para perder. É o desassossego que não me permite perder a noção de que a vida pode terminar a qualquer momento e que por isso precisamos mesmo é dela: da grande coragem de mergulhar em nossas próprias existências, enfrentando o medo do que for, o furacão que vier, mas não deixando de viver – por coisa alguma! – o que nos faz sentir de fato plena e intensamente vivos e felizes.

@ivonepita

Eu não cismei

O termo cisgênero, usado para especificar pessoas cujas identidades de gênero estão em conformidade com os gêneros que lhes foram designados, fazendo contraponto com transgênero, para mim, é só mais um termo para estabelecer contraposição, marcar diferenças entre um grupo e outro, como vemos em relação à orientação sexual entre homossexuais e heterossexuais. Ora, por que razão iríamos nomear apenas o grupo transgênero? Por que razão apenas um grupo receberia especificação? Isso sim seria rotular um grupo como um nome diferente, um nome para quem não está em acordo com o restante. E o restante? Do que seria chamado o restante, de nada? Isso sim é diferenciar uns, colocando-os como anormais e por isso mesmo necessitados de nomeação, uma patologização por rótulo, e isentar os demais.  Por que razão não nomear todos os grupos? Por que razão não especificar a que grupo cada pessoa pertence e apenas alguns deles? Afinal, sabemos que os considerados diferentes, anormais é que sempre são os rotulados, caso apenas um dos lados seja nomeado.

Se nós lidamos bem com as terminologias quando dizem respeito à orientação sexual, não vejo por que razão não lidarmos tranquilamente quando os termos dizem respeito à identidade de gênero. Não vejo nenhuma intransigência no fato de pessoas trans usarem e solicitarem o uso do termo cis, afinal, é assim que o termo é difundido, entendido e aceito. É assim que o termo trans deixa de ser aquele que rotula um grupo como sendo o diferente, o que se destaca do restante. Não entendo por que razão um termo para apenas contrapor pessoas que não são trans a pessoas que são poderia causar ou provocaria divisões no movimento LGBT. Ou por que razão quando termos são usados para especificar quem é ou não homossexual ou bissexual são especificações necessárias à luta por identidade, reconhecimento, construção de narrativas e história, mas quando são usados para especificar quem é ou não trans, de especificação necessária passa-se a considerar rótulo desnecessários e que apenas atrapalhariam o movimento.

Tenho visto algumas alegações contra o uso do termo cis bem parecidas com as que são usadas contra outros grupos: que o termo foi cunhado e é utilizado para diminuir os ditos normativos, como um revide, por exemplo, e que também é usado para desqualificar o interlocutor, acusado de não entender a realidade trans ou não poder sobrepor a fala de pessoas trans, frente à militantes trans, se é pessoas cis. Ora, o mesmo dizemos se uma pessoa heterossexual se arvora de mais entendedora da realidade de uma pessoa homossexual que a própria pessoa que vivencia tal realidade.  E o termo cis não surgiu do nada. Ele circula na web há duas décadas(!). E é absolutamente necessário à construção identitária, não é uma coisa qualquer, uma cisma. E se o termo é usado por algumas pessoas para silenciar militantes cis ou para agredi-los, isso não pode ser usado para condenar o seu uso, afinal, são apenas algumas pessoas. Seria o mesmo de pinçar algum exemplo de homossexual que fez isso ou aquilo para desqualificar todos os demais.

O que pode causar uma cisão no movimento LGBT é justamente a cisnormatividade e não o fato de recentemente nós, cisgêneros, termos também sido nomeados. Nós, os que antes se viam como um grupo oprimido, sem os privilégios dos heterossexuais, nos vimos acusados de também sermos opressores em relação a outros grupos, de também termos privilégios. Não, isso não é fácil de processar, mas também não chega a ser uma catástrofe. Todo grupo oprimido pode estar em situação de vantagem em relação a outro sem que se tenha que comparar quem sofre mais opressão na totalidade. Qualquer coisa com que me deixe em perfeito alinhamento com o que se considera normal, me dará o privilégio de passar despercebida, sem maiores problemas ou entraves e isso sempre ocorrerá em relação a pessoas que serão apontadas como o contraponto anormal e que serão alijadas de processos e situações, que serão impedidas em determinados pontos. Isso, sim, é o que se constitui privilégio. Exatamente como ocorre entre homossexuais e heterossexuais.

Por fim, ninguém tem a obrigação de usar o termo cisgênero, mas toda pessoa precisa saber o que significa usar ou não o termo, o que significa por sob um termo especificador apenas um grupo e não o outro. É preciso que saibamos, sim, a opção que estamos fazendo quando escolhemos impedir o não protagonismo – também em termos de voz – das pessoas trans, quando as ouvimos de fato ou não, quando realmente consideramos suas reivindicações, propostas e reclamações ou não. Quando promovemos entendimento e união ou não.

@ivonepita

Da responsabilidade do afeto

Certa vez, eu ainda na escola, uma pessoa disse que achava engraçado como eu dividia meus amigos sempre colocando uma locução adjetiva junto ao nome: da igreja, da escola, da rua. E mais interessante ainda era não colocar adjetivo algum, a pessoa mencionada era somente amiga. E aqui toda a diferença: não havia circunscrição, a pessoa era minha amiga mesmo, de fato, em todos os espaços, sem restrição. E também havia o termo colega, mas que parece ter caminhado para praticamente a ofensa. Dizer que alguém é apenas colega seu é como dizer que você e a outra pessoa apenas coabitam algum lugar por algumas horas e de forma obrigatória, como em um ambiente de trabalho. E aí vemos o amigo de trabalho. Só que há um problema aqui: algumas pessoas acabam creditando às palavras amiga ou amigo muito mais do que apenas um upgrade da palavra colega – mesmo quando ela está ali metida na locução.

É aqui que penso na responsabilidade do afeto. A gente não tem responsabilidade mesmo se a outra pessoa entende uma palavra no meio de uma locução como uma declaração de amor. No entanto, a gente é responsável pelo que diz e demonstra. E somos ainda mais responsáveis se insistimos em dizer o que nós não sabemos com absoluta certeza: se o afeto é legítimo, fixo, estável em nós. Somos responsáveis por afetar a outra pessoa. Isso mesmo: afetar, de afeto. Na psicologia, vemos afetividade ser tratada como suscetibilidade. Ficamos suscetíveis, somos afetados. Ou somos afetados e ficamos suscetíveis. Em latim é afficere, afectum, o que afeta, deixa marca, produz impressão, o que toca, que une, que fixa. É assim: o seu afeto atinge a outra pessoa, o afeto da outra pessoa mexe com você. Ninguém passa impune pelo afeto.

O afeto é isso: um laço criado, um estado de carinho, de ternura, de atenção, de cuidado. Talvez por isso eu sempre opte por usar a palavra afeto. Para mim sempre foi tão importante a precisão das palavras. Sim, gosto de metáforas, mas elas também devem ser precisas ou ficam sem sentido. Precisão. Do que precisa ser exato,mas  também do que é necessário. O afeto produz necessidade. Necessidade de troca, de atenção, de carinho. O afeto pode nos levar a uma resiliência que desconhecíamos em nós. O afeto pode nos fazer ultrapassar o orgulho. Ele pode nos fazer mais disponíveis e dispostos. Meu olhar sobre a outra pessoa é afetado, afinal. Para ela eu olho com ternura, tentando compreender o lugar que ocupa no mundo, a sua psique, e por isso como compreende a vida, os seres humanos, como reage nas interações com coisas e pessoas. O afeto me empurra para além do que costumo doar aos demais indivíduos. O objeto do meu afeto sempre contará com mais benevolência, mais paciência, mais compreensão e diálogo.

Se você declara afeto, você pode estar declarando tudo isso aí acima à pessoa-alvo de sua declaração – ainda mais se for insistente. A outra pessoa pode ficar segura de que há confiança, espaço para intimidade compartilhada. E se sentir confortável para derrubar os muros de proteção. Que se pode permitir a entrada em espaços bem protegidos de si mesmo.  Por isso você precisa ser responsável. Pense: talvez esta pessoa a quem você pretenda declarar afeto seja apenas uma companhia bacana, agradável, leve e divertida com quem você gosta de passear e rir junto. Pense de novo: você é capaz de suportar esta pessoa quando ela não estiver bem, quando ela estiver com problemas, com o humor e o ânimo alterados? Você é capaz de não somente compreendê-la, acolhê-la nesse momento em vez de expulsá-la de sua vida? Você é capaz de por o que sente por ela acima de desentendimentos de um período turbulento, lembrando-se de quem ela é de fato, a pessoa que você conheceu e conhece, e que está apenas transtornada? Pense e se decida. O afeto é resiliente, é tranquilo, sabe dialogar, mas também sabe ficar quieto e esperar. O afeto só não sabe o que é corte fundo e bruto, rompimento brusco e silenciador, caçador da palavra do outro. O afeto permite. Dá espaço, tempo. O afeto (se) renova.

Afetividade é o que liga as pessoas.  Ter afeto é ter apego. Estar apegado a alguém. Sejamos responsáveis ao declararmos afeto. Eu sou. Algumas pessoas ficam ressentidas comigo por eu não trazê-las logo a minha casa, não mostrar minhas coisas, não permitir que elas adentrem minha intimidade, que não divida com elas minhas dores, minhas memórias, meus planos. Queria que elas entendessem que é questão de afeto, mas também de tempo e abordagem. É questão de me sentir mais próxima, acolhida com segurança. É questão de conquistar com paciência e cuidado a minha confiança. É questão de eu ficar absolutamente certa do afeto da outra pessoa por mim, pois essas são minhas barreiras últimas que só permito a algumas poucas pessoas a ultrapassagem. Quando ultrapassam, viro toda afetividade, sou ofendida, agredida e desrespeitada algumas vezes e resisto, converso, reaproximo. Quando ultrapassam, percebo quando a outra pessoa não está bem, observo, tento compreender , se compreendo, espero o tempo de abordagem, de conversa e acolhimento, mesmo sabendo que posso não ter o mesmo quando eu precisar. Sim, eu me dou toda, sem reservas, ao afeto, com cuidado, muito cuidado, e ainda assim, sabendo sempre que posso me machucar, ser profundamente magoada e ficar partida em mil pedaços.  Como agora.

@ivonepita

Renovar. Recomeçar. Refazer.

Quando eu era religiosa, católica de carteirinha, uniforme completo e chuteiras, a cada Páscoa a ressurreição tinha um significado muito especial e estava longe de ficar circunscrita à ressurreição de Cristo. Páscoa significava um momento de reflexão, de renovação, a mim era ensinado que era um momento de parar, pensar e recomeçar o que fosse necessário. Era um momento de renovação. E só o Deus no qual eu acreditava por todos aqueles anos seria capaz de enxergar o quanto eu precisava crer nisso e por em prática com todas as minhas forças para atravessar o tanto de dificuldade que me era imposta para me vestir, para comer, para continuar os estudos, para continuar sonhando, mantendo intacta minha capacidade de me alegrar, de seguir em frente. De afeto. Ali a Páscoa adquiria o sentido de morte e ressurreição. Deixar para trás, se livrar de tudo que pesa, que machuca, que magoa, que impede de seguir adiante. Renovar-se. Fazer ressurgir. A esperança, a certeza no poder de restauro da própria vida. Em nossa natureza restaurativa. Aqui podem ressurgir sonhos, planos, esperanças, desejo de vida. E tantas vezes eu precisei de renovação. Tantas vezes eu precisei restaurar a mim mesma, minha força, minha firmeza diante das dificuldades, minha resistência frente a tanta carência material. Tantas vezes eu precisei renovar minha determinação em acreditar que eu poderia fazer tudo mudar, que eu poderia alterar minha trajetória, mudando minha existência para algo maior e melhor.

Gratidão intransitiva é o que sinto hoje. Sensação de gratidão por tudo que consegui superar, tudo que eu soube enfrentar, toda ajuda que tive – pois, sim, mesmo quando não sabemos, não percebemos, sempre temos ajuda e não falo de nada metafísico, místico, espiritual. Sinto gratidão por cada pessoa sensível e amorosa que atravessou meu caminho, que cruzou apenas minha vida e nela deixou sua marca ou que ainda aqui permanece colaborando com a minha construção diária, me ajudando a ser um ser humano melhor, mais empático. E se você crê que Cristo morreu e ressuscitou por você, então, acredito que nada seria mais coerente com isso e nada corresponderia melhor a essa fé do que renovar a si mesmo, o amor pela vida, a esperança, os sonhos, os planos, os afetos.

Renovar. Recomeçar. Refazer. Restaurar. Você pode chamar como quiser, o importante é que você não se perca de si mesmo, que não perca a noção do privilégio, do espetáculo único que é a vida, o fato de ter nascido e de estar vivo até agora, sendo uma partícula tão micro diante de tantas e tantas múltiplas existências nesse universo e das possibilidades de vida que nunca aconteceram, não irão acontecer ou já se romperam. Ressurreição para os cristãos. Liberdade para os hebreus. Renascimento para os pagãos. Acredite no que for melhor para você. O que importa é o ritual de passagem, de ressurgir, de se libertar, de renascer. O que importa é a renovação. Sim, renovar-se não é fácil. Mas quem disse que a trajetória seria melhor ou mais rica se não tivéssemos que nos exercitar em malabarismos entre os obstáculos? O movimento é justo o que nos torna mais sábios, mais fortes, mais resilientes, mais capazes de manter e fortalecer laços de afeto apesar dos percalços e dificuldades.

E não, eu não acredito em pecado, em milagre, em benção ou em um deus onipotente, onipresente e onisciente. Não acredito em lei do retorno em um sentido místico ou metafísico. Eu acredito no amor, no afeto, no respeito incondicional a outros seres humanos. Acredito em postura ética, em empatia, em consideração na mesma medida em que eu gostaria de ser respeitada.

Renovação. Coisas que deixamos para trás ou precisamos mesmo arremessar ao longe. Coisas preciosas que precisamos resgatar e cuidar melhor. Coisas especiais das quais precisamos cuidar com mais dedicação. Que saibamos passar por qualquer processo de mudança, da melhor forma possível.  Seja no amor, no afeto, na vida que exige decisões diárias. Por outro lado, possamos alcançar a aceitação plena. Que não haja nada em nós que precisemos matar. Que seja superado e deixado pra trás. Sem ódio, sem mágoa, sem rancor. Não vale a pena mesmo guardar e cultivar essas coisas. Que tenhamos toda certeza de que tudo que nos aconteceu, tudo que fizemos ou deixamos de fazer, tudo que conseguimos ou não, tudo de que demos conta ou não, tudo que conquistamos ou não, tudo que fizemos ou não de nós mesmos e da nossa vida precisamos entender que foi o que era possível naquele determinado momento e para aquelas pessoas que éramos naquele tempo. Que isso seja para além de entendido, que seja internalizado de forma tão tranquila, tão como parte nossa que seja essa a melhor Páscoa de toda a nossa vida e que seja melhor a cada ano.

Isso é o que desejo a cada pessoa: renascimento, renovação, passagem. Desejo vida. Vida plena, com tudo o que ela tem de melhor! Amém.

@ivonepita

Do lado de cá

O que nos faz cruzar a linha para a amizade de fato?
Aquela tão sólida que pode levar umas boas marretadas sem que se desfaça.
Aquela com a qual podemos contar para reconstruir boa parte de nós mesmos
quando caímos aos pedaços.

Será a liberdade dos desaforos ditos na cara?
A franqueza escancarada a qualquer custo?
O respeito radical à individualidade?
A sinceridade absoluta em qualquer aproximação?
O grito saído de qualquer jeito – mas ainda assim com afeto – no meio do desentendimento?

O que nos faz chegar ao terreno seguro do amor mais legítimo?
Aquele local de conforto e abrigo, em que dizer o que se deve ou precisa ser dito
não é uma temeridade e onde a leveza é presença sempre confirmada.

Em que momento uma pessoa deixa de ser apenas mais uma?

Quando o vocativo que seria agressivo traduz somente afeto?
Quando se notam os tratamentos carinhosos usados somente após um tanto de proximidade?
Quando o abraço deixa de ser apenas entre ombros, passando a ser de corpo inteiro – colado – sem pudores neurotizados?

Qual passo nos faz cruzar a linha da certeza do afeto?
Este sentimento delicado que atravessa amizades, paixões e amores.

Quando há cuidados desde uns fios de cabelo fora do lugar até o estado de ânimo e de saúde?
Quando passamos a nos sentir seguros e confortáveis a ponto de desnudar segredos, vícios e erros?
Quando começamos a nos ver transparentes, enxergando através das fachadas e máscaras que usamos para manter a segurança?
Quando passamos a poder brincar com o que quisermos e do jeito que quisermos
sem que haja desconfiança de um subtexto, algo não dito ou camuflado?

Quando é que passamos a tocar e a nos deixar tocar sem receio?
Quando se fica absolutamente à vontade para falar sem tato?

Onde, senão no terreno do afeto,
ter a certeza de que não há mais susto ou abalo,
que desgaste o sentimento instaurado?

@ivonepita

Saudades: a do dicionário e a minha

Foi dicionarizado,
saudade é sentimento de pesar
por algo ou alguém distante, ausente.

Mas em mim pesar algum:
não sinto mágoa, tristeza ou dor ao lembrar,
sou – por esta definição – uma pessoa sem saudades.

Se tenho memória de risos, falas, ideias, abraços,
nada disso me dói nem corrói,
está tudo ali: sendo deliciosamente revivido,
sem dor.

Deixar você é guardar algo único.
Como algo tão bom poderia doer?
Eu me alimento da sua presença dentro de mim.

Minha saudade é lembrar do gosto de estar junto,
é saber que estar com você é uma grande alegria
e desejar que ela seja sempre revivida.

@ivonepita

Apenas um aniversário

Há pouco mais de 20 anos conheci minha primeira namorada. Eu católica daquelas de sábado e domingo na igreja, homotransfóbica, tímida daquelas de ter vergonha da própria sombra, ela com o namorado, na festa de aniversário de uma amiga em comum. E o que seria apenas um aniversário como tantos outros, tornou-se um marco divisório em minha vida.

Nos vimos logo após minha chegada, olhamos uma para a outra: olhos brilhantes, sorrisos rasgados. Havia algo diferente. Olhei pro céu e implorei para o deus no qual eu ainda acreditava que não fosse verdade aquilo que eu estava sentindo. Ela, mais corajosa e sem as mesmas amarras, fez a aproximação que eu desejava mais que tudo naquele momento.

Começamos a namorar 20 dias depois e eu hoje nem lembro por que razão há esse intervalo, mas lembro que durante a primeira semana de namoro eu ligava para ela pela manhã para terminar a relação que implantaram dentro de mim ser errada, pecaminosa, anormal, doentia, mas que a noite estava mais feliz do que jamais havia sido, estando na companhia dela.

Ela ter suportado minhas crises de homofobia internalizada fez toda diferença para tudo o que veio depois entre nós e para que eu me tornasse quem sou hoje. E aqui penso como nós LGBTs não vivenciamos nossa adolescência, juventude e até a vida adulta como quem se alinha bem à heterocisnormatividade, como somos reprimidos, agredidos, violentados emocional e simbolicamente. E me emociono em pensar no que tive de vencer em mim mesma nestes últimos 20 anos até chegar nesta militante que vocês veem hoje. E choro de gratidão e amor por minhas amigas mais próximas, tão importantes e essenciais nessa caminhada de aceitação, reconstrução e fortalecimento.

@ivonepita